Expectativa de vitória é um indicador diferente de preferência de voto
por Gunter Zibell
O eleitorado de centro-esquerda é muito constante entre turnos. Pode ser decrescente no tempo entre 4 anos, mas dificilmente muda em quatro semanas.
A impressão que dá é que, variando no tempo, a população se divide em “o que for mais parecido a Lula” (seja PDT) ou “o que for mais oposto a Lula” (mesmo que seja PSDB ou MDB). A falsa polarização foi consequência das ações das partes, que sempre buscavam enaltecer artificalmente as poucas diferenças. Porque estavam competindo não para mudar o sistema, apenas ganhando market-share eleitoral.
O rompimento desse paradigma deu-se apenas em 2010 e 2014 pois Marina Silva foi o único nome realmente centrista desde 1994. O que não alterou em nada a tendência de 2ºs turnos nesses anos.
Em 2018 houve uma outra mudança de paradigma. Porque os políticos do MDB e PSDB deixaram de ser considerados competitivos pelo eleitorado mais conservador: grandes, médios ou pequenos empresários, pessoas muito religiosas (ou moralistas) e saudosos de autoritarismo ou nacionalismo xenofóbico.
Isso ocorre em países como EUA, França, Espanha e Itália. E Chile e Colômbia. A metade (ou em torno disso) mais interessada em inclusão social segue apoiando os partidos do sistema (Democratas-EUA, SDP/Verdes-Alemanha, PS/EM-França, PSOE-Espanha, PD-Itália).
(Obs.: essa discussão ainda não é, e talvez não venha a ser, relevante na Anglosfera – Reino Unido, Canadá, Austrália – ou Ásia – Japão, Coreia.)
Mais frequentemente do que não, os eleitorados que apoiam ED (Extrema-direita) usam discurso reacionário e guerras culturais não exatamente para retroceder, mas para brecar a rediscussão contínua de privilégios. (No Brasil é pior que a média.) Mas em todos os grandes países não há uma migração em massa de “liberal-sociais”, “social-democratas”, “verdes” e “trabalhistas” para o “populismo de direita”. O que vemos é eleitores “conservadores” ou “liberais” migrando para esse discurso. Em parte para ver suas teses confirmadas ou para dar sobrevida a uma estrutura de manutenção de privilégios. Em parte porque sabem que não sofrerão consequências negativas.
Nos países de tradição liberal e ocidental (e torçamos para o Brasil não ser exceção) sempre há volta. Isso porque as promessas do populismo dificilmente podem ser entregues. Ao se juntar elite econômica e grupos trabalhadores, como promover um equilíbrio fiscal que satisfaça a aspiração de todos? O que geralmente se consegue é manipular um grupo de indecisos que possa decidir a eleição e mudar o eixo de discussão por pelo menos um mandato. O caso mais pitoresco é a Itália, onde Berlusconi foi precursor dessa estratégia política (Thatcher e Reagan foram conservadores tradicionais e muito mais bem sucedidos). Desde 1994, primeira eleição após a debacle da Democracia-Cristã (cujo eleitorado todo migrou para ED), teve 8 eleições gerais e desde então nunca um pólo se reelegeu. Berlusconi (FdI, Lega, FI) se elegeu 3 vezes, e nas três ou não completou o mandato ou entregou o cargo para o tradicional PD (nova roupagem dos políticos em torno do antigo PSI). Provavelmente ocorrerá o mesmo com Meloni em 2027.
Mas descontentamentos existem, falsas narrativas são formuladas e em quatro anos de propaganda é possível mudar o ponto de equilíbrio das coisas. Foi o que aconteceu no Brasil em 2018. Se Dilma recebeu 52% e Haddad 45%, é porque 7% do eleitorado que costuma votar (a abstenção é constante em torno de 20%) “mudou de lado”. A questão em 2022 é se pelo menos 5% voltam. Se 40% no Brasil sempre preferem a opção mais conservadora e 45% a menos, é sempre os 15% que decidem. Será que já decidiram?
Há sempre grandes tendências e pessoas mudam, sim, de opinião durante 4 anos. Mas pouco em 3 ou 4 semanas.
2002 >
1º turno: Lula (46,4) / Ciro (12,0) / PSTU (0,5) = 58,9
2º turno: Lula (61,3) (uns poucos eleitores de Garotinho migraram)
2006 >
1º turno: Lula (48,6) / Buarque (2,6) / HH (6,9) = 58,1
2º turno: Lula (60,8) (uns poucos eleitores de Alckmin viraram)
2010 e 2014 são prejudicados para esta análise porque Marina foi mesmo um híbrido de PT e PSDB em discurso (PV/PSB) e eleitorado, mas houve uma tendência de longo prazo de redução do apelo do discurso trabalhista no Brasil: Dilma 2010 (56,0) e Dilma 2014 (51,6).
O apelo do PT caia 4 a 5 pp. a cada ciclo, portanto. Em 2018 foi muito mais, claro. Mas com uma grande resiliência relativa após grande recessão e espetacularização de Lava-Jato. Essa resiliência foi quase total no Nordeste, e muito grande entre mais pobres (até 2 SM de renda familiar) e não-cristãos. Metade (aproximadamente) da migração de Dilma para JMB deu-se entre homens do Centro-Sul na faixa média de renda (2 a 5 SM).
2018 >
1º turno: Haddad (29,3) / Ciro (12,5) / Marina (público diferente de outros anos) (1,0) / Boulos (0,6) = 43,4
2º turno: Haddad (44,9) (uns poucos eleitores de Meirelles e Alckmin, talvez tenham migrado)
O problema de marketing político no Brasil não é PT ou não-PT de um lado, nem PSDB-MDB ou ED de outro. Quem fala “ainn, mas e o patê!” não vai votar em centro-esquerda mesmo que seja PDT ou Papa Francisco. Tem, é claro, sempre uns 2 ou 3 % do eleitorado que transita do PSDB/MDB/PSB para PT/PDT quando julga que é melhor para o país. Essa oscilação pequena ocorre nos estratos com nível superior de escolaridade nas grandes cidades. Mas é previsivelmente pequena. (Eu sou assim, amigos meus são assim. Mas a vida real não se dá em bolhas de pensamento universitário.)
Segue sendo, portanto, o tradicional tensionamento entre liberalismo e trabalhismo, mas com uma ainda muito incipiente convergência ao centro. Este ano o PT está tentando uma Frente Ampla de centro, o que é uma novidade bem vinda na classe média, mas será que a radicalização de discurso da direita triunfará de novo? Tomara que não, que haja indecisos com juízo o suficiente para escapar de manipulação, como em muitos eventos recentes em outros países. É muito resultado de 4 anos de narrativa. E, aí sim no prazo imediato, de mobilização. Em 2014 o número de votos válidos aumentou 1,5 MM entre turnos, mas em 2018 caiu 2,2 MM. Não dá para saber este ano como vai ser, só que uma oscilação assim é de 4% do total.
2022 >
1º turno: Lula (48,4) / Ciro (3,0) = 51,4
2º turno: Lula (???)
Apesar do muito que se tem dito sobre os eleitorados de Ciro e Tebet, o que é realmente mais provável é que em função do ambiente este ano a maioria que gostaria de se manter pró-trabalhista ou pró-humanista tenha já antecipado o voto. E, em função de propaganda acumulada anti-PT desde 2010, Lava-Jato e tudo o mais, 51,4 é uma boa resiliência. Seria muito similar aos votos de Dilma em 2014.
Então, recapitulando: em 2002, 2006, 2018, o candidato do PT herdou no 2º turno o eleitorado de PDT; em 2002, 2006 e 2018 houve uma pequena migração (em torno de 2% do total) de eleitores que se identificam como “liberal-democratas” ou “humanistas”. Será que parte dos 4,2 de Tebet migraria para Lula?
Também sabemos que votos nulos costumam ficar em 6% (2006) ou 6,7 (2010) e 6,3 (2014). Mas no 1º turno de 2022 já foi só 4,4%. Talvez o eleitorado já tenha decidido. E sabemos que em outras eleições há uma variação de mais ou menos 2% nos votos válidos finais (menor ou maior abstenção). E que os efeitos das políticas sociais e narrativas falsas são imponderáveis.
Talvez a propaganda maciça desta e da próxima semana não altere muito o resultado final, e esteja apenas fazendo votos envergonhados se declararem para JMB. Essa aproximação de direita radical a um voto mais consolidado humanista é verificado em todos os países onde há uso de guerras culturais na campanha. E às vezes dá resultados fatídicos (Trump-2016).
Oremos para o Brasil não repetir um desastre assim. E como cenário está muito apertado, os riscos são reais (como foram em Perú, Chile e Colômbia nestes dois anos). Mas ainda acho que o final será Lula com 51 ou 52%. A maioria das variáveis leva a pensar assim.
Eu acompanho por passatempo pesquisas eleitorais de democracias importantes e por vocação humanista sempre quero ver como caminham as narrativas de grandes blocos. Sou muito favorável a uma convergência ao centro, mas é uma pena que o mundo ainda não é assim.
Eu fiquei muito triste com o Brasil em 2018, mas não surpreso. Surpreso mesmo fiquei com a derrota de Hillary em 2016.
Então, para termos um Natal Feliz, continuem trabalhando para virar votos. As chances de Lula no Smarkets caíram de 72% para 61% nos últimos dias. (Expectativa de vitória é um indicador diferente de preferência de voto.)
Nonato Amorim
21 de outubro de 2022 7:12 pmDoce Gunter, estava mesmo esperando ansiosamente sua análise pra lá de excelente, didática ao cubo, consubstanciada, firme! Parabéns! Grande beijo…
GalileoGalilei
21 de outubro de 2022 9:22 pmPrimeiramente um agradecimento ao Günter pelo cuidadoso trabalho de explicação didática desse texto. Segundamente, uma conclamação à militância: mãos à obra; hora de tirar o salto alto. A eleição não está ganha, muito pelo contrário. Os riscos se avolumam. A eleição, tal como a discoteca do Chacrinha, só acaba quando termina. Há que concentrar esforços no convencimento dos indecisos. Quem já está decidido, decidido já está. Em consequência, concentrar esforços neles será tempo e esforço em vão. Hora, portanto, de mudar o foco para os indecisos. Bora ir pra rua, agora! Precisamos, cada um de nós, convencer um indeciso por dia (um só é suficiente, mas pode ser mais de um) para não lamentarmos depois. Percebi, hoje, uma animada movimentação da militância no Centro do Rio. Que progressivamente ganhe volume até o dia 29.
Vladimir
22 de outubro de 2022 7:57 amQue bom ver novamente os comentários sempre bem embasados do Gunter.
Além de torcer para que mais esta análise esteja certa,torço para que volte a postar mais vezes,até para podermos discordar e,novamente elevar o nível do GGN.
josé Oliveira de Araújo
22 de outubro de 2022 8:59 amÉ PAU É PEDRA É LAMA É FIM DO CAMINHO, SÃO AS ÁGUAS DE MARÇO ANUNCIANDO O FIM DO VERÃO PARA O FIM DE OUTUBRO.
SÃO OS BOÇAISNARISTAS FAZENDO O DIABO PARA REELEGER O CÃO.