13 de junho de 2026

Bolsonaro contrata 3º turno, por Marco Piva

Não há na história recente do país e de nossa jovem e incipiente democracia registro de tamanha desorganização institucional
Sorridente, ex-presidente Jair Bolsonaro faz arminha com as mãos

Bolsonaro contrata 3º turno

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por Marco Piva

Nesta altura do campeonato, não resta dúvida: Jair Bolsonaro contratou o terceiro turno. À falta de votos suficientes para superar Lula, o presidente aposta no tumulto com seguidas investidas contra a lisura do pleito. As recentes pesquisas conferem credibilidade a essa hipótese.

Na última tentativa de tumulto – não necessariamente a última até o dia 30 de outubro – enveredou pela ficção ao atribuir ao PT a capacidade de interferir na veiculação da sua propaganda eleitoral nas rádios do Norte e Nordeste. Com uma dúzia de papéis assinados por uma empresa de duvidosa procedência, apresentou ao TSE uma “auditoria” em forma de denúncia. O tiro, mais uma vez, saiu pela culatra, especialidade de governos baseados no improviso e na incompetência política.

A iniciativa, que mereceu o arquivamento sumário por inépcia jurídica, foi uma tentativa de tirar de cena a ação tresloucada do bolsonarista Roberto Jefferson. O ex-deputado atirou contra agentes federais que foram prendê-lo por descumprimento dos requisitos legais para a prisão domiciliar na qual se encontrava. O “plano Bob” fracassou completamente e levou o pânico ao comando da campanha do presidente.

Outra ação desastrada e já desmentida tentou socorrer o candidato Tarcísio de Freitas, em São Paulo. O aliado de Bolsonaro criou um “factóide” no qual teria sido “vítima” de um atentado político ao visitar a favela de Paraisópolis. Errou duas vezes: ao acreditar que a Polícia Militar cairia nesse conto e, de quebra, reforçou o preconceito contra a população mais pobre.

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Além das ações diretas para desacreditar as eleições, Bolsonaro tem contado com o apoio de muitos empresários que estão praticando assédio eleitoral contra os seus funcionários. Segundo o Ministério Público do Trabalho, até o dia 26 de outubro já haviam sido feitas 1.633 denúncias no país, com destaque para os estados de Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina.

Existem casos bizarros que mostram a total falta de respeito de alguns empresários que confundem suas preferências políticas com a liberdade de opinião dos trabalhadores. Um frigorífico mineiro chegou a obrigar os funcionários a vestirem camisetas amarelas e a lerem um panfleto de apoio ao presidente durante um ato nas dependências da empresa. O empresário ainda prometeu um pernil para cada trabalhador em caso de vitória de Bolsonaro. Em outro caso emblemático, um empresário baiano chegou a propor que suas funcionárias colocassem o celular no sutiã na cabine de votação para provar que estavam votando no seu candidato, Bolsonaro obviamente. Isto é expressamente proibido por lei. É crime.

Somando todos estes fatos é possível constatar que o terceiro turno está contratado. Haverá questionamento do resultado e ameaças explícitas. Com uma base radicalizada e, em muitos casos, armada, não é de se desconsiderar a ocorrência de incidentes graves no domingo e nos dias seguintes.

Por outro lado, depois de quase quatro anos de um mandato que investiu na flexibilização do porte e uso de armas, fica a dúvida sobre o lado que as forças de segurança vão adotar em caso de um conflito pós-eleitoral. Somente para se ter uma ideia, atualmente são mais de 633 mil registros de armas em poder de civis, quase o dobro de todo o arsenal das Forças Armadas juntas.

Não há na história recente do país e de nossa jovem e incipiente democracia registro de tamanha desorganização institucional como esta que Jair Bolsonaro tem promovido com seu discurso de ódio. Pautas de costume e a propagação do fundamentalismo religioso invertem as reais prioridades da população e não permitem um debate sério e consequente sobre as soluções possíveis.

Este 30 de outubro de 2022 pode terminar com duas saídas possíveis: ou a reafirmação da democracia ou a instalação absoluta da barbárie. Bolsonaro sabe que uma eventual derrota trará muita dor de cabeça para o seu futuro imediato. Sem cargo e voltando a ser um cidadão comum, não terá mais o abrigo institucional que aparelhou nem sequer a solidariedade dos amigos que pensa ter. Por isso, contratou o terceiro turno. Quer ver até onde consegue chegar. Caso não dê certo, terá ainda duas alternativas: passar a faixa presidencial de forma civilizada para diminuir a tensão como cabe a qualquer chefe de Estado ou tomar o rumo do aeroporto.

Marco Piva é jornalista, apresentador do programa “Brasil Latino” na Rádio USP e pesquisador do Centro de Estudos Latino-americanos de Cultura e Comunicação da Universidade de São Paulo (CELACC-USP).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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