10 de junho de 2026

Brasil articula proposta para incluir feminicídio na Classificação Internacional de Doenças da OMS

Atualmente, os casos aparecem apenas como “homicídio”, “agressão” ou “causa externa”, sem identificação da motivação de gênero
Feminicídio Zero - por Tânia Rêgo - Agência Brasil

Pesquisadoras brasileiras propõem à OMS incluir feminicídio na CID para melhor registro e políticas públicas.
Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025; governo lançou pacto nacional contra o feminicídio.
Projeto prevê categoria “Violência contra a Mulher” na CID-11 para integrar dados e prevenir mortes.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Um grupo de pesquisadoras e gestores públicos brasileiros prepara uma proposta inédita a ser encaminhada à Organização Mundial da Saúde (OMS): a inclusão do feminicídio na Classificação Internacional de Doenças (CID), sistema adotado globalmente para registrar causas de adoecimento e morte.

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A iniciativa, que conta com apoio do Ministério da Saúde, busca enfrentar a invisibilidade estatística dessas mortes no campo da saúde pública. Atualmente, os casos aparecem apenas como “homicídio”, “agressão” ou “causa externa”, sem identificação da motivação de gênero. A criação de um código específico permitiria estruturar políticas permanentes de vigilância, prevenção e intervenção, nos moldes de outras emergências sanitárias.

Em 2025, o Brasil registrou recorde de feminicídios. Diante do cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou, no último dia 4, o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, em articulação com os Poderes Legislativo e Judiciário. Os detalhes operacionais da iniciativa, porém, ainda não foram divulgados.

Segundo a médica epidemiologista Fátima Marinho, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma das colaboradoras do projeto, a proposta prevê a criação da categoria “Violência contra a Mulher” na próxima atualização da CID-11, incluindo o feminicídio como subcategoria.

Mais do que uma mudança de nomenclatura, a medida pretende viabilizar uma vigilância contínua do fenômeno, integrando dados da saúde, segurança pública, Justiça e assistência social. “Sem vigilância, não é possível alimentar sistemas de informação nem planejar ações preventivas”, afirma Marinho.

O tema já vem sendo debatido com organismos internacionais como OMS, ONU Mulheres e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). Para a pesquisadora, o feminicídio deve ser tratado como um crime de ódio marcado por gênero, que exige análise mais complexa do que a aplicada aos homicídios em geral.

Para sustentar a proposta, Marinho desenvolveu um marco conceitual e uma matriz de decisão baseada em evidências, com cinco níveis de classificação, que vão de “feminicídio com 100% de certeza” até “não foi feminicídio”. Inspirado na lógica epidemiológica utilizada em doenças infecciosas, o modelo trabalha com probabilidades, permitindo que casos suspeitos também sejam monitorados.

Estudos conduzidos pela pesquisadora apontam que a dependência exclusiva de registros criminais pode distorcer o retrato do problema. No Rio Grande do Norte, por exemplo, apenas mortes de mulheres que tinham medida protetiva vigente entram na estatística oficial de feminicídio. O critério tende a invisibilizar mulheres negras e de baixa renda, que acessam mais os serviços de saúde do que o sistema de Justiça.

A matriz está sendo testada em municípios como Goiânia, Recife e Rio de Janeiro, além dos estados de Goiás e Rio Grande do Norte. Em Goiânia, um comitê foi criado para cruzar dados da saúde e da segurança pública com o objetivo de mapear a violência contra a mulher.

A integração já revelou padrões preocupantes: mulheres que sofreram agressões físicas e precisaram de internação hospitalar podem ser assassinadas entre três e 32 dias após o registro da violência. Em um dos casos analisados, uma mulher notificada por suspeita de violência morreu dois dias depois. A causa da morte foi inicialmente registrada como acidente de transporte não especificado, mas investigação posterior apontou que o companheiro a havia jogado de um caminhão.

Na capital goiana, a Patrulha Mulher Mais Segura, da Guarda Civil Metropolitana, acompanha cerca de 13 mil mulheres com medidas protetivas. Para a comandante Luiza Sol, responsável pela patrulha, a integração de informações é essencial para evidenciar que o feminicídio costuma ser o desfecho de um ciclo de violência. “Hoje, quando uma mulher é morta, isso aparece nos sistemas de saúde só como homicídio ou agressão, escondendo a motivação de gênero”, afirma.

Pesquisadores da Fiocruz Minas também defendem a articulação entre bases de dados. A socióloga Paula Bevilacqua, que coordena grupo de pesquisa sobre violência, gênero e saúde, destaca que muitas vítimas de feminicídio passaram repetidas vezes por unidades básicas, ambulatórios e hospitais antes de morrer.

“Elas aparecem no Sistema de Notificação de Violência, em atendimentos ambulatoriais, com sinais claros de agressão. A saúde perde oportunidades de identificar o risco e acionar a rede de proteção”, afirma. Segundo ela, a fragmentação das informações dificulta respostas coordenadas.

Para as pesquisadoras, reconhecer o feminicídio como questão de saúde pública é fundamental para romper o ciclo de violência. Estudos associam a violência de gênero ao adoecimento crônico, sofrimento mental e morte, com impacto desproporcional sobre mulheres negras, pobres, periféricas, indígenas e trans.

“Não é um fenômeno distribuído igualmente. Há marcas de racismo, desigualdade social e controle territorial”, diz Bevilacqua. A criação de um código específico na CID, segundo ela, daria visibilidade ao problema e sustentaria políticas de prevenção, formação profissional e atuação intersetorial.

O grupo trabalha para enviar a proposta à OMS até o fim de fevereiro. A expectativa é que a estratégia possa se tornar um bem público internacional, incorporando inclusive ferramentas de inteligência artificial para identificar padrões de risco a partir de dados da atenção primária, secundária e hospitalar.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que avalia a proposta para aprimorar o registro de casos de feminicídio nos sistemas de informação em saúde, incluindo a possibilidade de incorporação do modelo à CID. Segundo a pasta, a análise ainda está em fase inicial e envolve estudos de viabilidade operacional, metodológica e normativa, além de diálogo com especialistas e entes federativos.

*Com informações da Folha.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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