Publicado às 11:30 e atualizado às 12:30 para acréscimo de informações
A Polícia Civil de São Paulo concluiu inquérito que investigava a Prevent Senior por recomendar o chamado “kit Covid”, com medicamentos sem eficácia comprovada, a pacientes infectados. O relatório da Polícia Civil sai em defesa da operadora de saúde e afirma que não houve crime.
“Na visão deste delegado de polícia, não foram encontrados elementos informativos caracterizadores de ilícito penal praticados pelos funcionários da operadora de saúde, nem por médicos, nem ex-funcionários desta denunciados por violação do dever funcional”, concluiu o documento.
O pedido de investigação partiu do Ministério Público de São Paulo. O órgão, por sua vez, já afirmou que se surpreendeu com as conclusões da Polícia Civil e que o relatório não irá interferir na investigação que continua no MP-SP, faltando ainda a realização de diligências e outras coletas de provas.
Contudo, a Polícia Civil já trouxe suas conclusões e enterrou o inquérito que levanta irregularidades sobre a operadora de saúde que recomendou medicamentos sem indicação e eficácia contra a Covid-19, como a hidroxicloroquina.
Para produzir o relatório, assinado pela delegada Lisandrea Zonzini Colabuono, a polícia de São Paulo ouviu funcionários do hospital, entre eles médicos e prestadores de serviços. Mas em suas conclusões, o documento leva em conta somente as considerações de diretores da Prevent Senior e dos advogados da empresa, assim como de perícias particulares realizadas pela investigada.
Funcionários contagiados obrigados a trabalhar
Na apuração do Ministério Público, há a denúncia de uma médica que trabalhava na Prevent Senior, afirmando que foi obrigada pela empresa a usar a cloroquina em seus pacientes com Covid-19, com ameaças de retaliação por parte do grupo e a restrição de equipamentos de proteção individual aos funcionários, como as máscaras.
Em decorrência de tais medidas, sem uso de máscara, um auxiliar de enfermagem, André Araújo Cruz, foi contagiado e faleceu. A denunciante também relatou que contaminados por Covid-19 eram obrigados a se manter trabalhando. Para comprovar as denúncias, essa médica que não quis se identificar apresentou a cópia de conversas com funcionários da Prevent Senior e documentos e protocolos estabelecidos pela empresa.
Os investigadores ouviram a viúva do enfermeiro que faleceu, Sueli Mathias. Em seu depoimento escrito pela autoridade policial, ela mostra não ter conhecimentos do que ocorria dentro da Prevent Senior.
Sueli disse que não sabia da falta de recomendação do uso de máscaras pela empresa, que tampouco conhecia o protocolo de tratamento da empresa e disse que seu esposo se afastou do trabalho após ser diagnosticado com a doença.
A empresa, por sua vez, alegou às autoridades policiais que contratou 6 hoteis para hospedar funcionários da Prevent Senior que estivessem contagiados. Entretanto, em seu depoimento, explicitou que seria uma decisão opcional o afastamento do funcionário: “especialmente destinados para os servidores da linha de frente, caso quisessem evitar expor a família a qualquer risco”.
Pressionados a usar o Kit Covid
Sem trazer muitos detalhes sobre as acusações da obrigação, por parte da empresa, de que os funcionários usassem o Kit Covid nos pacientes, também foi consultado o diretor executivo da Prevent Senior, Pedro Batista Junior.
O relatório da Polícia Civil se retringe a narrar que: “Em síntese, negou todas as acusações, apresentando explicações para a utilização das medicações previstas no denominado Kit Covid, determinação para que os médicos continuassem trabalhando, preenchimento de atestado de óbito, utilização de EPI’s e diversos outros assuntos.”
Nas apurações feitas especificamente pela Polícia Civil de São Paulo, além de juntar as respostas da Prevent Senior, os delegados ouviram diretores clínicos, coordenadores e consultores da própria empresa, e médicos da Prevent Senior que denunciaram as práticas da empresa.
Mortes causadas por Covid-19
Mas, para a apuração das denúncias, o inquérito da Polícia Civil desconsiderou as declarações de tais médicos e analisou somente laudos periciais e argumentos dos advogados da empresa, que alegam que as mortes foram causadas por Covid-19, mas não pelo tratamento com o Kit Covid.
“Prontuários médicos das vítimas descrevem que a causa mortis seria COVID-19, mas não é possível relacionar este resultado ao tratamento aplicado, não havendo, portanto, qualquer nexo de casualida”, indica um dos trechos.
“A empresa [Prevent Senior] juntou aos autos laudos periciais particulares, nos quais conclui-se que foram aplicadas todas as possibilidades médicas (…). Os peritos esclarecem que não há evidências que o uso de determinado medicamento tenha influenciado no resultado”, relata outro.
Defesa de atuação médica em Kit Covid
Outro trecho do inquérito da Polícia Civil chega a sair em defesa do uso de medicamentos precoces, posteriormente sem comprovação científica, ainda no início da pandemia:
“Importante mencionar que os fatos aqui apurados são referentes ao início da pandemia, não havendo, assim, grandes estudos e protocolos definidos de tratamento. Trata-se de um período em que, quase diariamente, eram publicadas recomendações por parte das autoridades médicas, afetando principalmente os médicos que atuavam no front de enfretamento desta doença.”
E continua:

Fraudes em mortes por Covid-19
Diretamente sobre as acusações de fraudes em relatórios internos da Prevent Senior, ocultação de mortes e ausência de autorização do CONEP para obrigar a prescrição do Kit Covid, os delegados ouviram somente o diretor executivo da empresa, Rodrigo Esper, que negou as acusações.
Para negar a ocultação de mortes pela Prevent Senior, por exemplo, foi colocada no inquérito da Polícia Civil que a empresa chegou a fazer “eventuais alterações” no sistema interno da empresa, mas que para o Ministério da Saúde eram informados os casos positivos de Covid-19 para controle epidemiológico.

Admitindo as fraudes e omissão de mortos por Covid-19, o inquérito da Polícia Civil completa: “Ademais, o relatório também aponta que embora alguns óbitos não tivessem a menção de COVID-19 foram notificados à autoridade competente.”
Na conclusão, a Polícia Civil ainda afirma que o uso do Kit Covid -de forma precoce e não comprovada cientificamente- estavam amparado por Notas técnicas do Ministério da Saúde e do Conselho Federal de Medicina:

Leia a íntegra do inquérito da Polícia Civil:
+almeida
20 de abril de 2022 12:54 pmMuito estranha a conclusão do inquérito da Policia Civil do Estado de São Paulo após a suposta investigação que fez, sobre o caso Prevent Senior. Será que houve alguma espécie de favorecimento para a Policia Civil por tão surpreendente conclusão? A pergunta se faz necessária porque parece um deboche com a sociedade brasileira. Já é comum vermos pessoas da alta sociedade se livrarem de processos criminais por justificativas que ofendem a nossa inteligência, mas entendo que uma conclusão igual a esta que a policia Civil do Estado de São Paulo publicou, sobre a Prevent Senior, é realmente digna de ser checada e esmiuçada a fundo porque se faz muito suspeita, gostem ou não os policiais envolvidos.
O Ministério Público faz muito bem em recorrer e apurar o que aconteceu para saber se houve mais crimes cumpliciados entre as duas partes.
marcio gaúcho
20 de abril de 2022 4:57 pmEssa delegada, dra. Colabuono, fez o serviço sujo em defesa do esbulho, da barbaridade e da irresponsabilidade diante da vida humana. A honra está a cada dia mais rara nesse país chamado Brasil, onde a desonra viceja como inço, contaminando o ambiente, tornando-o nocivo e tóxico para ser viver.
CARLOS EUGENIO LISBOA DA COSTA
20 de abril de 2022 5:44 pmNo Brasil o errado é que o certo !
boecio vidal lannes
20 de abril de 2022 8:25 pmNassif acertou mais uma. Lembro perfeitamente que o escriba denunciou, em setembro de 2021, que a mídia corporativa estava fazendo uma “caçada inclemente” à Prevent Senior. “Denunciar primeiro e conferir depois é herança do sub-jornalismo que consagrou a Lava Jato”, ressaltou Nassif. A sua defesa seguia assim: “trata-se de um plano de saúde que rompeu com os preços exorbitantes do setor, especialmente em relação aos idosos, através de boa gestão da saúde”. E concluiu: “Naquele início de pandemia, a hidroxicloroquina e similares se transformaram em esperança para muitos doentes”.