10 de junho de 2026

Estado do Espírito Santo feito apenas e para o capital, por Igor Vitorino da Silva

Trata-se de um condomínio econômico cujas decisões são tomadas fora de seus limites territoriais e dissociadas dos interesses da população.
Vitória - Enseada do Suá - Divulgação

Estado do Espírito Santo feito apenas e para o capital: um hub de dependência, dominação e espoliação

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por Igor Vitorino da Silva

Donald Trump apenas expôs o que o estado  do Espírito Santo insiste em esquecer: ele é um território econômico de desautonomia relativa (A. C. de Medeiros). Não há, de fato, uma “economia capixaba”, mas uma condição de dependência econômica neoextrativa e rentista (L. C. de Queiroz Ribeiro & N. Diniz). Trata-se de um condomínio econômico cujas decisões são tomadas fora de seus limites territoriais e dissociadas dos interesses da maioria da população. Uma única decisão de um governante distante é capaz de desestabilizar, aterrorizar e submeter os agentes econômicos locais e regionais.

Dessa forma, a questão não diz respeito apenas a Tampa ou aos Estados Unidos; ela diz respeito a nós mesmos, especialmente às nossas elites econômicas, empresariais e políticas, que insistem eternamente no mesmo roteiro: fazer do Espírito Santo um lugar de passagem, de commodities e de transferência de riqueza pública por meio de políticas de isenção fiscal. Quem determinou, ao longo dos anos, a política fiscal capixaba? Quem foram os beneficiários dessa política e como se elegeram?

Apesar de diversas políticas públicas, ainda persistem desigualdades regionais, bem como concentrações antigas e novas de renda, poder e infraestrutura. Contudo, mesmo nas tragédias, há um lado pedagógico: a obsessão de Trump por uma taxação justa voltada à proteção da economia norte-americana (um projeto nacionalista autoritário de autonomia e fortalecimento do imperialismo) coloca em suspenso os dogmas do neoliberalismo e do ultraliberalismo que contaminam o imaginário e o discurso econômico brasileiro.

Esse reposicionamento internacional abre um campo de possibilidades para o ressurgimento de valores nacionalistas e da percepção da importância de um projeto de país, de Estado e de planejamento democrático-participativo, capaz de reconfigurar a economia brasileira — e por que não a capixaba — sobre bases mais autônomas, livres e independentes. Em outras palavras, a ideia de soberania reaparece na cena pública, transversalizando todas as camadas da sociedade brasileira.

Essas são, evidentemente especulações diante de um cenário instável de reconfiguração da economia global e do aparente questionamento do império militar, político e econômico dos Estados Unidos por potências emergentes. O tiro pode sair pela culatra, mas é necessário esperar e observar, lembrando as palavras de Tancredo Neves: “A política é como uma nuvem — hoje está de um jeito, amanhã de outro”.

Mais ainda, a política é ingovernável, marcada por contingências e seduzida pelo acaso. Como dizia Maquiavel, ela exige virtù (capacidade de agir ou decidir) e fortuna (senso de oportunidade). Para desgosto de certos economistas que insistem em uma abordagem exclusivamente técnica da economia — separando quase completamente economia e política — a decisão política e econômica de Trump prova que ambas estão entrelaçadas. Essa separação é apenas analítica, epistemológica, cultural, didática e política — e não ontológica.

A economia capixaba é, hoje, um grande hub: um nó logístico e financeiro onde grandes capitais devoram as riquezas locais, exploram os trabalhadores e trabalhadoras com baixos salários e os mantêm em condições precárias de trabalho e vida. Basta visitar o sistema de transporte público na Grande Vitória, Colatina, Linhares, São Mateus, Guarapari, Cachoeiro de Itapemirim, entre outros municípios, para perceber o cenário. Em seguida, pesquise sobre os índices de violência urbana e continue mapeando as condições de vida daqueles que vivem do trabalho no Espírito Santo.

Esse grande hub de conexão e colaboração econômica lembra o que Karl Marx afirmou no Manifesto Comunista sobre o Estado: uma estrutura que opera a serviço dos interesses das classes dominantes. No entanto, este nó de rede – o Espírito Santo – revela não ter força para competir com os grandes hubs do Norte global, como o dos Estados Unidos, hoje dirigido por um líder ultradireitista e ultraconservador como Donald Trump.

Igor Vitorino da Silva, professor de História formado pela UFES e mestre em História pela PGHIS/UFPR.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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