9 de junho de 2026

A discussão sobre a etnopsicanálise

Depois de polemizar, nos dois primeiros textos, com correntes conservadores e de direita que repudiam a psicanálise, no terceiro texto do livro – na verdade uma entrevista – a historiadora da psicanálise, Elisabeth Roudinesco enfrenta a polêmica com a crítica esquerdista, alojada no que ficou conhecido como “etnopsicanálise” e “etnopsiquiatria”, sobretudo vai refutar as teses do psicanalista Tobie Nathan que decide rejeitar a psicanálise em nome da terapêutica tradicional de povos colonizados. As teses de Nathan parecem sedutoras. Apontam para a afirmação irredutível e inegociável das diferenças e conflitos culturais.

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A primeira pergunta da entrevista é sobre as origens da etnopsiquiatria e de como Roudinesco se situa neste debate. Ela diz que a etnopsiquiatria nasceu com Kraepelin no fim do século XIX. É herdeira da psicologia dos povos, que acredita na qualidade superior e inferior de povos diferentes e busca encontrar semelhanças e diferenças, de acordo com as culturas, nas doenças mentais. [A psicologia dos povos alemã é parte das correntes românticas que darão início aos estudos do folclore].

[Concluo o resumo do texto em pleno dia da festa do Bonfim e passa pela cabeça flashes das qualidades centrípetas e centrífugas da festa, sempre capaz de manter-se e inovar-se diante da história e do presente].

 Lembra Roudinesco que a publicação de Totem e Tabu (1912-13), de Freud, trouxe à tona um grande debate sobre culturalismo e universalismo (Malinowski e Geza Roheim). Para Malinowski as teses de Freud eram inválidas para as sociedades de tipo matrilinear. Roheim, freudiano/kleiniano foi estudar os melanésios – daí nasceu a etnopsicanálise.

Papel central na tradição da etnopsicanálise tem o judeu húngaro Georges Devereux, que promoveu a fusão entre a etnopsicanálise e a etnopsiquiatria, isto é, classificação das doenças e o tratamento pela fala.

Os freudianos, garante Roudinesco, abandonam qualquer idéia – corrente no início do século XX –  de inferioridade dos povos colonizados. Este é o grande debate do final do século XIX. Com a antropologia moderna e a psicanálise deixa-se de cultivar a idéia de que haveria povos ditos primitivos e povos civilizados superiores. A etnopsicanálise, a etnologia e a etnopsiquiatria separam-se radicalmente da psiquiatria colonial, que inferioriza o “indígena”. A antropologia moderna (Paul Rivet, o Museu do Homem …) é fundamentalmente anticolonialista, em nome do progresso e da ciência.

Devereux foi estudar povos minoritários nos EUA. Em 1950 faz a análise de um índio das planícies, que se inscreve nas duas culturas (americana e indígena). Em Topeka, no Kansas, a partir de 1940, funciona famosa clínica fundada por Karl Menninger, capital da psiquitria, da etnopsiquiatria e da psicanálise, para onde se dirigiram emigrados da Europa Central expulsos pelo nazismo. Tratavam de veteranos de guerra, índios … como pano de fundo a culpa em relação ao genocídio dos índios.

Todos os grandes antropólogos americanos quiseram redimir-se desse “erro” dedicando-se aos índios. Topeka é marcada por isso. Devereux aporta lá: emigrado húngaro, freudiano “americano”, universalista, mas levando em conta a diferença das culturas. Dará aula na França. O seu aluno Tobie Nathan empurra o ensino de Devereux no sentido oposto do que ele é.

Nathan vai considerar que se o Ocidente é culpado pela colonização, a psicanálise também o é: ela é ciência dos brancos e dos ocidentais, sendo, portanto, por essência, hostil às culturas ditas não-ocidentais. Para redescobrir a identidade perdida das populações migrantes é preciso reinstalá-la em seu gueto, obrigá-las a reintegrar a sua cultura de origem. Daí a defesa da excisão (mutilação genital, praticada em países da África e da Ásia, que consiste na amputação do clitóris para que a mulher evite o prazer durante o sexo).

É a nova deriva da psicologia dos povos, aponta Roudinesco. Nathan utiliza a palavra etnopsicanálise num sentido anti-universalista, mas não como os culturalistas norte-americanos, como Malonowski, mas segundo uma deriva que pode levar a um racismo invertido: o negro é superior ao branco.

Psicanalista, psicólogo clínico, fundador do Centro Georges Devereux, Tobie Nathan faz campanha contra a psicanálise, opondo-lhe as técnicas xamanísticas tradicionais, afirmando que elas são superiores. É uma inversão. A civilização branca é culpada, ela só faz explorar e, em vez de integrar os emigrados, é preciso tratá-los com suas próprias técnicas…

Ora, pontua Roudinesco, o que Devereux mostra em seu trabalho é que, se não estimulamos a integração, acentuaremos as patologias. Há diferenças culturais na forma de se exprimir, mas a loucura é universal. É preciso diferençar nas populações migrantes entre os distúrbios psicopatológicos e os problemas de cultura. Em segundo lugar, as migrações favorecem certo número de traços patológicos. É preciso saber identificar o que é do âmbito da cultura e o que é do âmbito do psíquico.

Na defesa da excisão, Nathan estimula a idéia de orientar sujeitos para costumes condenáveis – os movimentos de mulheres africanas se revoltaram. A excisão deixa de ser uma “cultura”, sendo percebida como uma opressão, até mesmo na África. Nathan parte da crítica da colonização, mas é tão grande a identificação com a imagem idealizada que se forma do colonizado que se afirma que a civilização ocidental é, por essência, culpada de etnocídio e que toda tentativa de integrar um emigrado equivale a uma colonização.

[Aqui fiquei a pensar se, de fato, em diversos momentos da história, os povos europeus promoveram etnocídio, como vimos aqui mesmo na Bahia/Brasil/América Latina. Roudinesco fala de um ponto de vista europeu. Do nosso canto vemos diferentes perspectivas, certamente, o que não quer dizer que a natureza psíquica dos diferentes povos seja diferente].

No que se refere a Devereux, Nathan terminou por extrapolar, afirma Roudinesco, pois ele vai dizer que aquele era judeu vergonhoso. Húngaro, adotou nome emprestado de um romance para se afrancesar. Era assimilacionista, como boa parte dessa geração de judeus húngaros e romenos dos anos 30. Porém, jamais renegou suas origens. Para Tobie Nathan alguém é ele mesmo e descobre sua identidade quando redescobre as próprias raízes.  

Universalista, Roudinesco opõe-se a esta posição, dizendo que nós podemos ser nós mesmos recusando-nos a nos redescobrir em nossas raízes, num território, numa raça, numa identidade cultural. A historiadora francesa prega o direito de cada um descobrir suas raízes em si mesmo, onde bem entender, em sua genealogia ou sua história e ser, p. ex., um judeu cosmopolita. Ela defende que todas tenham a liberdade “sartriana” de não serem levados, obrigatoriamente, a uma origem não desejada.

Radicalizando a sua posição, Roudinesco vai considerar que o etnicismo seria uma espécie de nova barbárie contra a qual seria necessário defender a civilização.

[Aqui naturalmente tomei um choque. Na Bahia a questão étnica adquiriu importância fatal nas últimas décadas, envolvendo reivindicações de emergências étnicas negro-indígenas dos Kiriri, Pataxó e, inicialmente, da Negritude black power, seguido de todos os desdobramentos posteriores. Trata-se questões de alta sensibilidade, sobretudo, imagino eu, para quem não é europeu].

Tobie Nathan, insiste Roudinesco, refuta a ciência dita ocidental, à qual opõe as terapias clássicas xamanísticas, dizendo ser possível colocá-las no mesmo plano. Porém, enfatiza Roudinesco, a ciência não é ocidental ou não ocidental e a ciência também não é o cientificismo. O que incomoda Nathan, ela diz, é a psicanálise: é porque ela encarna um universal – na diferença – que ele recusa; e porque está ligada a um procedimento científico no sentido do racional, a uma concepção do inconsciente que não é o “subconsciente das culturas” ou da psicologia dos povos.  

Roudinesco defende acabar o uso dos termos etnopsiquiatria e etnopsicanálise. Reconhece que num determinado momento tiveram a sua grandeza. Mas o estudo rigoroso dessa tradição aponta que a palavra não é mais necessária. Roudinesco considera que o “etnicismo” pode ser perigoso para a igualdade dos sujeitos. Para ela, ao invés de levar ao centro da batalha a questão das diferenças culturais, o perigo principal é o comportamentalismo – não é mais a abolição [ou afirmação?] das diferenças das culturas é, sim, a abolição do próprio homem, a defesa do sujeito contra a redução do humano a uma máquina comportamental. Diversos psicanalistas trabalham hoje com migrantes e não precisam  de teorias etnopsicanalíticas. Não é necessário convocar feiticeiros para respeitar as crenças e os modos de vida dos migrantes. O que é preciso defender é a abordagem do psiquismo pela fala e não pelo condicionamento  ou influência.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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