O brigadeiro Baptista Jr e a banalização do poder militar

É o maior exemplo da falta de rumo que tomou conta das instituições brasileiras, cada qual puxando a corda para um lado, enquanto o presidente se atola no escândalo das vacinas.

A Nota articulada pelo Ministro da Defesa, General Braga Neto, baseada em um álibi falso – a suposta  generalização cometida pelo presidente da CPI, senador Omar Aziz, acerca da corrupção de militares no caso das vacinas – é o ápice da desastrosa incursão das Forças Armadas pelos meandros do poder civil.

O episódio foi agravado por uma entrevista do brigadeiro Carlos Almeida de Baptista Jr, comandante da Aeronáutica, com ameaças explícitas.

“Quando falam na nota que não vão aceitar ataque leviano às Forças Armadas, o que quer dizer essa ameaça?

É um alerta. Exatamente o que está escrito na nota. Nós não enviaremos 50 notas para ele (Omar Aziz). É apenas essa”.

Chamou atenção outro trecho da entrevista:

“Os ataques incomodam?

Estes ataques desnecessários, volto a dizer, não podem… Façam o devido processo legal, apurem as responsabilidades, doa a quem doer. Não temos qualquer intenção de proteger ninguém que está à margem da lei”.

Vamos a um levantamento de Álvaro Nascimento – jornalista, Doutor em Saúde PÚBLICA/UFRJ

“Um sargento do Exército Brasileiro é flagrado, ao pousar em um aeroporto da Europa usando um avião da comitiva presidencial, com 39 kg de cocaína nas maletas de mão. É preso e, réu confesso, condenado pela Justiça espanhola. A Polícia Federal abre uma investigação e conclui que o militar traficou cocaína em aviões da FAB ao menos sete vezes.

(Os Comandantes Militares não emitiram nota)

O Ministério Público Militar (MPM) apura que pelo menos R$ 191 milhões foram desviados do orçamento das Forças Armadas em 10 anos. Os crimes são cometidos por diferentes patentes e abrangem corrupção passiva e ativa, peculato, estelionato e fraudes em licitações.

(Os Comandantes Militares não emitiram nota)

Em plena pandemia, 73.200 militares com salário mensal religiosamente depositado em suas contas receberam indevidamente o auxílio emergencial de R$ 600.

(Os Comandantes Militares não emitiram nota)

Um general da ativa – com base no fato de que “um manda e outro obedece” – não compra vacinas então disponíveis, promove o aumento da produção de cloroquina que nenhum país sério utiliza na prevenção e tratamento da Covid, deixa morrer milhares de compatriotas sem oxigênio e ao ser demitido declara “missão cumprida”.

(Os Comandantes Militares não emitiram nota)

Um coronel – acompanhado de um amigo “intermediário” – janta em um shopping de Brasília negociando, com um dirigente do Ministério da Saúde, porcentagem na compra de vacinas inexistentes.

(Os Comandantes Militares não emitiram nota)

Este “intermediário” – também militar, cabo da PM de Minas Gerais – acaba denunciando o achaque, dizendo que lhe foi pedido um dólar a mais em cada dose de vacina para que o negócio fosse fechado. O escândalo acaba sendo pauta na CPI da Pandemia.

(Os Comandantes Militares não emitiram nota)

Um capitão reformado pelo Exército por repetidas más condutas – que como prêmio foi para a reserva com gordo salário, apesar de ter apenas 33 anos, com 15 de serviço prestado – tornou-se deputado e agora uma ex-cunhada denuncia que ele cometia o crime de peculato, recolhendo 90% do salário dos assessores que nomeava para seu gabinete, gesto repetido pelo filho também deputado.

(Os Comandantes Militares não emitiram nota)

O Senador Omar Aziz (Presidente da CPI da Covid que investiga o porquê da morte de mais de 530 mil brasileiros) diante da quantidade de militares envolvidos em falcatruas na Saúde declara que “a parte boa do Exército deve estar envergonhada com a pequena banda podre que mancha a história das Forças Armadas”.

Como se a carapuça tivesse se adaptado dos pés à cabeça dos quatro, os excelentíssimos senhores Walter Souza Braga Netto (Ministro de Estado da Defesa), Almirante Almir Garnier Santos (Comandante da Marinha), General Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira (Comandante do Exército) e o Tenente Brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior (Comandante da Aeronáutica) levaram poucos minutos para emitir nota para protestar (aspas) “veementemente” contra (aspas) “as declarações do Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito, Senador Omar Aziz, no dia 07 de julho de 2021, desrespeitando as Forças Armadas e generalizando esquemas de corrupção”.

Das duas, uma. Ou nossos comandantes militares não sabem ler (o que seria um fato grave), já que não houve nenhuma generalização na fala do Senador; ou (pior ainda) não se identificaram com a “parte boa” das forças armadas citadas por ele, se sentindo portanto atingidos pelas críticas à “banda podre”.

Resumindo o resumo: os comandantes militares perderam ótima oportunidade de seguirem calados.

O twitter do brigadeiro Baptista

O brigadeiro Baptista  pertence à nova-velha estirpe dos homens públicos deslumbrados com a visibilidade proporcionada pelo cargo em uma corporação pública. Sua imagem pública decorre de seu cargo público. Portanto há uma responsabilidade pública de preservá-la e de utilizá-la somente a serviço da corporação à qual pertence.

Ocorreu também com levas de procuradores deslumbrados que, nos embalos da Lava Jato, passaram a se exibir ao distinto público. A prática foi devidamente censurada pelo Conselho Nacional do Ministério Público, acabando com essa excrescência de pessoas que se valem de cargos públicos para extrapolações indevida do ego e das preferências políticas.

Nas Forças Armadas, o comandante da Aeronáutica se exibe no Twitter como se fosse um jovem YouTuber. É sintomático que essa postura, não condizente com um comandante militar, passou a ser mais frequente nos últimos dias, justamente o período em que Baptista rompeu com as normas militares para explicitar ameaças ao poder civil.

Aqui, ele retuita Eduardo Bolsonaro

Aqui, mostra que o objetivo do seu twitter é mostrar aquilo que “EU (com caixa alta) pense ser importante”. Qual a relevância do que pensa Baptista Jr., a não ser pelo fato e comandar uma força armada?

E aqui fotos do encontro onde foi articulada a reação do Alto Comando, visando atrapalhar as investigações da CPI, que colocam em xeque a honestidade do governo e dos militares que foram servir no Ministério da Saúde. Segundo reportagem do Correio Brasiliense, no evento houve a projeção de vídeo com teorias conspiratórias sobre a influência comunista nas passeatas:

As Malvinas das Forças Armadas

Nos próximos dias, as Forças Armadas brasileiras estarão participando de uma operação junto com a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Segundo os objetivos da OTAN

Com início em 1997, o Exercício Sea Breeze reúne a maioria das nações do Mar Negro e aliados e parceiros da OTAN para treinar e operar com membros da OTAN na busca de desenvolver capacidades aprimoradas.

O mega exercício multinacional oferece a oportunidade para o pessoal das nações participantes se engajarem em treinamento marítimo realista para adquirir experiência e trabalho em equipe e fortalecer a interoperabilidade enquanto a OTAN e o líder máximo, Estados Unidos da América, caminham em direção a objetivos mútuos.

A operação é um claro desafio à Rússia, em seus conflitos com a Ucrânia. 

“Uma declaração em maio dos planejadores do evento em Odessa observou que o “objetivo do exercício é elevar o nível de compatibilidade das forças armadas da Ucrânia com as dos aliados da OTAN”.

Diante destes avanços perigosos perante a soberania da Rússia, um dos sete países que fazem fronteira com o Mar Negro, o Ministério da Defesa russo anunciou que acompanhará de perto os procedimentos.”

Ou seja, envolvem-se em um conflito internacional, sem prestar contas a ninguém, em um momento em que os interesses comerciais do país exigem posição neutra, e em negociações para extrair o melhor possível das disputas entre as superpotências.

Segundo a reportagem:

O gigantesco exercício com a inédita participação dos militares brasileiros ocorre em meio às acusações incessantes dos países ocidentais dos supostos esforços da Rússia para aumentar seu potencial militar nas fronteiras do sudeste da nação, sendo que ocorre exatamente o contrário, a OTAN cada vez mais se aproximando das vertentes fronteiriças russas, o que, segundo alguns analistas, inflama as relações diplomáticas e estratégicas entre Brasil e Rússia, que observa os brasileiros operando ações estratégicas em pleno quintal.

É o maior exemplo da falta de rumo que tomou conta das instituições brasileiras, cada qual puxando a corda para um lado, enquanto o presidente se atola no escândalo das vacinas.

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