5 de junho de 2026

Torres sabia dos atos de 8/01, deixou celular nos EUA e minuta do golpe “bem guardada”

Em grupo de WhatsApp, Torres pediu a substituto que não deixasse atos de 8/01 chegar ao Supremo
Ao centro, o ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, Anderson Torres À esquerda, Silvinei Vasques, ex-diretor da PRF, e à direita, Márcio Nunes de Oliveira, da PF - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A surpresa e indignação mostradas por Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, ao ser preso pela minuta golpista encontrada em sua casa, foram rebatidas pela Procuradoria-Geral da República (PGR): o documento estava guardado em pasta especial do governo, junto com fotos de família e itens pessoais, e não seria jogado fora, como alegou.

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Preso no dia 14 de janeiro, durante audiência de custódia naquele dia, Anderson Torres mostrou-se inocente e disse não ter relação com o “crime horrendo em Brasília e atentado contra o país”.

“Isso foi um tiro de canhão no meu peito, no segundo dia de férias, acontece esse crime horrendo em Brasília e esse atentado contra o país e eu fui responsabilizado por isso. Eu jamais daria condições de isso ocorrer, eu sou profissional, sou técnico e jamais faria isso”, afirmava, ao juiz auxiliar do Supremo Tribunal Federal (STF).

Mas as palavras emocionadas contrastam com o que foi descoberto pelos investigadores, até agora.

Minuta estava bem “guardada”

A minuta golpista não estava solta em um armário em sua casa, mas guardada em uma pasta com documentos do governo federal. Nessa mesma pasta, também havia fotos de família e imagem religiosa, indicando deter importância ao acusado. As informações foram divulgadas por reportagem de O Globo.

“Ao contrário do que o investigado já tentou justificar, não se trata de documento que seria jogado fora, estando, ao revés, muito bem guardado em uma pasta do Governo Federal e junto a outros itens de especial singularidade, como fotos de família e imagem religiosa”, rebateu a Procuradoria.

Deixou celular nos EUA

Além disso, os investigadores encontraram outras provas contra Torres, mais especificamente sobre envolvimento nos atos golpistas de 8 de janeiro, uma delas que o ex-ministro de Jair Bolsonaro deixou o seu celular nos Estados Unidos, impedindo que os investigadores tivessem acesso e extraíssem informações ou provas.

“Não deixem chegar ao Supremo”.

Outro indicativo de participação de Anderson Torres foi uma mensagem, obtida em grupo de WhatsApp chamado “DIFUSÃO”, do então secretário de Segurança Pública do Distrito Federal pedindo aos demais participantes que “não deixem chegar [o ato golpista] ao Supremo”.

O objetivo do grupo era difundir informações e relatórios de inteligência da Secretaria de Segurança. Para o MPF, o grupo teria sido criado, especificamente, para viabilizar os atos de vandalismo do dia 8.

Além de Torres, fazia parte do grupo do WhatsApp o então comandante-geral da Polícia Militar no Distrito Federal, Fábio Augusto Vieira, além de membros das forças policiais e o substituto de Torres na Secretaria, Fernando de Sousa Oliveira. Ele dirigiu a mensagem ao seu substituto, pouco antes das 15h do dia 8 de janeiro.

“Anderson encaminhou a imagem e as informações a Fernando, seu substituto, limitando-se a determinar que não deixasse ‘chegar no Supremo’, ao invés de determinar que as tropas a ele subordinadas impedissem qualquer avanço contra a Praça dos Três Poderes.”

MPF vê indícios

De acordo com o MPF, há “indícios de que Anderson possibilitou que os atos violentos se concretizassem, evidenciando omissão ao ordenar, unicamente, a proteção do prédio do Supremo Tribunal Federal”.

Para os investigadores, Torres sabia dos atos do dia 8 de janeiro e, mesmo assim, deixou o país no dia 2, antes de iniciar suas férias, oficialmente, no dia 9 de janeiro.

“Ao sair do país, mesmo ciente de que os atos ocorreriam no dia 8 de janeiro, vislumbra-se que Anderson Gustavo Torres, deliberadamente, ausentou-se do comando e coordenação das estruturas organicamente supervisionadas pela pasta que titularizava, fator que surge como preponderante para os trágicos desdobramentos dos fatos em comento”, completou o MPF.

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Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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6 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    28 de fevereiro de 2023 8:22 pm

    Como na encenação do Golpe da República, de 15 de novembro de 1889, no golpe de 8 de janeiro, deste ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2021, o único que menos sabia era o chefe. Golpeados e golpistas, todos sabiam disso.

  2. José de Almeida Bispo

    28 de fevereiro de 2023 8:34 pm

    A tentativa de golpe de 8 de janeiro é mais infame que o golpe da República de 15 de novembro de 1889. Todo mundo sabia que ocorreria; talvez, exceto os comandantes deles. É humilhante. Uma esculhambação. Um bando armado para tirar o pirulito de um garoto de seis anos.

  3. Célio Ferreira Facó

    28 de fevereiro de 2023 9:17 pm

    Golpe está no DNA da elite nacional. Colônia, Monarquia, República pelo Golpe. Ainda hoje. Sacoleiros em Miami e Paris. Jamais aprendem francês inglês ou português direito. Atrasados de pelo menos uma geração quanto ao resto do Mundo.

  4. Rui

    1 de março de 2023 8:09 am

    Tragédia anunciada e organizada. Republiqueta Bananeira

  5. +almeida

    1 de março de 2023 9:14 am

    Taí um crime muito grave, que deve ser considerado hodiendo e triplamente qualificado.
    Além de ministro da justiça, representante nacional do judiciário brasileiro, aos olhos mundo e chefe da segurança nacional, ele também é governo e é funcionário público.
    Então, como entender o que ele quis fazer?
    O que mais ele queria, além de sua participação ativa em um governo desastrado, incompetente, desrespeitoso e debochado?
    Acredito que, obedecendo e concordando com o seu líder, queria mais poder, mais cargos, mais posições estratégicas e domínio total de todos os poderes da nação.
    São desejos e fatos que indicam um ano de marcha, com direção ditatorial
    Creio que começa a ficar clara a sua intenção em tornar-se um golpista subversivo, consciente, convicto, participativo, orientador e até (quem sabe?) um dos elaboradores da planejada, detalhada e armada minuta golpista
    Toda a justiça brasileira tem que estar ciente da sua imensa responsabilidade, para o que representa a gravíssima participação de um ministro de governo, principalmente da justiça, em atos golpista, com vandalismo bárbaro e nitidamente criminoso e terrorista.
    A sua ausência do país, a antecipada a data do início de suas férias, o retorno sem o celular (fato indesculpável) e mais um caminhão de coincidências, que o atinge com muito mais eficácia que a repugnante tentativa de golpe, são pequenos detalhes perto do ele e seus comparsas fariam com o Brasil, do que eles e seus comparsas fariam com o povo, do ele e seus comparsas fariam com a soberania nacional e do que do ele e seus comparsas fariam com o que ainda nos restam das nossas riquezas estratégicas.
    Que a justiça não pense, e muito menos as demais autoridades simpatizante de toda esta barbárie, que todos não pensem em corporativismo, em conceder tratamento condescendente ou sequer pensem em permitir qualquer afrouxamento da gravidade criminal e criminosa, deste péssimo exemplo de autoridade pública, de cidadão brasileiro, de chefe de família e de traidor da nação brasileira.

  6. jossimar

    1 de março de 2023 10:37 am

    SE os vagabundos do governo anterior – familícia, militares, ministros e até deputados e senadores golpistas — não forem todos punidos severamente será a desmoralização final do judiciário brasileiro, já mundialmente conhecido por só punir preto, pobre, prostituta e petista.

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