O Sentido da Cruz e o Espírito da História: Especulações Filosóficas sobre o Cristianismo, por Nathan Caixeta

Adianto que esse texto é uma especulação nascida do ato da dúvida.

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O Sentido da Cruz e o Espírito da História: Especulações Filosóficas sobre o Cristianismo.

por Nathan Caixeta[1]

Nos últimos dias, tive a oportunidade de conversar com dois seres absolutamente marcantes na minha trajetória. O primeiro, Reinaldo Paublo, o pai que ganhei da vida, assim como, sua esposa Andréia e meus irmãos, Gabriel e Anderson, este último que nos presenteou com Lorena e meu sobrinho Rafael. O segundo, foram as conversas prodigiosas com Luiz Gonzaga Belluzzo a respeito de Hegel, Marx e o novo livro de Jürgen Habermas, o qual escolhemos não nos arriscar na leitura da edição alemã e esperamos a tradução para o inglês.

Reinaldo faz do tipo “paizão”, habita nele um coração que mal cabe em seu peito, embora sua experiência seja denunciada pelos cabelos brancos, misturados aos loiros que ainda lhe restam. Comungamos da mesma fé e sempre que nos encontramos, o papo vai e vem e acaba na mais deliciosa das discussões: o estudo e compartilhamento do espírito cristão. Sempre me despeço renovado, pois embora não tenha completado o seminário de teologia, o famoso “Juca”, amealhou tamanha reflexão sobre as escrituras que receber dele tal conhecimento é um deleite para os ouvidos e uma benção para o coração.

Discordando ao concordar, fomos do livro de Genesis ao Apocalipse, passando pelo Velho Testamento, perambulando pela história de Israel e dos povos gentis, e terminando na Cruz de Cristo. A pergunta que rodeou nossa conversa é a mais fundamental, e curiosamente a mais esquecida de todas dentre os círculos daqueles que hoje se denominam “cristãos”: “qual o sentido da morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo?”

Séculos de filosofia escolástica, rodearam estas questões, até que Nietzche, Freud e Darwin embalados pela revolução cientifica iniciada por René Descartes, entraram na conversa para cravar a aposta de Pascal como meio termo entre fé e razão. Nem tanto para lá, ou para cá, a questão está resolvida, justamente por ser ela indissolúvel em termos da filosofia metafisica, e mesmo da filosofia da história, que dirá da roleta russa lançada pela teologia moderna.

Belluzzo, por outro lado, me lançou uma indagação daquelas de arregalar mais que os olhos, perturbando os neurônios até que as palavras se reúnam num discurso minimamente coerente: como analisar a história das religiões, tal como empreendeu Weber, sem lançar mão da dialética histórica. Cheguei à conclusão que o método Weberiano, embora assertivo em seus termos finais, sofre de um problema gravíssimo: fechar a “gaiola da modernidade” na qual a liberdade e o sentido da vida mutilam-se mutuamente através do mero estreitamento gradual entre as dimensões materiais e culturais/religiosas da vida moderna. Ao falarmos sobre Habermas, auxiliados pelo artigo de Seyla Benhabib “Habermas’s new Phenomenology of Spirit: Two centuries after Hegel”, verificamos na intenção do último dos moicanos da Teoria Crítica, uma janela teórica fundamental: a abertura da gaiola Weberiana a partir da incorporação do Espírito da História hegeliano que oferece como fio condutor da modernidade rumo às ruínas, um sútil vórtice, percebido e avançado por Marx: são as categorias universais que em movimento de transformação conduzem e remodelam as categorias particulares. Logo, são as conquistas modernas de liberdade, igualdade, identidade e razão que se transformam em atores da contenda entre a manutenção da tradição e o atropelo do secularismo.

Unindo os diálogos, deixo pimentas espalhados pelos séculos de história para cozinhar o caldo dos leitores: É possível traçar uma linha condutora entre a Cruz e os eventos contemporâneos, dos quais destaco, a concentração da riqueza, o narcisismo individualista, a revolução tecnológica e, especialmente, a união entre fé e razão?

O relato da estruturação entre o espiritual e o social, oferece uma ligação fundamental com o ato da ressureição. O Sumo Sacerdote deveria entrar uma vez ao ano nas tendas em que estavam separados, homens, mulheres e crianças para então entregar a mensagem divina. As tendas separadas pelo véu, só poderiam ser rompidas pelo Sumo Sacerdote, amarrado por uma corda na cintura. Caso estivesse em pecado, ao entrar na tenda, o pecado recebia seu salário, abocanhando o Sacerdote para a morte. Caso contrário, o véu era rompido e a presença do Espírito Santo se manifestava enquanto a mensagem divina era repassada para o povo. A separação entre o espiritual e o social, tinha uma clara demarcação: o véu que cobria as tendas, não apenas representava a intermediação entre Deus e os Seres Humanos através do Sumo Sacerdote, mas profetizavam o fino corte realizado na Cruz.

Ao ser pregado na Cruz, Jesus, Deus-Filho, Deus-Homem, encarnou o perdão da humanidade, redimindo pelo sangue derramado todos os pecados do fruto do Éden até os mais imperceptíveis e inescapáveis desvios do caminho da salvação, somente redimidos pela graça de Deus, diria o Apostolo aos Romanos. Descendo ao Inferno, Jesus rasga o véu que separa o Homem de Deus, abrindo as portas para a descida do Espírito Santo no dia de Pentecoste. Ao rasgar o Véu, Cristo oferece a humanidade, as duas grandes marcas do mundo posterior a sua ressurreição: a liberdade, conferida pelo amor ao próximo e a Deus sobre todas as coisas; e a igualdade, pois todos somos redimidos por Cristo na Cruz, sob a graça do amor á Deus, condição única e irrestrita para a salvação.

Não por menos, quando a Ordem Revelada é absorvida pela Instituição da Igreja e o espalhamento e comunhão das religiões, a razão cede lugar à prisão da tradição político-religiosa. Precisamente, na modernidade, inaugurada com o rolamento da cabeça dos Reis, a liberdade e a igualdade retornam como promessas à humanidade, sob nova feição: como autoproclamação individual, desconectada de sua raiz espiritual e vendida como símbolo da conquista material. Aqui encontramos o ponto de contato. Da Cruz à Hegel, deste à Weber, de Weber à Habermas: a profecia de João no Livro de Apocalipse, hoje se encontra tão viva quanto os passeios do espírito da história. A adoração do próprio homem pelo próprio homem marcado pelo cifrão monetário conduz da Cruz ao estalido da trombeta pelo Arcanjo, a liberdade e a igualdade oferecida por Cristo, modificada pelo Narcisismo dos homens, entregam um destino múltiplo e desconhecido, embora com data marcada nos mil anos, transcorridos em um dia para Deus. A Gaiola Weberiana não se encontra, portanto, estreitada até esmagar os ossos da razão e da liberdade, mas se expande até não encontrar horizonte visível, pois, disse o profeta entregando a mensagem de Deus aos homens: Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo (Apocalipse, 3:20).

Adianto que esse texto é uma especulação nascida do ato da dúvida. Longe de mim, empurrar crenças aos corações dos leitores. Mas, neste novo ano, deixo como mensagem o que de Cristo recebi: o amor.


[1] Pós Graduando em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Unicamp

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

1 Comentário

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Antonio Uchoa Neto

- 2022-01-05 11:06:59

“É possível traçar uma linha condutora entre a Cruz e os eventos contemporâneos, dos quais destaco, a concentração da riqueza, o narcisismo individualista, a revolução tecnológica e, especialmente, a união entre fé e razão?” Prezado Nathan, a Cruz representa a linha condutora entre a vida, a morte, e a ressurreição; sendo esta última a pedra angular do Cristianismo. Para os gregos, que dispensavam o emprego ostensivo de símbolos, e buscavam diretamente na natureza o sobrenatural, a preocupação filosófica era com a imortalidade da alma. De uma forma simplista, e considerando a preponderância dessas duas cosmovisões na cultura ocidental, pode-se dizer que ressurreição e imortalidade da alma eram as duas faces da mesma moeda: o inconformismo com a morte. Todos nós, creio eu, na infância, nos deixamos encantar (no sentido de nos enganar) com as histórias sobre os riquíssimos faraós do Egito antigo, que se faziam enterrar junto com seus fabulosos tesouros. Ora, sendo o tesouro físico a própria riqueza e seu símbolo - ao contrário do nosso mundo capitalista, onde a riqueza é fruto da exploração do trabalho humano, e o valor produzido é representado por dinheiro, outrora um metal, depois um papel, e, hoje, um sinal eletrônico - pode-se sem dificuldade enxergar que essas histórias não faziam nenhum sentido. Como se sabe, quando o europeu descobriu o acesso às pirâmides, lá foram encontrados muito pouco, ou quase nada, desses fabulosos tesouros, o que foi explicado com outra lenda popular, de que os monumentos já haviam sido, ao longo dos séculos, saqueados. Verdade ou mentira, uma coisa foi, de fato, encontrada nas câmaras mortuárias: pequenas estatuetas de madeira, representando a criadagem dos defuntos lá enterrados. Isso faz muito sentido; de fato, só a crença numa vida que prosseguiria lá, no outro lado do mistério, poderia carregar consigo uma necessidade de ordem tão prática - possuir servos, para que nem lá, na outra vida, um faraó, ou ricaço qualquer, não tivesse que despender esforços para as trivialidades do corpo, vestuário, alimentação, enfim, as vulgaridades do dia-a-dia. Para quem não é faraó, ou ricaço, as estatuetas de madeira nada significam; mas, os tesouros fabulosos... Tenho para mim que, à medida que a convicção da imortalidade, ou, mais precisamente, da ressurreição, entre os cristãos, ia perdendo força - lembremos que Paulo, em uma de suas epístolas, tratando da ressurreição, afirmou que aquela geração de que ele próprio fazia parte não passaria antes que aquelas coisas acontecessem, ou seja, gente subindo aos céus, e que, na alta Idade Média, diversos textos ainda começavam com a alocução ‘Ao aproximar-se a noite do mundo...’ ou algo semelhante - a convicção de que haveria um único sucedâneo para esta “Pavorosa Ilusão da Eternidade”, na expressão de Bocage, começava a tomar corpo e ocupar a mente do homem: a Posteridade. E esta trouxe consigo, o fator inicial, preponderante, dentre aqueles citados por Nathan Caixeta: a concentração da riqueza Quando Shakespeare - que não era nobre nem tinha posses - saiu de Stratford-on-Avon, seu objetivo era ganhar dinheiro para comprar a casa onde seus pais haviam morado; alcançado o montante necessário, por volta de 1606, ele retornou à terra natal, comprou o imóvel de volta, e lá viveu os últimos dez anos de sua vida. Entre uma coisa e outra, escreveu as 37 peças que o tornaram o maior vulto da Literatura ocidental. Que idéia possuía ele de Posteridade? Mas um nobre da alta Idade Média, um faraó de seu tempo, já convencido de que nem a alma é imortal, nem seu corpo ressuscitará, pode muito bem ter deixado de lado essas idéias antiquadas em favor de algo bem mais concreto e real: a sua Descendência. Eis o verdadeiro sucedâneo da imortalidade: a Posteridade, através de sua descendência; é neles, nos meus filhos, que me tornarei imortal; para eles preciso deixar não idéias tolas de outro mundo, mas sim recursos, riqueza, para que ocupem lugar elevado no mundo, fazendo com que Eu, na verdade, possua esses recursos, essa riqueza, e ocupe esse lugar elevado. Não sei se há linha condutora entre a Cruz e a concentração de riqueza (de que, em minha visão, decorrem os demais fatores citados, o narcisismo individualista, com sua vaidade desmedida, a revolução tecnológica que é a expressão social e política do poder dos indivíduos concentradores de riqueza, cuja única evolução possível para sobreviver é o aumento de poder. Não vejo união possível entre Fé e Razão; a primeira, para se impor, tem que submeter, em maior ou menor grau, a segunda, de que resulta a supressão desta; e esta é, pura e simplesmente, a negação da primeira. Só há dialética possível quando ambos os fatores não se excluem mutuamente. Em algum lugar do mundo, em algum momento, alguém julgou-se, possivelmente sem ser obrigado a isso, dono, ou proprietário de alguma coisa, que não podia compartilhar com ninguém. O fato de que outros, seus semelhantes e próximos, também necessitavam, dessa ‘alguma coisa’, não o fez retroceder. A partir desse momento, a roda do mundo entrou em movimento. PS - Só mesmo o GGN para abrir espaço para esse tipo de texto. Contribuo com as minhas especulações não acadêmicas. E espero que esse post tenha dezenas de comentários. Aspiro, mais que espero.

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