Petrobras x padarias, como vender?, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Assim, a premissa de que a privatização traz a concorrência fica entre a ignorância e a má fé, tendendo muito mais para a segunda hipótese.

Refinaria da Petrobras em Cubatão 03/02/2018 REUTERS/Paulo Whitaker

Petrobras x padarias, como vender?

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Se alguém procurar uma agência de compra e venda de empresas, vai observar que o vendedor quer se livrar do negócio e viver do aluguel dos imóveis que a compõem, a guisa de aposentadoria. Existem negócios que não têm um prédio próprio, ou porque o empresário não quis imobilizar seu capital, ou porque a operação não ocorre num endereço fixo. Elas trabalham onde houver serviço a prestar ou algo a produzir. Construtoras, empresas de limpeza e segurança são ótimos exemplos disso. As mineradoras, por sua vez, têm uma realidade totalmente diferente. As instalações podem ou não ser significativas entre os seus ativos, consoante a necessidade de beneficiamento das substância que extraem do solo. Tomemos uma cerâmica como exemplo. Ela pode ou não comprar argila de terceiros, mas é preciso que tenha reservas próprias porque seus fornos não se podem desligar. Elas simplesmente não podem ficar à mercê de fornecedores que têm a possibilidade de vender para quem pagar mais. A argila não vale nada se não para indústrias cerâmicas, ou seja, seu valor de troca, em função de seu valor de uso, é pífio. Traduzindo do economês, ninguém sai por aí comprando argila porque acha bonito, ou porque vai usar em casa Para algum fim que não de fazer muita sujeira. Depois de transformado em piso, ladrilho, serviço de mesa, até vaso sanitário, aquele pó passa a valer muito, aproximando o valor de uso do valor de troca.

As instalações da mesma cerâmica não valem nada, a não ser para um concorrente, imaginando que ninguém vá morar nelas, de tão específica que são. Por causa disso, a venda de uma cerâmica não se compara com a de uma padaria ou de uma indústria cuja atividade se dê num galpão como outro qualquer. Ora, se vender uma cerâmica, mesmo que seja das mais simples, que se dedique a fazer tijolos e telhas, já é algo muito específico, imagine-se a dificuldade de negociar uma mineradora como a Petrobras. Sim, a Petrobras é uma mineradora como outra qualquer e, por isso mesmo, está cheia de particularidades.

Da mesma forma que os exemplos acima, uma refinaria não pode deixar de ter reservas próprias e ficar dependendo de fornecedores que, de um dia para outro, resolvem que vão destinar sua produção a outros, ou que o fornecimento esteja sujeito a guerras, pirataria ou embargos econômicos. Como se isso não bastasse, por mais que o petróleo tenha cotação internacional, ninguém o vai  comprar para usar como brilhantina, é preciso refinar para que tenha o devido valor de uso. Assim, petroleiras e refinarias tendem a ser uma coisa só, quase indissociável.

Políticos e jornalistas têm falado absurdos como “vender a Petrobras”, ou “fatiar para vender”. Fatiar o que, para quem comprar?

Nossas refinarias foram otimizadas para usar o petróleo dos nossos campos. Como elas praticamente não admitem ajustes, são umbilicalmente dependentes do conjunto que hoje se chama Petrobras.  Se abastecidas com matéria-prima  não condizente com o projeto, deixam de ser competitivas, tornando-se pouco interessantes aos possíveis compradores. É que a dependência da Petrobras ou sucessor é quase total.

A distribuição, privatizada desde 1997, não teve alteração alguma de preços ao consumidor com a venda da BR, hoje, chamada Vibra. Por que isso não aconteceu? Porque a distribuição, apesar de haver mais de duzentas distribuidoras ativas, é concentrada em três empresas somente: Vibra, Raízen (junção do grupo Ometto com Shell) e Ipiranga (Grupo Ultra). As três detêm, com variações, 81% do mercado. Não poderia ser diferente porque as maiores conseguem usar dutos, enquanto as menores têm que buscar seus produtos por transporte terrestre, além de conseguirem uma maior capilaridade na entrega.

Assim, a premissa de que a privatização traz a concorrência fica entre a ignorância e a má fé, tendendo muito mais para a segunda hipótese. É um mercado complexo demais pra que sequer se mencione a venda como se fosse a transação de uma padaria, ou de uma loja de moda jovem. É preciso tratar o assunto de forma minimamente séria.

Agradecimentos a José Sergio Gabrielli

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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1 comentário

  1. BRINCANDO DE FAZER CONTAS:
    A boa comparação com padaria me lembrou que apesar da complexidade da formação de preços (daria um longo artigo), uma “conta de padeiro” pode dar um vislumbre do que acontece hoje com a Petrobrás e seu desmonte, iniciado lá nos tempos de FHC; Vamos à conta:
    Consumo anual de combustível no país: ~140 bilhões de L (~35 bilhões/trim)
    Lucro da Petrobrás 21-T2: ~45 bilhões de reais (US$ 8 bi)
    Lucro da Shell, privada, 3 vezes maior que a Petrobrás, no mesmo período: US$ 5 bilhões
    Ou seja, a PB lucrou 60% mais que a Shell, com 3x menos receita.
    Proporcionalmente, a PB teria lucrado 24 bi ou 4,8 vezes o que a privada Shell lucrou.
    Portanto, para a PB lucrar o mesmo que a privada Shell para remunerar seus acionistas privados, 1,7 bi daria a mesma lucratividade que a privada Shell.
    Fazendo o preço médio do combustível na refinaria, no 21-T2 a R$1,5 (gasolina está a 2,33 hoje), teríamos um faturamento em combustíveis de 35 bilhões de L a R$ 1,5: ~R$ 52,5 BI.
    Se pegarmos o “lucro excesso Shell” de 8 bi – 1,7 bi=US$ 6,3 bi ou 35,3 bi de reais e fizermos um “cash back” (hehe) no faturamento de R$ 52,5 em combustíveis para R$ 17,2 BI.
    Ou seja, cada litro médio de combustível na refinaria sairia a ~1/3 do que foi vendido.
    Se fizermos o preço médio a R$ 2/L, teríamos R$ 70 bi – 35,3 bi ou cerca de metade do preço.
    E ainda daríamos um % LUCRO aos acionistas IGUAL ao que a privada SHELL deu!
    Lembrando que a Shell é privada e a PB é estatal mista; tem seus custos eminentemente em US$/€/£ e a Petrobrás só parte; ela é completa e a Petrobrás cada vez mais reduzida a commodities; ela é muito mais internacional que a PB; Ela tem como objetivo primordial, dar lucro, o que não é necessariamente o (único) objetivo de uma estatal, ainda que mista, como sempre foi; a maior parte dos acionistas privados da PB hoje é ESTRANGEIRA.

    PS1: Como já dito, a idéia não é fazer cálculos precisos ou contabilmente perfeitos, mas “dar uma idéia” do que está acontecendo com o preço dos combustíveis no braZil e seus nefastos efeitos em nossa economia, privilegiando lucros e dividendos para estrangeiros, que estamos todos pagando, direta ou indiretamente. Quaisquer que sejam os números e critérios utilizados, chegaremos a conclusões semelhantes.
    PS2: O objetivo ESTRATÈGICO da fundação da empresa, numa época em que já tínhamos aqui havia décadas, petroleiras como Esso, Shell, Mobil, Atlantic, Texaco e Gulf, foi conseguir que a sociedade brasileira ficasse AUTÔNOMA em suas necessidades e preços de energia fóssil (hoje ampliadas). Dar lucro (e consistentemente deu) é, no caso, tão importante quanto seu objetivo estratégico. Se depois de tanto tempo voltamos à depender das volatilidades internacionais, então a ESTRATÉGIA foi destruída, embora viabilizada.
    PS3: A PB foi fundada com o dinheiro do contribuinte, que por si ou seus herdeiros é ACIONISTA FUNDADOR desta empresa, que não pode portanto ser vendida e despedaçada por governos corretores de plantão. Ela é majoritariamente do Estado (“SÓCIO-FUNDADOR”) e não de governos.

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