Quase dois anos após as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, centenas de pessoas ainda carregam as marcas emocionais do trauma. Para atender essa população, o Hospital Moinhos de Vento lançou o projeto Recomeçar, uma iniciativa financiada pelo Proadi-SUS que se propõe a identificar, avaliar e tratar os impactos psicológicos das inundações de 2024 em moradores com 16 anos ou mais.
Desde o início do programa, neste ano, cerca de 500 pessoas já foram mapeadas. A meta é alcançar 10 mil potenciais pacientes até o fim de 2026, por meio de visitas a municípios gaúchos, divulgação nas mídias e nas redes sociais. Dos já identificados, ao menos 20%, em torno de 100 pessoas, iniciaram o tratamento. Os primeiros dados são promissores: os pacientes em acompanhamento já apresentam redução significativa dos sintomas.
O processo é dividido em três etapas. A primeira é uma pré-triagem online, por formulário de interesse. Em seguida, os candidatos passam por uma triagem clínica para avaliação de sintomas de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. Os que se qualificam ingressam então em um programa multidisciplinar de apoio psicológico.
O protocolo adotado é o Enfrentando Problemas (EP+), desenvolvido pela Organização Pan-Americana da Saúde. São sete sessões remotas, formato escolhido para ampliar o alcance geográfico, baseadas em princípios da terapia cognitivo-comportamental. Os encontros ensinam técnicas de relaxamento, resolução de problemas e construção de vínculos sociais.
“Questões que para a maior parte da população podem ser simples de resolver se tornam desafiadoras para quem está emocionalmente mais abalado”, explica Christian Kieling, diretor da Unidade de Pesquisa em Saúde Mental do Hospital Moinhos de Vento e professor de psiquiatria da UFRGS. Ele ressalta que pessoas em sofrimento psíquico tendem ao isolamento, o que agrava o quadro, daí a importância de trabalhar ativamente o reestabelecimento de relações sociais.
A persistência dos sintomas chama atenção. Mesmo passados dois anos, muitos afetados ainda não retornaram às suas casas ou perderam o emprego e precisam reconstruir a vida profissional. A situação foi agravada por novas inundações no estado em 2025, ainda que em menor escala.
Kieling também aponta uma dimensão menos discutida: a ansiedade climática. Embora não seja classificada como transtorno mental, a condição envolve sofrimento persistente ligado ao medo de novos desastres ambientais. Uma notícia sobre inundações do outro lado do mundo pode ser suficiente para reavivar o trauma em quem viveu as enchentes gaúchas.
Para Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, o Recomeçar vai além do atendimento individual. A intenção é construir um modelo replicável de resposta psicológica a desastres climáticos, capaz de embasar políticas públicas e preparar o sistema de saúde brasileiro para eventos extremos futuros.
*Com informações da Folha.
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