Sugerido por Vânia
Do Diário do Centro do Mundo
A aprovação da Lei da Maconha, no Uruguai, pode ser o começo do fim da guerra às drogas
por Luiz Fernando Tófoli
Hoje é um dia que será ser lembrado, no futuro, pelos historiadores. É a data em que o Uruguai de Pepe Mujica poderá se tornar o primeiro país, desde o início da proibição mundial do comércio das plantas psicoativas do gênero cannabis, há oito décadas, a legalizar completamente o ciclo da produção, venda e consumo da maconha para uso recreativo.
Para alguns, esse dia será recordado como uma iniciativa fracassada que irá causar impacto negativo na saúde mental e na criminalidade. Essas pessoas tendem a acreditar que os problemas relacionados ao uso de drogas serão resolvidos exclusivamente com a polícia e as ações de repressão, temerosos do que as drogas são capazes de fazer com a sociedade. Esse medo gera o tabu de que a questão não possa nem ao menos ser discutida e, na eventualidade de que surjam pessoas que proponham alternativas ao atual modelo criminalizante, elas são olhadas com desconfiança, tendo seus pensamentos interpretados como simples apologia.
Entre os que se lançaram à corajosa iniciativa de transformar o modelo pautado na chamada ‘Guerra às Drogas’ estão o presidente uruguaio José Mujica e o sociólogo Julio Calzada, secretário-geral da Junta Nacional de Drogas do Uruguai.
Calzada tem sido o responsável pelo processo de regulamentação do mercado da maconha no Uruguai. Regulamentação? Mas o que vai acontecer no Uruguai não é justamente a “liberação” da maconha? Não.
A proposta uruguaia é de regulamentar por meio da legalização e do controle estatal, um mercado cujos grandes mecanismos organizadores são as decisões de traficantes e a corrupção policial. É mais ou menos o que ocorre com o tabaco e o álcool.
Calzada é uma das pessoas que compartilham do pensamento de que as penalidades contra a posse de uma droga não podem ser mais danosas para o indivíduo e a sociedade – incluindo aí os que não usam drogas – do que o próprio uso da substância. Em uma recente visita a Brasília, ele afirmou que não defende que a maconha seja inofensiva, mas afirma que o processo de legalização do consumo e a regulamentação da comercialização permitirão que se controle um mercado que hoje está nas mãos de criminosos. Os gestores uruguaios esperam regulamentar toda a cadeia produtiva, com controle de qualidade, fornecimento e acesso ao produto.
Espera-se que este processo seja permeado de educação e informação e que a estrutura de atenção aos usuários de drogas do Uruguai seja ampliada e qualificada. No Brasil, conseguiu-se reduzir drasticamente os problemas relacionados ao consumo do tabaco com política semelhante. Todavia, houve investimento maciço em informação e campanhas educativas. Isso remete ao que disse, em uma recente entrevista, o psiquiatra e epidemiologista britânico Robin Murray sobre o controle dos riscos médicos associados à maconha: “A educação é mais importante do que a lei”.
As previsões de cunho apocalíptico – entre elas, a invasão de maconha uruguaia no sul do Brasil, uma epidemia de esquizofrenia e a degradação geral da sociedade uruguaia – são oriundas do oportunismo político e sensacionalista. Esse medo é criado pelo bombardeio de noticiários repetindo que a violência gerada pelo combate às drogas é justificável a todo custo, ainda que agrave o encarceramento em massa de pessoas, a concentração do poder econômico nas mãos dos traficantes, e, o que é mais relevante, sem conseguir diminuir os problemas associados ao uso de drogas.
A saída da maconha — a droga ilegal mais usada no mundo, cujo uso pessoal já foi descriminalizado no Uruguai há muitos anos – do ciclo do tráfico nos convida à esperança de que o 10 de dezembro de 2013 possa ser lembrado na história como o dia em que a Guerra às Drogas começou a terminar.
alexis
12 de dezembro de 2013 10:40 amNa Guerra e também na Paz
Considerando que a enorme proporção dos presidiários no Brasil corresponde a delitos derivados do trafego de drogas (e isso pode ser similar no Uruguai ou em outros países), sem dúvida é uma medida que tende a melhorar o controle e o combate em relação a este assunto.
Mas, no caso particular de Uruguai, pela falta de base industrial e matérias primas, este país é obrigado a procurar outras maneiras de incrementar o seu PIB mediante a oferta de turismo “alternativo”, seja com Cassinos, paraíso financeiro e, recentemente, via casamento Gay ou liberação da maconha.
Roberto Locatelli
12 de dezembro de 2013 10:45 amA hipocrisia tem que acabar
– álcool é a droga mais pesada de todas. Causa mortes, arruina famílias e destroi lares. E é legalizado.
– cigarro é droga pesadísima. Causa forte dependência e produz câncer, matando milhões de pessoas todos os anos. E é legalizado.
– café é droga psicoativa. Trata-se de um alcaloide, assim como o LSD. Cafeína produz agitação e ansiedade, agindo diretamente no cérebro. E o café é legalizado.
– açúcar é droga pesada. Em alfarrábios antigos de medicina é citado como antidepressivo. Mas nessas citações sempre se encontra o alerta de que causa forte dependência. E o açúcar, pasmem, é legalizado!!
– chá preto é citado, também, na medicina antiga. É uma droga, podendo causar dependência química. E é legalizado.
Aí vem aquele moralista, com o copo de uísque na mão, dizer que as drogas têm que continuar proibidas…
alexis
12 de dezembro de 2013 11:01 amDo ponto de vista fiscal
É verdade Roberto,
A diferença principal é que o vendedor de álcool paga impostos e é chamado de comerciante. Já o vendedor de drogas não paga impostos e é chamado de “traficante”.
Daniel Krein
12 de dezembro de 2013 12:38 pmálcool
Usado há mais de sete
álcool
Usado há mais de sete mil anos. Segundo o escritor e médico Pedro Nava, álcool álcool não é usado por pessoas doentes e por imbecis.
cigarro
Droga pra lá de ruim. Parei de fumar em 1980.
café
Qualé, rapaz, tá querendo boicotar a ecnomia mineira?
açucar
Não uso desde 1970. Esgoto minha cota de cana em boa cachaça.
Sílvia shgg
12 de dezembro de 2013 12:48 pmConcordo, Locatelli. Apenas
Concordo, Locatelli. Apenas gostaria de lembrar que o café e o chá preto são plantas, o que os torna muito diferentes de droga. As plantas, quando bem utilizadas e na quantidade certa, são muito úteis para a humanidade.
Aline C Pavia
12 de dezembro de 2013 10:48 amExistem correntes de
Existem correntes de pesquisadores defendendo que a maconha é menos nociva do que o próprio cigarro (tabaco), uma vez que o cigarro hoje é uma bomba química com mais de 2500 substâncias, as quais desencadeiam uma série de problemas de saúde, tanto para quem fuma quanto para as outras pessoas em redor (o chamado fumante passivo).
Já vi artigos na internet defendendo que, pela própria forma de uso da maconha – recreativa e social – e também pelo fato de que o usuário normalmente fuma muito menos maconha do que cigarro – poucos cigarros por dia, com uso esporádico e não constante – isso caracterizaria a maconha uma droga com perfil muito mais semelhante às bebidas alcoólicas do que à cocaína e ao crack.
E também já vi alguns artigos dando conta de que a maconha não causa o mesmo grau de dependência química que o próprio cigarro e as outras ilícitas. E ao que eu saiba não é possível o usuário morrer de overdose de maconha. Muito embora também se perceba que boa parte dos efeitos danosos da maconha estão relacionados às substâncias adicionadas para sua conservação (formol, soda, amoníaco, hipoclorito etc)
Outro dia no UOL tinha uma crônica divertida reclamando que em breve teremos os “ervochatos” (os sommeliers de maconha), mas defendendo que tenhamos uma certificação para maconha orgânica e livre de transgênicos (risos).
drigoeira
12 de dezembro de 2013 11:04 amGovernar é isto aí…
Sou contra a liberação do uso da maconha.
Mas Governar é ter a CORAGEM de tomar atitudes que tem o objetivo de resolver problemas crônicos na população.
Hildermes José Medeiros
12 de dezembro de 2013 11:09 amNão sou especialista nesse
Não sou especialista nesse assunto de alucinóginos, mas desconfio de que não seja nada disso. Em primeiro lugar, não se aborda os malefícios que o uso da maconha possa causar. Os males que causa, se é que causam, são despresíveis frente os problemas que cria, a ilegalidade que induz ao tráfico e à corrupção dos envolvidos nesse comércio? Não vejo como aqueles que realmente sejam viciados, grandes consumidores, inclusive menores de idade vão obter as quantidades que desejam, submetendo-se tão somente às doses certamente pequenas garantidas pelo governo uruguaio. As dificuldades de controle governamenteal aumentarão, se efetivamente desejam controlar o uso da maconha. O tráico continuará e o consumo aumentará. Contribuirá com isso a permissão de plantio doméstico, mesmo com a pequena população do Uruguai, se metade plantar pés de maconha em casa, mais de vinte milhões de pés estarão disponíveis, que parece não ser desprezível, podendo constituir-se em fonte de renda de muitos não consumidores, principalmente os mais pobres. Há exemplos internacionais de que esse tipo de controle não funciona não acaba com o tráfico. O dia será histórico, mas no sentido inverso: será o início da percepção de que não funciona. Esse é um problema quase insolúvel. A humanidade sempre usou drogas. Sempre existiu e existirão seres que desejam fugir da realidade, largando seu próprio controle aos efeitos de drogas.
Sérgio T.
12 de dezembro de 2013 2:49 pmNão
As políticas de descriminalização das drogas tem funcionado em diversos países. O senhor está mal informado…
Em tempo, maconha não é um “alucinógeno”!
Um abraço.
DanielQuireza
12 de dezembro de 2013 12:27 pmEu acho que a excessiva
Eu acho que a excessiva regulamentação que impuseram não dará certo. Será muito complicado de fiscalizar.
Quanto a questão de diminuir violência, o futuro dirá. Mas creio eu que os piores tipo de drogas, de tráfico, sejam o crack e a cocaína.
Sílvia shgg
12 de dezembro de 2013 12:44 pmMaconha não é droga
Gostaria de lembrar que a maconha é uma planta, não uma droga, pois seu princípio ativo é parte de toda uma estrutura biológica. Também gostaria de lembrar que toda substância que se ingere tem efeitos nocivos ao organismo, até o leite, que pode causar algumas doenças, dependendo da quantidade ingerida e do organismo da pessoa.
Finalmente, essa planta tem muitos poderes curativos comprovados.
sergioss
12 de dezembro de 2013 12:58 pmUruguai anos luz na frente do
Uruguai anos luz na frente do Brasil. Nossa hipocrisia moralista é algo assustador.
aliancaliberal
12 de dezembro de 2013 1:13 pmPq só a maconha, se é para
Pq só a maconha, se é para liberar que seja tudo não apenas a maconha, agora o estado vai controlar o grau de entorpecência do individuo.
marcelo
12 de dezembro de 2013 1:40 pmSim. Espero que este seja o
Sim. Espero que este seja o primeiro passo para a legalização de TODAS as drogas. Afinal, a lógica é a mesma. A proibição de uma droga sempre causará muito mais mal do que a droga em si.
Flavio Martinho
12 de dezembro de 2013 4:38 pmEssa crença de que policia
Essa crença de que policia resolve tudo deve ter sido a mesma que levou a criação da Lei Seca nos USA. Além dessa crença, há o interesse de quem muita grana com o tráfico como poucos traficantes, policia, autoridades de todos os niveis e poderes, etc. O medo da fonte secar induz a que a sociedade fique refem do tráfico.
André LB
12 de dezembro de 2013 7:09 pmDeixando de lado a questão
Deixando de lado a questão da hipocrisia por um momento, ninguém pensa que deva haver um limite?
Nossa sociedade como um todo – e não só o governo – é leniente com o consumo de álcool por jovens, por exemplo. Deixando a maconha de lado por um momento, imaginem uma AMBEV glamourizando (por meio de doses cavalares de propaganda) o uso de cocaína, que o rapaz (a idade fica por conta da imaginação de cada um) vai pegar mulher até cansar se der aquela cheiradinha básica antes da balada, ou der uma elegante pitada no crack enquanto está na praia.
Desculpem, mas acredito que às vezes é preciso parecer “careta”, sem medo.
Frederico69
12 de dezembro de 2013 9:14 pmeu acho que não vai ter propaganda de maconha
embora tenhamos propaganda para consumir alcool e tomar uns tarjas preta!!
mas para a cocaína especificamente eu prefiro o bordão que nos acompanha desde a infância:
se é bayer é da boa!!
Frederico69
12 de dezembro de 2013 9:19 pmvamos acompanhar
acho que o maior efeito desta lei vai ser observada no aumento da taxa de evasão da usp!!
marco antonio costa
30 de julho de 2014 2:25 amO autor do texto disse
O autor do texto disse :”Espera-se que este processo seja permeado de educação e informação e que a estrutura de atenção aos usuários de drogas do Uruguai seja ampliada e qualificada.” O que não entendo porque é necessario haver obrigatoriamente legalização para que exista maior oferta de educação e informação para coibir consumo. Não mesmo ! A experiência mostra que há diversos paises que conseguiram diminuir o consumo sem legalizar a maconha. Outro ponto que convém salientar segundo está frase é que este “espera-se” trasmite a esperança até certo ponto ingênua .
marco antonio costa
30 de julho de 2014 2:25 amO autor do texto disse
O autor do texto disse :”Espera-se que este processo seja permeado de educação e informação e que a estrutura de atenção aos usuários de drogas do Uruguai seja ampliada e qualificada.” O que não entendo porque é necessario haver obrigatoriamente legalização para que exista maior oferta de educação e informação para coibir consumo. Não mesmo ! A experiência mostra que há diversos paises que conseguiram diminuir o consumo sem legalizar a maconha. Outro ponto que convém salientar segundo está frase é que este “espera-se” trasmite a esperança até certo ponto ingênua .