Responsabilização de militares golpistas é “institucionalmente limitada”, afirma Manuel Domingos

Ana Gabriela Sales
Repórter do GGN há 8 anos. Graduada em Jornalismo pela Universidade de Santo Amaro. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.
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Historiador expõe os desafios para vencer a impunidade que parece abraçar os militares envolvidos na trama golpista de Bolsonaro

FOTO: FERNANDO FRAZÃO

À medida que as investigações sobre uma tentativa de golpe de Estado orquestrada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PF) e aliados se aprofundam, fica mais clara a digital das Forças Armadas no enredo. O que se espera é a responsabilização dos conspiradores, independente da classe, mas esse é o principal desafio, de acordo com o historiador e autor do livro “O que fazer com o militar?” (2023), Manuel Domingos Neto. 

A responsabilização de militares não deixa de ter ser uma coisa institucionalmente limitante”, declara o estudioso, em entrevista concedida ao jornalista Luís Nassif, durante o programa TVGGN 20h, exibido na noite desta segunda-feira (4), no Youtube[Assista a íntegra abaixo].

O mote do boletim foi justamente às evidências que confirmam o envolvimento de militares da alta patente na trama golpista, como a descoberta de uma agenda pessoal do ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, com instruções para impedir a atuação da PF em certas ocasiões. 

Domingos faz pensar os desafios para tentar vencer a impunidade que parece abraçar os militares envolvidos no caso e questiona : “Até onde vai essa corrente? O bloco é numeroso e não se trata de carimbar algumas figuras. O Heleno, por exemplo, é um caricato, é fácil carimbar, o Braga Netto também. Eles estavam na linha de frente, mas o difícil é estabelecer um grupo específico. Como se separa um legalista do insurreto, do golpista? É uma separação difícil”, explica.

Nassif, então, questiona o “álibi” que tem sido usado pelas Forças, “de que a ordem [para ações golpistas] veio de Bolsonaro, que Bolsonaro era o comandante supremo”. O historiador ressalta que o bolsonarismo teve sua origem justamente nos quartéis.

O Bolsonaro era um instrumento desacreditado, o crédito de Bolsonaro foi dado obviamente pela pelas Forças Armadas, pela família militar, esse engrolado um pouco gelatinoso, mas com um forte respaldo institucional, que conduziu esse processo todo”, diz.

Agora, alguns que são apontados como defensores da legalidade, há pouco tempo estavam no comando da Tropa e admitindo nos quartéis discursos absolutamente substantivos (…) Haverá punição, por exemplo, ao homem que permitiu que ensejasse o início da campanha eleitoral [de Bolsonaro] nos quartéis?”, contesta. 

“Esse homem, o nome dele é general Tomás Paiva e o seu superior na ocasião era o general Villas Boas (…) Tem uma justificativa que já sendo lançada eu de que ele não permitiu discurso dentro da AMAM [Academia Militar das Agulhas Negras], mas o discurso foi fora do muro da AMAN. Ou seja, uma filigrana jurídica”, pontua.

A responsabilização do militar não deixa de ser uma coisa institucionalmente limitante, porque foram muitos os atores. Eu menciono aqui, inclusive, o papel do Congresso Nacional, que tem sua responsabilidade também. São muitos atores e eu tributo até uma importância significativa a quem estudou os militares e realmente se intimidou diante do processo, porque estava evidente o envolvimento e, no entanto, havia uma tergiversação na denúncia disso. Foram poucas as vozes que lá atrás se levantavam de uma forma clara e houve uma busca da academia especializada convivendo com esse golpismo de graça”, completa.

Assista a entrevista na íntegra a partir dos 33 minutos e 44 segundos:

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