A falácia da polarização, por Marco Piva

Ao colocar Lula e Bolsonaro no mesmo patamar, o debate político empobrece a democracia que o Brasil precisa

Reprodução Redes Sociais

A falácia da polarização

por Marco Piva

Parece que muitos comentaristas políticos, especialmente de televisão, não suportam a ideia de que a eleição de 2 de outubro será plebiscitária. Dia sim, outro também, insistem que é necessária uma “terceira via” para romper a polarização. E aí reside o primeiro problema. Nenhuma candidatura presidencial pode ser bem sucedida se não tiver um lastro mínimo de organicidade na sociedade. Não basta a preferência dos meios de comunicação, outrora mais poderosos do que hoje. Nomes tirados da cartola à cartola voltarão.

O segundo erro é atribuir uma falsa equivalência entre os dois principais candidatos à frente nas pesquisas, como se iguais fossem na defesa do regime democrático. Ora, Lula forjou sua carreira na luta contra o autoritarismo, primeiro na militância sindical e depois na vida política. Em síntese, foi sempre um defensor da liberdade. Quando presidente, não usou qualquer expediente que limitasse o livre exercício de opinião.

Já Bolsonaro tem sua trajetória marcada pela força. Não pelo fato de ter sido do Exército, mas justamente por ter sido retirado de suas fileiras ao querer explodir um quartel, desonrando os pilares básicos da hierarquia e da disciplina. Vez por outra não deixa de expressar publicamente seu apoio à tortura e à ditadura. Portanto, sua vocação é autoritária e contra a liberdade.

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Tal desenho seria simples para uma criança entender. Mas o déficit cognitivo parece não ser o forte de alguns comentaristas. Ou, como hipótese, eles preferem estar ancorados gostosamente em prestígios passageiros junto ao “andar de cima”. O fato é que se queremos uma democracia mais sólida e vacinada diante de tentações autoritárias, é preciso deixar claro a que viemos e de que lado estamos.

As eleições deste ano, ao contrário de 2018, apresentam de forma muito mais explícita o embate entre civilização e barbárie. Há quase quatro anos, havia um Bolsonaro surfando no antipetismo alimentado por um Judiciário politiqueiro e uma mídia de abutres. A distinção possível era entre um professor universitário e um ex-capitão num clima de comoção política, fruto de uma facada providencial e da prisão de Lula.

Para aqueles que acreditam que civilização e barbárie são conceitos teóricos e distantes da maioria da população mais pobre, é bom lembrar dos preços nas gôndolas dos supermercados e nas bombas de combustível, além de outros itens essenciais que colocam à prova a vida de milhões de pessoas.

Não há, no atual quadro da disputa eleitoral, uma decisão difícil. Existem, sim, decisões e elas passam pelo crivo da ética e da realidade. Aos que desejam um país ainda mais desigual porque lucram com o aumento da pobreza só resta lamentar a falta de sensibilidade social. Aos que acreditam que a política se faz sem diálogo e pela via da imposição de valores de um só grupo, mais um lamento. Por aí se pode entender o voto em Bolsonaro.

Mas, se ao contrário, depois de tudo o que o Brasil sofreu nestes últimos anos, ainda sobrevive a esperança de uma nação mais justa, solidária e democrática, é hora de definições muito claras de que lado da História estamos. Dizer não a quem rejeita a liberdade, embora fale o tempo todo dela, é uma questão de princípio. Portanto, o voto em Lula não representa um outro extremo de uma suposta polarização. O ex-presidente e o atual presidente não são duas faces da mesma moeda. São antagônicos em sua essência e em seus objetivos. Em 2 de outubro a batalha será entre a civilização e a barbárie.

Marco Piva é jornalista, apresentador do programa Brasil Latino na Rádio USP e diretor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]

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