Quais seriam os recados das urnas do dia 6 de outubro?
por Rodrigo Medeiros e Luiz Henrique Faria
Em entrevista ao programa Roda Viva, de 7 de outubro, Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, trouxe informações de pesquisas e algumas reflexões relevantes. Logo no início do programa, Meirelles afirmou que será preciso que o campo progressista volte com as pautas reais do cotidiano, isto é, uma agenda que melhore efetivamente a vida da população.
Um ajuste fiscal regressivo e alguma melhora de nota em agência da avaliação de risco não garantem o sucesso eleitoral e tampouco a prosperidade coletiva. A tendência que veio para ficar, ressaltou Meirelles, é a da busca pela prosperidade. Essa busca pode partir de ações de estímulos a empreendedorismos individuais ou coletivos. Não convém descartar a hipótese citada por ele de que há um cansaço com as modalidades tradicionais de emprego, por conta dos baixos salários de mercado e das baixas perspectivas derivadas de construção de uma vida melhor. As grandes expectativas de um ensino superior completo não se concretizaram para muitos.
O Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) de agosto, do Ministério do Trabalho e Emprego, revelou que, para o conjunto do território nacional, o salário médio de admissão foi de R$ 2.156,86. No acumulado do ano, entre janeiro e agosto, o saldo positivo foi de 1.726.489 empregos. O Sudeste liderou o saldo positivo de empregos, com 96.241 postos em agosto. Em relação ao saldo geral de empregos em agosto, apenas 10% demandaram o ensino superior completo. Ademais, o IBGE vem revelando que a informalidade é crônica para 39% dos trabalhadores ocupados. Um mercado de trabalho estruturalmente precário tem efeitos sociais e eleitorais, principalmente quando se considera a difusão da teologia da prosperidade.
A desindustrialização, o empobrecimento da estrutura produtiva, a reforma trabalhista regressiva e o enfraquecimento dos sindicatos ajudam a explicar a queda das expectativas entre os trabalhadores brasileiros. Enquanto a economia brasileira não for alavancada por setores mais dinâmicos, a geração de empregos continuará concentrada em atividades com menores remunerações, com alta ou baixa inflação.
Merece consideração, para a análise dos recentes resultados eleitorais, a matéria assinada por Tiago Mali para o jornal digital Poder 360, publicada no dia 7 de outubro. De acordo com o levantamento exposto, “as cidades campeãs no recebimento de emendas parlamentares de 2021 a 2024 também foram as campeãs no sucesso de prefeitos que tentaram a reeleição”. O elevado valor atual das emendas parlamentares aumenta, por sua vez, a vantagem competitiva para as eleições de 2026, quando os deputados federais tentarem se reeleger. Segundo a matéria, “a taxa de reeleição para o Brasil todo (excluindo-se as cidades que não tiveram 2º turno) foi de 82%”.
A tentação de fazer uma reflexão maior em cima do clássico “Coronelismo, enxada e voto”, de Victor Nunes Leal (1948), foi evitada nestes breves comentários. No entanto, relendo rapidamente o prefácio escrito por José Murilo de Carvalho, para a sétima edição do livro, destacamos do clássico que o coronelismo “tem a ver com a conexão entre município, Estado e União, entre coronéis, governadores e presidente, num jogo de coerção e cooptação exercido nacionalmente”. O Brasil se tornou um país urbano, porém a proliferação de coronelismos mais contemporâneos, milicianos ou religiosos, por exemplo, aponta para um cenário mais complexo e muito desafiador no século XXI.
José Paulo Kupfer, em sua coluna no UOL, de 7 de outubro, seguiu a mesma linha de raciocínio do peso das emendas parlamentares. Segundo o jornalista, essas emendas mostram força como cabos eleitorais nas eleições. De acordo com os dados analisados, os partidos conservadores do “Centrão” (PSD, MDB, PP e União Brasil) elegeram mais da metade dos prefeitos vencedores no primeiro turno. Não foi apenas o posicionamento ideológico que contou. Para o jornalista, “o peso das emendas parlamentares destinadas aos municípios é um dos elementos que não pode ser desprezado”.
As estatísticas fiscais publicadas pelo Banco Central do Brasil revelam que, no acumulado em doze meses até agosto, os juros nominais alcançaram R$ 855,0 bilhões, ou seja, 7,55% do Produto Interno Bruto (PIB). Um ajuste fiscal de cortes de gastos com a população que busque compensar o elevado gasto público com juros, que beneficia a tão poucos, não sinaliza para a promessa de reconstrução nacional feita na campanha de 2022 pelo presidente Lula da Silva. Ele tampouco contribui para alimentar os nossos sonhos de progresso e prosperidade social.
Rodrigo Medeiros e Luiz Henrique Faria são professores do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “
Valéria Aparecida de Souza Oliveira
12 de dezembro de 2024 11:52 amEu concordo plenamente com o que está exposto na matéria é triste esse cenário de terror onde o ensino público sabota a própria sociedade, alienando- a a sub existência tenho filho de 19 anos especial, e vejo e vivo na prática esse circo “de inclusão social” e aprendizado só tenho o que lamentar como mãe e cidadã de ver tamanho descaso do ensino público em todos os sentidos, Brasil vamos acordar ainda dá tempo, chega de sermos gado