Em pauta, os lados extremos do debate brasileiro

De um lado, uma nova perspectiva para o trabalho no Brasil; no outro, as ameaças do partido militar ao ex-presidente Lula

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O deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) e o ex-presidente da Codemig (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais), Marco Antônio Castello Branco, conversaram com os jornalistas Luis Nassif e Marcelo Auler na TV GGN 20 horas desta quarta-feira (09/02). Na pauta, as ameaças do partido militar e uma nova forma de pensar a política de trabalho.

Sobre os dados de covid-19 no Brasil, o Ministério da Saúde não havia divulgado até o momento em que o programa foi ao ar. “É inacreditável a incompetência desse conjunto de militares que foram colocados lá pelo (Eduardo) Pazuello, e foram mantidos”, disse Nassif.

Segundo Nassif, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga “não tem função nenhuma – tanto que o assessor dele, o secretário, soltou aquela nota defendendo a hidroxicloroquina e ele não fez nada”.

Antes de abordar os casos globais de covid-19, Nassif destaca a prisão do empresário Airton ‘Cascavel’, ex-assessor de Pazuello, acusado de estupro de uma jovem em Santa Catarina.

“Esse (Airton Cascavel) era considerado dentro do Ministério o segundo homem do Ministério, embora não estivesse formalmente ligado ao Ministério”, lembra Nassif.

“Ele estava diretamente ligado ao Pazuello, e já tinha uma outra acusação de estupro contra um vulnerável da própria família – para vocês terem uma ideia do que ocorreu nesse país, o que está ocorrendo nesse país nesse período. É uma coisa efetivamente chocante”. Leia mais sobre o caso clicando aqui.

Quanto aos dados globais de covid-19, a média de casos em sete dias chegou a 2,168 milhões, queda de 16,5% em sete dias e de 24,5% em 14 dias. Dos 20 países com maior crescimento de casos per capita, 16 são da Europa.

Contudo, a média global de óbitos por covid-19 continua crescendo: a média em sete dias foi de 7.944, alta de 6,9% em sete dias e de 21,1% em 14 dias. Dos 20 países com maior crescimento de casos per capita, 13 são da Europa.

Reavaliação do trabalho

“Ontem nós trouxemos no programa o Nelson Barbosa, que foi ministro do Planejamento e foi o braço-direito do Joaquim Levy naquele pacote de 2015″, disse Nassif. “E alguns dos pontos que coloquei para ele, não ficou muito claro se o PT endossou ou não, é a ideia do direito ao emprego. Ou seja, ao invés de salário desemprego, bônus desemprego, o direito ao emprego”.

Como Barbosa considerou o conceito “um pouco vago da área acadêmica”, e ele tem uma ligação mais estreita com a macroeconomia, Nassif e Marcelo Auler conversaram com Marco Antônio Castello Branco, ex-presidente da Codemig

Para Castello Branco, que vem estudando o programa de garantia do emprego há algum tempo, é oportuno que o tema venha à pauta “nessa oportunidade que o Brasil vai ter de iniciar um novo governo – e, muito provavelmente, um governo progressista com a liderança do Lula”.

Segundo o ex-presidente da Codemig, o Brasil tem poucas oportunidades de conhecer ideias diferentes, e ressalta que o programa de garantia do emprego – ou “tratar o Estado brasileiro (de uma maneira geral) como empregador de última instância” – é algo extremamente conhecido.

“(O programa) foi lançado pelo Hyman Minsky, um economista americano que se ocupou muito com os problemas da instabilidade do sistema financeiro de uma maneira geral. (Minsky) deixou extensa literatura sobre uma proposta que o pleno emprego, a garantia do emprego, é o melhor instrumento macroeconômico para a estabilização da economia, para prevenir as instabilidades e garantir, inclusive, a moeda”, disse Castello Branco.

Castello Branco lembra que, ao se analisar o pensamento convencional, uma teoria que passou a ser considerada verdade é a de que você precisa ter um volume de gente involuntariamente desempregada para ter a estabilidade de preços. “Deram o nome disso de taxa de desemprego que não acelera a inflação. O acrônimo em inglês é NAIRU (non-accelerating inflation rate of unemployment)”, diz.

“Você precisa ter, então, um volume de gente desempregada para ter estabilidade de preços. Essa é a tese que, a partir de 1970, a macroeconomia convencional do mainstream usa nas políticas, principalmente na política monetária, para assegurar que não vai ter inflação – então, nós precisamos ter sempre gente involuntariamente desempregada para ter estabilidade de preços – como se fosse um destino da sociedade capitalista”,

Um estoque regulador do mercado de trabalho

Já o pensamento de Hyman Minsky, diz o contrário: “a maneira de a gente estabilizar os preços é você ter um estoque de pessoas não desempregadas, mas um estoque de pessoas empregadas disponíveis para serem absorvidas pelo setor privado sempre que a economia crescer”, afirma Castello Branco.

Para se ter um exemplo mais claro, Minsky usava os estoques da agricultura como referência: quando se tem o excedente de algo (no caso do desemprego, o excesso de mão de obra), o Estado faz a função de regulador, preservando a renda do agricultor ao comprar o excedente da oferta a um preço mínimo.

Assim, “se constitui um estoque onde, no momento em que as safras são menores, ele vai vender esse estoque e assegurar que o preço dos produtos agrícolas seja estável”, diz Castello Branco.

Para o ex-presidente da Codemig, isso também pode acontecer no setor do emprego, “principalmente quando a gente considera as pessoas, a população de uma nação, é o recurso mais importante de que ela dispõe e, por ser o recurso mais importante que ela dispõe, ele deve ser mantido e conservado de uma maneira produtiva”.

“E a maneira de se conservar o empregado, a pessoa que involuntariamente foi desempregada pelas oscilações da economia, é você ter o Estado com uma oferta infinita de postos de trabalho, de tal maneira que ele absorve, mantém essa pessoa empregada e preserva as habilidades laborais e sociais (…)”.

Apesar de ser uma ideia considera promissora e discutida no mundo, Castello Branco diz que “infelizmente o Brasil não aproveita da oportunidade de uma mudança de governo para repensar a proposta de modificar o sistema de transferência de rendas”.

A ameaça do partido militar

“Na verdade, quando se fala se o clima aqui (em Brasília) está tranquilo é quase impossível responder sim. E os bolsonaristas – hoje o filho do presidente fala novamente em golpe”, disse o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) sobre as ameaças bolsonaristas em torno do ex-presidente Lula.

“Acho que é importante cada um colocar na cabeça e levar em consideração que eles falam isso, e não minimizar. Não subestimar. Não brincar com essa hipótese”, disse Teixeira. “Nos Estados Unidos, eles também ensaiaram um golpe invadindo o Capitólio. Esses aqui também, se tiverem a oportunidade de dar um golpe, darão”.

O deputado federal ressalta que, como os bolsonaristas “são totalmente mentecaptos e delinquentes”, é fundamental que o povo brasileiro faça uma grande mobilização não só para derrota-los, como também para garantir a posse, a governabilidade e a mudança.

“Quer dizer, isso tem que representar uma força popular, e uma força parlamentar capaz de enterrar esse segmento. Eles, ao mesmo tempo, abarcam… eles que acabam animando esse movimento fascista, nazista. Eles e o Moro”, lembra Teixeira.

“O Moro também, vejam o que aconteceu com o Kim Kataguiri e vejam o que aconteceu hoje com esse apresentador da Jovem Pan. É desse estrato, do estrato bolsonarista e do estrato morista”, diz Teixeira. “É por isso que eu acho que eles podem querer, sim, dar um golpe de Estado”.

Veja mais sobre a discussão em torno das ameaças do partido militar e o debate sobre emprego na íntegra da TV GGN 20 horas. Clique abaixo e confira!

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