Xadrez da falta de ação do governo Lula, por Luís Nassif

É hora de começar a virar o jogo. E o caminho passa por essa grande aliança nacional em defesa da produção.

Peça 1 – o governo miliciano

Na montagem de qualquer estratégia de governo, é importante levar em consideração os seguintes pontos:

– A onda da ultradireita não é passageira. Veio para ficar por muito tempo.

– No Brasil, ela foi apossada pelas milícias. O esquema Bolsonaro é fundamentalmente miliciano. A família tem ligações históricas com a milícia do Rio das Pedras, com os responsáveis pelo Escritório do Crime. Na sua origem, Bolsonaro tinha ligações com os porões, com o pessoal que planejava atentados a bomba. Dos porões nasceram os planos que mataram as três maiores lideranças civis da época, Carlos Lacerda, João Goulart e Juscelino Kubitscheck, além de Zuzu Angel e outros.

– Na atual reencarnação, mortes variadas rondam a história da família. Marielle Franco, Gustavo Bebiano (dez dias após denunciar a Abin 2), e Adriano da Nóbrega, o chefe do Escritório do Crime. Apenas coincidências, diriam os arautos da objetividade.

É para esse pessoal que a imbecilidade nacional entregou o país.

Primeiro, houve o interregno Michel Temer, no qual todos os negócios foram permitidos. Como não conseguiu completar sua obra, a frente pró-mercado aceitou Bolsonaro e a volta das Forças Armadas, em seu formato mais tosco.

Agora, depois de 700 mil mortes pela pandemia, da destruição da máquina pública, da contaminação de todos os poros da República, do crime organizado infiltrado em todos os poderes, a mídia volta novamente suas bazucas contra Lula. Tudo em nome dos negócios da financeirização.

A direita não morreu. Está forte, esperando a próxima esquina para dar o bote. E a única esperança de derrotar a Hidra de Lerna é um governo bem-sucedido, que garanta a reeleição de Lula em 2026 e forme quadros para 2030.

Peça 2 – o enigma Lula

A diferença entre Brasil e Argentina é Lula. Foi graças a ele que se impediu que o país caísse definitivamente nas mãos das milícias, como consequência de um processo de desconstrução institucional do qual participaram mídia, Ministério Público, Supremo Tribunal Federal, Forças Armadas, a geopolítica americana, no momento de maior fracasso do Brasil nação.

A grande questão é sobre a disposição de Lula 3. 

O primeiro ano foi dedicado à diplomacia, à reconstrução da máquina pública e ao enfrentamento dos problemas de saúde. Agora, entra-se no segundo ano com o governo desconjuntado e com Lula tomado por um receio invencível de enfrentar os monstros legados pelo período anterior. 

Os recentes episódios envolvendo a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), o lançamento improvisado da política de neoindustrialização, as trombadas entre o PT e o Ministro Fernando Haddad, o atendimento de todas as demandas de setores críticos – como Forças Armadas, Polícia Federal, Congresso -, em desfavor de setores aliados – professores, Universidades, aposentados -, sem o contraponto de um discurso unificador, tudo isso revela uma assustadora fragilidade,  à qual se somam falta de articulação, de informação e de estratégia do governo.

No episódio ABIN, precisou o Supremo Tribunal Federal intervir para Lula afastar os agentes infiltrados.

Uma mera Portaria do Comando Logístico do Exército, assinada pelo General do Exército Flávio Marcus Lancia Barbosa, revogou toda a política de controle de armamento permitindo a Policiais Militares, Bombeiros e membros do GSI terem até cinco armas em casa – um absurdo! Depois, voltou atrás em um gesto magnânimo, como se fosse uma concessão ao novo Ministro da Justiça. Não lhe foi cobrada nenhuma explicação para uma medida que abriria a possibilidade de militares serem utilizados para alimentar facções e CACs com armamentos, como ocorreu na fase em que o Exército abdicou de sua função de controlar a entrada de armas.

O número de militares em cargos civis está voltando as níveis da era Bolsonaro.

Lula não assinou até hoje a reconstituição da Comissão de Desaparecidos, deixando centenas de mães morrendo sem saber do destino dos filhos.

A cada dia, a cada concessão vai erodindo a crença daqueles que o enxergam como a salvação do país. Ou muda radicalmente seu modo de governar, ou o país soçobrará ante o crime organizado montado na ultra-direita.

Peça 3 – as fragilidades de Lula 3

O primeiro ponto que chama a atenção em Lula 3 é a completa ausência de um conselho de assessoramento. Não há uma estratégia para enfrentamento e superação das vulnerabilidades.

Agora mesmo, a Câmara prepara-se para a substituição de Arthur Lira. Há vários candidatos no páreo. O favorito é Elmar Nascimento (União-BA) tido como mais voraz que Artur Lira. Por fora estão disputando Isnaldo Bulhões Junior (MDB-AL). Se a própria legislatura for sob o comando de David Alcolumbre no Senado e Elmar Nascimento na Câmara, haverá o sequestro total do orçamento e do governo. E o que se faz para dividir o Centrão e montar alianças que permitam evitar esse desastre? Nada.

Do mesmo modo, até agora Lula não conseguiu desenvolver um discurso de unificação, que possa ser a marca do seu governo. Há temas na sua frente, sem que ele consiga articular um discurso.

O grande avanço de Lula 2 – que foram as ações interministeriais – não consegue avançar. Não há coordenação. A prova foi o lançamento da política de neoindustrialização. Um tema que envolve indústria, meio ambiente, energia, orçamento, não tinha um representante sequer de outros Ministérios. E Lula foi informado do lançamento na véspera, sem ter tido ao menos tempos de analisar o que seria anunciado.

No Palácio, parece haver uma disputa mesquinha por espaço, travando os movimentos, com os integrantes do governo limitando-se a uma guerrilha de notas repassadas a colunistas de jornais.

Peça 4 – a reação

Há uma multidão de pessoas e setores interessados que o governo dê certo, como antídoto contra a tomada do poder pelas milícias. Mas tem que haver um mínimo de coordenação.

O melhor que Lula teria a fazer seria se cercar de especialistas, que o assessorassem nas estratégias necessárias:

Conselho Político – cuja missão maior é definir estratégias para impedir que MDB e PSD sejam atraídos para o União Brasil e PL. Se se consolidar essa aliança, as eleições estarão perdidas. Há muitos políticos habilidosos que poderiam ajudar na montagem de uma chapa que rachasse o Centrão.

Conselho de Desenvolvimento – um grupo restrito de grandes técnicos em desenvolvimento, falando diretamente com a presidência, para dar consistência à política de neoindustrialização.

Aliança com a economia real – os grandes aliados de Lula, nessa fase da vida nacional, deveriam ser as entidades representativas da economia real: CNI, Federações de Indústria, cooperativas, associações comerciais, MST. É o pacto político pela produção que dará consistência ao Lula 3.

Essa é a grande batalha contra o financiador maior, a financeirização. A bandeira a ser içada é a da produção – por tal entendendo-se pequenas, médias e grandes empresas, associações empresariais, centrais sindicais, cooperativismo, agricultura familiar.

Essa frente tem o condão de contrabalançar a influência do mercado e dos ruralistas – através das grandes associações empresariais -, e de mobilizar também a população, especialmente se começar um trabalho de levantar a auto-estiuma do produtor.

Não é o agro ou trader que são top: são os que produzem, que dão emprego, que pagam impostos. Por enquanto, para eles o Estado só se manifesta através de fiscais da Receita. E todos são vítimas de políticas econômicas definidas na Faria Lima.

É hora de começar a virar o jogo. E o caminho passa por essa grande aliança nacional em defesa da produção.

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Luis Nassif

3 Comentários

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  1. Apesar de ter sido desmantelada após o escândalo da Vaza Jato, a operação Lava Jato conduzida por Deltan Dellagnol e Sujo Moro com apoio incondicional do Exército (e das autoridades norte-americanas também) continua produzindo efeitos políticos deletérios. Um deles é o retraimento de Lula. A prisão o marcou, a perda da esposa e do neto naquele período também. Ele nunca vai superar o fato do Ministro Dias Tofolli o ter impedido de ir ao enterro de um parente, coisa grotesca e imperdoável que nem mesmo a ditadura fez nos anos 1970. A rebeldia natural de Lula deu lugar à timidez cuidadosa. E enquanto ele pensa os inimigos da democracia e do Brasil avança velozmente. O STF oscila entre defender a democracia (as vezes aquele Tribunal se limita a defender seus próprios ministros) e construir um cenário em que a super-exploração de trabalhadores algoritmizados é o novo normal. O cenário internacional também obriga Lula a ser muito mais cauteloso. A guerra silenciosa pela hegemonia global está sendo substituída pelo troar dos canhões no Oriente Médio, na Europa e eventualmente na Ásia e na América Latina. O espaço confortável para correr riscos é limitado, mas o próprio Lula parece estar mais inseguro. Ele sabe que não pode contar muito com várias pessoas que subiram com ajuda dele e que agora se agarram mais aos cargos do que aos compromissos históricos. A sorte do Brasil é que a extrema direita se tornou estúpida e incompetente se deixando liderar por um ladrãozinho de galinhas que conseguiu montar alguns galinheiros. Bolsonaro é mais medroso do que Lula e isso parece estar decidindo a partida em desfavor do mito.

  2. Pela sua sagacidade e inteligência, você deve conhecer a história do corneteiro Lopes, personagem fundamental da Guerra da Independência na Bahia. Poucos brasileiros sabem que para o Brasil para se ver livre das amarras portuguesas, baianos retados lutaram bravamente.

    Na batalha de Pirajá, o comandante prevendo a vitória dos adversário mandou que o exército do povo baiano recuasse. Mas, o corneteiro Luís Lopes fez o contrário. Deu o sinal para a cavalaria avançar e, em seguida, o de degolar. Com isso, a tropa lusitana acabou batendo em retirada, supondo que os brasileiros tivessem recebido reforço. Você é o “corneteiro Lopes do governo Lula 3”. Tomara o ministro baiano Rui Costa lembre-se disso e leia seus comentários.

  3. O Passado Colonial é um pesadelo de que é difícil libertar-se, Nassif. Mais uma vez alguém se senta “naquela cadeira” com a intenção de desenvolver o país, da única maneira possível desde a Revolução Industrial, ou seja, criando uma indústria de transformação. Mas o fato de ter sido, por séculos a fio, um fornecedor de matérias-primas para essa mesma indústria, já estabelecida e pujante no exterior, é um entrave com componentes internos e externos difíceis de combater e erradicar. As elites e oligarquias nativas que são cooptadas pelas nações industrializadas, nesses países ricos de recursos naturais, minerais, ou humanos, uma vez entronizadas no comando, simbólico e real, dessas riquezas e da burocracia estatal, refesteladas que estão em sua própria prosperidade, tem a tradição (leia-se, conservação de tudo como está) como lema e a inércia como modo de operar; da mesma forma que os países afluentes não querem sócios, mas serviçais, também a nossa parcela de sociedade afluente não deseja que os cidadãos fora de seus domínios tenham a chance de ascender nessa mesma sociedade. O fato de que qualquer tentativa de colocar o Brasil no caminho do progresso e do desenvolvimento – só possível, repito, com a industrialização do país, já que o agro e o extrativismo são, por natureza, concentradores de renda, cevando exclusivamente latifundiários e corporações – tem que levar em conta a movimentação dessa gigantesca massa de interesses alienígenas e seus capatazes aqui dentro, é o que finalmente está deixando Lula meio alquebrado, e é um item que fica sempre fora das discussões sobre o tema, por mais sérias, sensatas, e abrangentes que sejam. Lula sabe o que aconteceu com Getúlio, JK, com aqueles empresários que se movimentaram nessa direção, de Mauá a Delmiro e Simonsen, dentre outros, e com ele mesmo, quando tiveram que enfrentar o poder dessa gente, que ele um dia definiu como ‘gente branca de olhos azuis’. Seja qual for o caminho ou método escolhido, qualquer tentativa de levar o país nessa direção enfrentará essa rebordosa. Essa conta sempre chega, antes mesmo que deixemos o restaurante. Custa crer que China, Índia, e Rússia não tenham tido, em toda ou pelo menos em parte de suas longas histórias, que enfrentar suas próprias elites do atraso. Não sei se as derrotaram, mas, ao que tudo indica, de uma forma ou de outra, as neutralizaram. Talvez absorvendo as próprias práticas que combatiam, ou diziam combater, talvez impondo uma ruptura, dolorosa como são todas as rupturas. Mas estão se mexendo nessa direção. Não hesitam, não tem medo. Desenvolveram o que tinham que desenvolver, principalmente sua força militar. Com tecnologia de fora, em algumas ocasiões. Talvez estejam apenas se transformando em ‘países depois do of’, como diria o Millor (of China, of India, of Russia, of Brazil…), mas, que diabo, estão escolhendo seu próprio caminho, sem isolacionismo mas sem subalternidade. Para o que der e vier. Por que não podemos fazer o mesmo? Por sermos um quintal? Pode ser. Não sei. Mas não será com Lula, o conciliador, ou Haddad, o bom moço, certamente, que nos libertaremos da sombra de nosso passado colonial. O presente século, creio eu, não terá líderes gigantes; essa Era já passou. Putin, Modi, Xi, são líderes pragmáticos, e, se não chegam a dançar conforme a música, ao menos se inteiram do que a orquestra está tocando, e agem de acordo. Mas, num mundo de trumps, mileis, e bolsonaros, como esse que se anuncia, não há lugar para nada além da mediocridade. E esta é o paraíso da extrema-direita, a via expressa da ignorância, da exploração do trabalho seguida do descarte de seres humanos, e do manufacturing consent.

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