Por Maíra Vasconcelos
Como o Uruguai alcançou a redução da pobreza, desigualdade e desemprego, advindos da crise de 2002, provocada pela da crise econômica argentina, em 2001? Lucía Topolansky, atual senadora, reeleita pelo partido Frente Amplio (FA), nas últimas eleições de outubro, em entrevista em seu gabinete em Montevideo, destrinchou os projetos sociais que o partido implementou para restituir a cidadania de indivíduos e grupos marginalizados da sociedade. Lucía conta, detalhadamente, como foi o processo, desde o início e ainda em andamento, de inclusão e cuidado dessa parcela da população situada à margem pela desigualdade social no Uruguai.A senadora freteamplista comenta a particularidade dos casos de menores infratores envolvidos com o narcotráfico, e a investida recente do governo para tratar esses casos, que Topolansky acompanhou de perto; além do trabalho com dependentes químicos, que Lucía também viu, discutiu, reuniu com familiares, e perseverou, no passar dos anos, a evolução e superação dos “chiquilines” (pequeninos, em português).
Topolansky explica, também, porque os partidos representantes da direita no país, tentaram implementar, através de um plebiscito, a redução da maioriadade penal de 18 para 16 anos. E mesmo tendo conseguido reunir um número de assinaturas suficientes para lograr o plebiscito, a votação não alcançou quorum suficiente, nas últimas eleições, e a lei não foi alterada.
*Explico, para melhor leitura, que a entrevista começou um pouco de supetão, quando ainda estava a me acomodar na cadeira, de frente à Lucía. Por isso, não há uma pergunta inicial. A senadora, neste primeiro encontro, foi quem deu início ao assunto da entrevista. Lucía tem predileção pelas questões que envolvem a marginalização de indivíduos, e foi com extremo carinho que ela contou a sua proximidade com as problemáticas sociais no Uruguai; ainda com sua visão de arquiteta, Lucía estendeu-se a mostrar a importância da apropriação e cuidado do espaço público, como fundamental para tratar tais problemas de exclusão social.
*Espaço público.
A saúde ambiental da cidade, isso é um trato permanente. As árvores envelhecem e é preciso reflorestar. São impostantíssimos esses espaços verdes. E agora nós inauguramos um modelo de praça, com o governo frenteamplista, que são praças de convivência. Em uma mesma praça, em um quarteirão inteiro, têm fontes com água para que as crianãs possam molhar ali, lugar para casais enamorados, para idosos, com mesinhas de jogos, com espaço para os jovens praticam skate, têm muros para os grafiteiros, têm jogos de ginásio, um espaço para deficientes, campo de basquete e de vôlei; são praças muito equipadas e que nos têm ajudado na convivência com os bairros difíceis. Porque são pontos de encontro, e as pessoas receberam muito bem, com o compromisso de que teriam que cuidar desse espaço. E até agora não tivemos uma só ato de vandalismo ali.
As pessoas começaram a pedir mais desses modelos de praça, e pedem porque realmente quando termina o horário escolar, e agora recordo bem, fim de semana ou nas férias também, é um lugar onde, se a família não tem recurso para que a criança possa brincar, aí é o lugar onde podem fazer esporte, ter convivência, podem fazer música.
Esses espaços já existiam e o governo reformou as praças? Ou foram inteiramente construídas pelo atual governo?
Alguns, sim, já existiam e reformamos, mas outros foram feitos do zero. Tem um bairro, que é um bairro muito difícil no qual temos trabalhado muito para.. então, se chama Casa Valle, havia um quarteirão, que era um terreno baldio cheio de sujeira, havia uma banda de pequeninos, que se alguém atravessasse ali não sobravava nem a alma, então foi formada uma comissão de praça, que discutimos com os vizinhos o que eles entendiam que o bairro precisava. Então, depois, em base a esse desenho, os arquitetos do município fizeram uma maquete, os vizinhos olharam, até que finalmente foi aprovada em uma assembléia. Foi construído, boa parte com mão de obra profissional, e outra parte com a colaboração dos vizinhos. As árvores plantadas foram todas com ajuda dos vizinhos, plantaram e armaram os canteiros. Depois foi feita a inauguração, com a comissão de vizinhos, que é responsável pela praça. E isso tem funcionado muito bem, todas as casas que estão no entorno da praça melhoraram também, porque a praça está iluminada e ademais as pessoas ficaram mais motivadas e começaram a pintar suas casas. Com uma linha de crédito do Ministério de Habitação, que entrega material e apoio técnico para reformar, o bairro foi para adiante. E os três pequeninos que viviam aí nesta praça achincalhando a todo mundo, dois deles começaram a se incorparar às tarefas de construção da praça. E nas praças também dão cursos ao ar livre, cursos curtos de diversas atividades, as pessoas fazem inscrição, e eles se integraram e saíram das ruas, conseguiram uma família substituta; teve um que não. O instituto da criança e do adolescente, conversou e averiguou bem com a família, com os parentes, que não se interessaram, pois eles estavam abandonados, então conversaram para ver se eles queriam uma família substituta. Não é bem uma adoção, porque eles permancem com o mesmo nome, com sua identidade, então conseguiram duas famílias. E estão muito integrados. O outro foi embora, se apagou, não quis dar esse passo. E isso tem sido para nós.. e cruzando a rua tem um posto da polícia, uma policlínica de atenção de primeiro nível, e a um quarteirão uma organização para acolher crianças de 0 a 3 anos, que ainda não vão à escola, depois tem bem perto a escola pública em tempo integral, a escola técnica, a secundária, está tudo junto. Assim aconteceu, e foi como o bairro começou a melhorar. Entramos assim nos bairros onde estão os narcotraficantes, é a forma que temos de combater o narcotraficante.
Essa é uma aposta nova do governo frenteamplista?
Sim, sim. Fizemos uma prova piloto, onde que detectamos sete zona sproblemáticas. Em Casa Valle estamos construindo um centro cívico, então ali os moradores podem pagar todas as contas, tem um caixa do Banco da República, tem acesso ao plano odontológico, e depois um centro cultural. Então, é formado outro ambiente para a realidade do bairro. Estamos trabalhando com essa ferramenta. Porque como em todos os países, o narcotráfico se mete em bairros que têm um grau de pobreza e conflito, e compram o silêncio dos vizinhos, dá alguns pesos para eles pagarem a luz, por exemplo, para que o vizinho não fale, e forma essa rede silenciosa, que é tão perniciosa.
Bom, então, quando identificamos que isso está acontecendo em um bairro, vamos ao bairro e tratamos de gerar um polo, que viria a ser essa praça, com todos os seus serviços para que as pessoas comecem a se apropriar disso, e assim vamos conversando com as pessoas. Tivemos algum enfrentamento, mas em geral os narcotraficantes vão embora, porque o seu caldo de cultivo começa a acabar, e é um trabalho muito paciente, essas coisas não se solucionam em meia-hora, nem muito menos. Temos trabalhado desse modo na área metropolitana de Montevideo.
Esses problemas com o narcotráfico ocorrem desde quando?
Em 2002, houve uma crise muito grande aqui, fomos afetados pela crise argentina. E nesse momento, quando as pessoas estavam com a cabeça em outra coisa, o narcotráfico chegou com força. E entrou a pasta base da cocaína (crack). Então, como as coisas têm suas ordens, houve que reconstruir o país, começar a sair da crise, e quando começamos a tratar tinhamos esses focos de problema. Bom, foi feita toda uma reestrutura da junta nacional anti-droga, e foi feita uma cadeia especial para os presos do narcotráfico. Havia uma cadeia na cidade de Libertad, que ficou para delitos vinculados ao narcotráfico, para os narcotraficantes estrangeiros que são pêgos aqui, porque enquanto não é feita a extradição têm que estar em algum lado; e se misturávamos os presos, eram produzidos problemas nas cadeias, então isolamos os que estavam envolvidos com delitos de narcotráfico. Isso aconteceu no decorrer desses últimos cinco anos. Mas não somente nas cadeias de homens, na de mulheres tem um ala completamente isolada, que é para as mulheres vinculadas ao narcotráfico. Então, essas pessoas, que são as mais difíceis de recuperar para a sociedade, não têm contato com os outros presos.
Por outro lado, há um trabalho com o menor infrator também, alguns que caíram presos vinculados ao narcotráfico. Então, essas praças, esses centros cívicos, que nós colocamos no coração desses bairros, há muitos centros feitos, geram um efeito positivo em determinada área, e muita gente de bem, que vive aí por uma razão econômica, mas que não tem nada a ver com a criminalidade, então eles se sentem com poder e respaldadas, e assim exigem ao outro vizinho.
Acreditamos que esse é um caminho longo, mas é um caminho sólido. Porque esses fenômenos são… Bom, o que eu posso contar a você, que não saberá dessas coisas mais que eu! Mas nós temos a vantagem de ser um país pequeno, então o Uruguai não é um mercado muito atrativo para o narcotráfico, mas é um país de passagem, às vezes trazem (drogas) da Colômbia e da Bolívia, ou do Paraguai, para, desde o porto do Uruguai, mandar a Espanha, fundamentalmente. Então, nós temos todo um esquema, e temos agarrado muitos carregamentos. Mas claro que quando apreendemos um carregamento, essa carga tem cúmplices no Uruguai, então são detidas pessoas, e esses cúmplices sempre ficam com um pouco da droga para o mercado local, que é menor.
Esses que permitem ou não o passo da droga… isso seria comprar o segurança, o pedágio.. por que, por onde passa?
Falo de ser país de passo, no sentido de que o Uruguai não interessa ao narcotráfico como país de destino, porque aqui tem pouca população. Se é um carregamento que vem da Colômbia, para poder ingressar ao Uruguai e trasladar-se no Uruguai sem levantar suspeita, eles precisam de aliados uruguaios. Precisam desses aliados, e como pagam bem, porque com todo esse dinheiro sempre haverá algum que… Mas esse fenômeno não ocorre no Uruguai com a mesma dimensão que tem em outros países, mas está presente e não devemos dormir. É muito importante não dormir-se.
As sete zonas problemáticas, por exemplo, que você disse que foram identificadas para serem trabalhadas. Quais são?
Cinco estão na cidade de Montevideo, e duas na Cidade das Pedras, que é um departamento limítrofe. Nessas zonas é onde temos localizados os maiores problemas. O esse mesmo modelo estamos trasladando também há outros pontos do país. Nós tivemos, por exemplo, faz pouco tempo, um situação em um povoado relativamente pequeno do interior. Havia aparecido um senhor que abriu um armazém, e estipulava preços da venda de açucar, arroz, pela metade do preço que era vendido em outros armazéns, uma coisa estranha. E à noite faziam ali venda de droga. Ele conseguiu um punhado de pequeninos para fazer arruaça, quebrar vidro do vizinho, meninos de treze, quatorze, quinze anos. Então, por um lado, havia uma atitude má, uma atitude muito equivocada por parte desse povoado, que ia e comprava nesse armazém, porque lhes era conveniente, mas iam ali e tinham que perceber que havia algo estranho. Ainda, a família desses pequeninos olhava para o outro lado sem querer saber de onde eles haviam conseguido aquele dinheiro. Então, nesse povado, há uma delegada, uma mulher muito valente, que fez toda a investigação, e o homem (do armazém) foi preso, os meninos que estavam com ele também, e a família foi sancionada judicialmente, o negócio foi fechado. Então as pessoas começaram a falar, e aí nesse povoado nós discutimos essa situação.
Que povoado é esse?
Foi em Guichón. Porque se todos não coloborarmos, depois não vamos reclamar dizendo que o govenro não faz isso, não faz aquilo; porque sucedem coisas, morre algum, e a culpa é do governo, e não porque eu olhei para outro lado, ou porque, por pagar alguns pesos menos, comprei de um narcotraficante. Então foi discutido isso com todas as letras, e se aprendeu uma lição, que a nós nos serviu para outros lugares, para que outros não coloquem as barbas de molho, porque tem que denunciar quando se vê uma situação estranha, tem que ir a alguma autoridade, e o Uruguai é muito acessível em relação a isso.
É como buscar um processo de consciência, pensar em meio.. porque se estão nesse ambiente, e chega o menino com o dinheiro, um dinheiro que serve a toda a família, porque a família não tem, e então começam a se enroscar nessa falta a que estão submetidos cotidianamente, e.. como conscientizar..?
Nós já viemos… O problema é que uma família que não coloca limites ao seu filho que é menor, e além do mais aceita que ele vir com um dinheiro que não se sabe de onde saiu, ela é cúmplice, de algum modo é cúmplice, ainda que não seja eles que façam as coisas. É o mesmo que acontece com os menores infratores. Às vezes, a famílias mandavam cartas, que nós as capturamos, dizendo para que eles tratassem de sair rápido porque estavam precisando de dinheiro. Para que saia a roubar, queriam dizer. São usados de algum modo, também as família os usam. Então quando isso fica conhecido, há uma censura social, porque em uma cidade pequena todos se conhecem, e esses meninos tinham nome e sobrenome, e todos sabiam onde eles viviam; então os membros da família não foram presos, mas foram processados por omissão aos deveres da pátria a protestar. Porque eles teriam que haver cuidado dos seus filhos. E são todos menores, porque saõ mais fáceis de convencer, são mais vulneráveis.
E depois os menores são encaminhados para onde? Centros de recuperação?
Sim, centros de recuperação de um insttituto que se chama Instituto Nacional do Menor e do Adolescente. Segundo o delito, há diferentes lugares para encaminhamento, os que têm mais segurança, que são para delitos mais graves, e outros com menor segurança, que são para… e às vezes, continuam em casa, mas têm que ir a um programa de recuperação, obrigatoriamente, e uma assistente social faz o acompanhamento do caso.
E quando foi discutida a diminuição da maioriadade penal no país, esses programas que têm trazido resultados não foram colocados à vista?
Mas não querem aceitar que isso existe. Se a metade dos menores infratores no Uruguai trabalha ou estuda, e esses que estão nesse rumo não reincidem, e entendem que há outro caminho e começam a ver a coisa de outro modo. Há alguns que não recebem autorização do juiz para estudar e trabalhar, porque para isso, muitas vezes, têm que sair do estabelecimento, e se o juiz não dá a autorização, então fazem tarefas dentro do lugar (instituto) onde estão acolhidos, mas sempre é mais limitado.
E tem outro punhadinho de meninos, muito afetados pela droga, que o primeiro que temos que fazer é desintoxicá-los, e alguns ficam realmente com problemas e… bom… vamos até onde podemos com eles. Bom, mas não há mais aqueles que viviam fugindo, agora não fogem mais. E temos uma quantidade de empresas públicas e privadas que participam. Vem uma empresa da construção… e agora mesmo foi assinado um convênio com a empresa de construção. Eu tenho dez obras, por exemplo, e em cada obra posso aceitar a três menores infratores, então é assinado um acordo, entre o instituto de monores, os menores, a empresa e o sindicato de trabalhadores do lugar, e uma ONG que faz o acompanhamento. O sindicato dá a proteção, aconselha, porque são companheiros de trabalho, não?!, lhes dá amizade, carinho, são como uma grande mãe de contenção; a ONG cuida de que o pagamento pelo trabalho seja o que correspondente, que recebam todos os benefícios, controlam a parte institucional, e o instituto do menor os translada todos os dias ao local de trabalho, e depois vai buscá-los, e eles não fogem daí; ainda que não haja cercos, porque eles começaram a entender que estão ganhando um salário que lhes convém, e aprendem um ofício, e como são menores fazem um horário mais curto, pois ainda têm horas complementares de capacitação, que pode ser no mesmo lugar de trabalho, ou no instituto de onde vieram.
Então, esses pequeninos, para poderem fazer tudo isso, precisamos da ordem do juiz, e às vezes os juízes não dão a ordem, não autorizam, e se o juiz não autoriza temos que resolver tudo dentro do instituto, e é mais complicado porque não há tantas possibilidades, temos tambos, lugares para aprender agricultura, confeitaria-padaria, e oficinas nessas insitituições, em cada uma há duas ou três opções. E, às vezes, se um pequenino não pode se ser trasladado, terá que eleger entre três coisas que não o motivam tanto. Então essas são as limitações jurídicas com as quais lidamos.
Mas estamos convencidos que cada vez que temos dado a um (pequenino) a oportunidade, essa pessoa… Porque uma pessoa não nasce com cabeça de ladrão, é a sociedade, as circunstâncias, o meio ambiente. Quase toda essa geração nasceu nesses anos da grande crise, em lugares que não tinham trabalho, e hoje são produto dessa questão social, ademais, muitos são pequeninos vindos de famílias muito desintegradas, e mesmo eles, se você olha as tatuagens que eles têm, todas dizem “mamãe, mamãe te quero”, mesmo que a mãe os mate de pancadas; porque a mãe às vezes é pior que o filho. Mas é o único que eles têm para se agarrar. Então, se chega alguém que o trata com carinho, isso se derruba, e eles ficam como.. são crianças no fundo, finalmente. Eu tenho ido mil vezes, trabalho bastante com esse setor, e discutimos, e se eles sentem que os querem, se eles sentem que são queridos e respeitados, e que são tratados com carinho, eles são tremendamente dóceis.
E por que você pensa que foi realizado esse plebiscito?
Porque a ala mais conservadora do Uruguai os odeia, começando por aí. Porque as pessoas roubam, porque são pobres, então não lhes interessa o por quê, a causa, o que querem é praticamente eliminá-los da terra. Então, num dado momento, quando houve um pico de “rapinagem”, porque estava sendo feita toda uma reestruturação policial, tivemos que recuperar o instituto policial, estava havendo muita corrupção… Bom, então nesse momento eles reuniram uma quantidade de assinaturas para fazer o plebiscito. E o que acontece, se você passa em uma rua e roubam sua carteira, e ao passar pela outra rua pedem para que você assine, você assina. Houve muita gente que assinou pela reação naquele momento, sem pensar muito, mas quando chegou na instância eleitoral e começaram a discutir o conteúdo do que era proposto, e o caminho que… É como… Eu sempre conto essa anedota. Se você bater em um animal qualquer, ele ficará agressivo. Eu tive uma cachorra policial, que não batiam nela, claro, mas que às vezes estava presa com uma coleira, então quando a soltavam para que ela corresse, ela tinha tanta bronca da coleira, que o primeiro que fazia era morder a coleira. Quero dizer, se você golpeia a um ser humano… se você encurralar a um gato, ele vai te atacar, porque é o que fazem os gatos… e se você encurralar a um ser humano, ele vai atacar, porque é assim a reação do ser humano. Então, o que é preciso fazer é todo o contrário, é preciso tratar de dizer: bom, você é uma pessoa, não te odiamos, não te desprezamos, você pode ter uma oportunidade na vida. Mas é preciso ajudá-lo, é uma longa conversa, mas logra-se, conseguimos convencer, os derrotamos, e depois eles riem.
Há dois garotos que hoje já saíram e que terminaram o ensino secundário. Eles foram pelo caminho do estudo. Damos as duas opções, ou fazer as duas coisas, o estudo e o trabalho, ou senão, se no estudo têm dificuldade, pelo menos pelo mundo do trabalho, para aprender algum ofício, e senão apenas pelo lado do estudo. Eles (os dois garotos) terminaram o colégio e aprenderam música, e eram incríveis músicos, os dois, a ponto de que os dois agora já estejam terminando a carreira de músico em um instituto oficial; um é violonista, e o outro não lembro se toca contrabaixo, bom, outro instrumento de cordas, e estão cheios de futuro agora. Então, quando ainda não haviam saído, aconteceu uma festa no instituto onde moravam, e eles me convidaram. Eles fizeram um rap, e haviam escutado dizer que gosto de rap, e me encanta, realmente, e gosto do rap feito no mundo, mas aqui no Uruguai os rapers que têm são mesmo bons!… Bom, então o rap se chama “manos arriba”, e como haviam entrado no delito, e haviam saído, estava tão bem feito, mostrava a inteligência que têm esses meninos e a desgraça que haviam vivido; e se esses pequeninos agora terminaram na música, um já está na orquestra municipal, e vai entrar na orquestra nacional, nem lhes passa pela cabeça voltar à delinquência, porque entenderam que há outro… e agora morrem de rir, se casaram, é dizer, realmente começaram outra vida. Agora, isso não foi feito em meia-hora, nem em cinco minutos, ás vezes alguns que recuperamos depois o meio ambiente volta a golpear…
Trabalhei também com uma garota que estava em uma cadeia no interior do país. Primeiro tivemos que tirá-la da dependência química, que é terrível, e quando ela conseguiu sair do vício, aprendeu nesse instituto uma quantidade de coisas, muita habilidade manual excelente, saiu e voltou ao seu povoado, e a família era um desastre e o meio também, então voltou a delinquir, voltou a cair presa. E a segunda vez, quando estava pronta a sair e estava recuperada, o que propusemos foi que ela não voltasse ao povoado, e que pudesse viver em outra cidade perto, que pudesse ver sua família, mas que não tivesse as influências nefastas. E assim conseguiu sair, e porque uma família a acolheu, ela viveu um tempo com essa família; quando seu salário permitiu que ela alugasse uma casinha, ela alugou, e depois seguiu sua vida como qualquer pessoa normal.
Agora, isso tudo, se eu somo quantos anos me consumiu, quase oito anos de trabalho, entre uma estadia e a outra; muito dinheiro, porque tem técnico, médico, o acompanhamento de cada pessoa. E tudo isso, esse trabalho, é o que não quer a direita. A direita quer solucionar com perpétua, que estejam aí e que não escapem, mas como no Uruguai não existe prisão perpétua, em algum momento vão sair, e se eu saio um sujeito quebrado, ou um sujeito furioso, vai ser nefasto para a sociedade. Essa é a discrepância essencial que temos (esquerda e direita). E ademais, eu não posso colocar um pequenino de 16 anos com um adulto, porque não é boa essa mistura. Essa foi a discussão, e por sorte esse plebiscito não saiu. Mas essa luta foram os jovens que a colocaram no ombro, porque sentiam que era contra eles.
Os jovens de qualquer classe social?
De qualquer classe, mesmo sabendo que estava dirigido (o plebiscito) às classe mais pobres. Mas se solidarizaram. Então os lemas eram: ser jovem não é delito, as crianças não nascem ladrão. E andavam com camisetas..
Os pássaros..
Ah, sim, os colibris, porque é sinônimo de liberdade, de como se consegue a liberdade.
O Mar da Silva
23 de dezembro de 2014 1:23 pmExcelente postura da
Excelente postura da senadora. Aqui, ela tocou no ponto-chave:
“Agora, isso tudo, se eu somo quantos anos me consumiu, quase oito anos de trabalho, entre uma estadia e a outra; muito dinheiro, porque tem técnico, médico, o acompanhamento de cada pessoa. E tudo isso, esse trabalho, é o que não quer a direita.”
Onde andam os inocentes que falam na inexistência de direita e esqueda? k k k k k
Aracy_
23 de dezembro de 2014 1:55 pmParabéns à Senadora
Seria bom se prefeitos brasileiros aprendessem com Lucia Topolansky a noção de saúde ambiental. Não tem cabimento as prefeituras de municípios pequenos e médios do interior aprovarem loteamentos – até condomínios fechados- com terrenos cuja área mínima é de apenas 150 a 175 m2, adensando a população em guetos horrorosos sem arborização nem espaços públicos para convivência. Também falta posição firme das prefeituras para fiscalizar as famigeradas construções inacabadas, que já tiraram a saúde ou mesmo a vida de tantas crianças que caíram das lajes.