Um novo estudo científico reforça a relação direta entre metabolismo, alimentação e qualidade do sono, especialmente entre pessoas com diabetes. A pesquisa, publicada na revista Frontiers in Nutrition, indica que o controle glicêmico e os padrões alimentares estão associados tanto à duração quanto à qualidade do sono, mostrando que alterações metabólicas impactam diretamente o descanso noturno.
A análise utilizou dados de 66.148 participantes do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), levantamento realizado nos Estados Unidos entre 2007 e 2020. Os resultados mostram que indivíduos com diabetes apresentam maior prevalência de dificuldade para dormir (37,74%) e de distúrbios do sono diagnosticados (9,56%).
Os índices são significativamente superiores aos observados entre pessoas com pré-diabetes, em que 30,88% com dificuldade para dormir e 5,89% com distúrbios do sono. Em comparação à população com níveis normais de glicose, que registrou 24,91% e 3,95%, respectivamente.
A pesquisa também identificou maior frequência de sono insuficiente (menos de sete horas por noite) entre pessoas com diabetes (33,59%) e pré-diabetes (31,29%), em comparação a indivíduos com glicemia normal (29,57%). O sono prolongado, acima de nove horas, que também pode indicar problemas de saúde, foi mais comum entre pessoas com diabetes (7,79%).
Segundo a neurologista Letícia Soster, do Grupo Médico Assistencial do Sono do Hospital Israelita Albert Einstein, o impacto do diabetes no sono ocorre por múltiplos mecanismos. “O diabetes não é apenas uma situação em que a glicemia está alta. Dependendo do tratamento, o paciente pode apresentar grandes oscilações glicêmicas, incluindo hipoglicemias noturnas, que causam sudorese, palpitação e despertares abruptos. Isso compromete a consolidação do sono”, explica.
Além disso, o diabetes está associado a um estado inflamatório crônico, que interfere na regulação hormonal. “Há ativação do eixo do estresse, com aumento do cortisol, que antagoniza a melatonina. Isso contribui para um sono mais fragmentado”, afirma a especialista.
O estudo também reforça que o sono inadequado é fator de risco para o desenvolvimento do diabetes tipo 2. A recomendação geral para adultos é dormir entre sete e nove horas por noite. “Menos que isso prejudica a regulação hormonal e o controle do apetite e da glicemia. Dormir mais, por outro lado, muitas vezes reflete um organismo exausto e também merece investigação”, alerta Soster.
Alimentação e sono
A pesquisa destaca o padrão alimentar como elemento central dessa relação. Dietas pobres em proteína foram associadas a piores desfechos de sono, independentemente do perfil glicêmico. O efeito está ligado ao papel dos macronutrientes, carboidratos, proteínas e gorduras, na estabilidade da glicemia.
O consumo de carboidratos complexos, como grãos integrais, tende a favorecer um sono mais saudável por contribuir para níveis mais estáveis de glicose no sangue. Já dietas ricas em carboidratos de baixa qualidade e com alta carga glicêmica ao longo do dia foram associadas a maior risco de distúrbios do sono.
As proteínas também exercem papel relevante, por fornecerem aminoácidos essenciais à produção de neurotransmissores ligados ao sono, como serotonina e melatonina. De acordo com o estudo, uma dieta com maior presença de proteínas magras, como peixes, aves e leguminosas, está associada a melhor qualidade do sono.
“Quando a dieta tem pouca proteína, ela tende a ser mais rica em carboidratos de rápida absorção, o que favorece picos de glicose. A proteína ajuda a estabilizar esses níveis. Comer 500 calorias com proteína é muito diferente de 500 calorias só de carboidrato”, explica Letícia Soster.
O levantamento também observou que dietas com menor teor de carboidratos e maior teor de gorduras se associaram a menor chance de sono curto tanto em pessoas com diabetes quanto em indivíduos com glicemia normal. Ainda assim, os autores alertam para a interpretação cautelosa dos dados.
“Trata-se de um estudo populacional, que identifica associações, e não relações de causa e efeito. Ainda assim, são dados valiosos para gerar hipóteses e orientar futuras pesquisas clínicas”, analisa a médica.
Outro dado relevante é que pessoas com diabetes submetidas a controle glicêmico mais rigoroso relataram mais dificuldade para dormir. Segundo Soster, isso pode estar relacionado à complexidade do tratamento. “Um controle mais estrito do diabetes geralmente envolve múltiplos medicamentos, eventualmente maior risco de hipoglicemia noturna temporária e o uso de fármacos que podem interferir na produção de melatonina. Não se trata apenas da hemoglobina glicada isolada, mas de um organismo inteiro submetido a um manejo mais intensivo”, explica.
Para a especialista, os resultados reforçam a necessidade de uma abordagem integrada no cuidado ao paciente com diabetes. “O sono deve ser encarado como um pilar da saúde, ao lado da alimentação, da atividade física e da saúde mental. Priorizar horários regulares para dormir e acordar, garantir tempo adequado de sono e evitar refeições muito calóricas ou estimulantes à noite são medidas simples, mas fundamentais”, conclui.
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