Economistas e políticos podem debater o futuro da hegemonia do dólar, mas um novo capítulo nesse debate pode estar sendo escrito pelas empresas de inteligência artificial, provedores de computação em nuvem e redes de pagamento.
Esses atores tem papel importante na expansão da infraestrutura de inteligência artificial, que está dando origem a um ciclo econômico onde capacidade computacional (“compute”), pagamentos digitais e ativos financeiros denominados em dólar se reforçam mutuamente, ampliando a centralidade da moeda norte-americana sem necessidade de uma estratégia coordenada pelo governo dos Estados Unidos.
A análise é dos economistas Chenxu Fu e Xianguo Huang, do Escritório de Pesquisa Macroeconômica da ASEAN+3 (AMRO), em artigo publicado no Project Syndicate.
Do petrodólar ao “compute dólar”
Os economistas traçam um paralelo com o sistema do petrodólar, consolidado a partir da década de 1970. Naquele modelo, a precificação internacional do petróleo em dólares elevou a demanda global pela moeda americana e direcionou parte significativa das receitas dos países exportadores para os mercados financeiros dos Estados Unidos.
Agora, argumentam que a inteligência artificial pode reproduzir uma dinâmica semelhante: conforme os modelos de IA se tornam commodities e as empresas passam a incorporá-los em suas operações diárias, a capacidade computacional tende a se transformar em um insumo essencial da economia mundial.
Hoje, muitas empresas ainda experimentam aplicações de inteligência artificial. Mas a tendência é que a tecnologia deixe de ser um projeto pontual para se tornar parte permanente da operação das companhias e, quando isso ocorre, afirmam, a computação deixa de ser um investimento ocasional e passa a representar um custo operacional recorrente.
Como grande parte da cadeia global de IA permanece concentrada em empresas americanas ou ligadas aos Estados Unidos, esses serviços tendem a ser precificados em dólares. Isso cria o primeiro mecanismo de fortalecimento da moeda americana: empresas do mundo inteiro passam a necessitar de liquidez em dólares para adquirir capacidade computacional.
Stablecoins ampliam a influência do dólar
O segundo mecanismo envolve a infraestrutura financeira que permitirá que agentes de IA realizem transações automaticamente, e as moedas digitais estáveis atreladas ao dólar (stablecoins) aparecem como solução natural para liquidação automática dessas operações. Caso pagamentos automatizados e compras de capacidade computacional passem a utilizar predominantemente stablecoins lastreadas no dólar, a dependência tecnológica poderá se transformar também em dependência monetária.
Uma diferença importante em relação ao petrodólar, observam os autores, é que esse novo sistema não está sendo construído por acordos diplomáticos. São decisões comerciais independentes — tomadas por empresas de computação em nuvem, desenvolvedores de IA, redes de pagamento e emissores de stablecoins — que, somadas, acabam fortalecendo a posição internacional do dólar.
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