Como religar a esquerda: para além do complexo do umbigo, por João Feres Jr

por João Feres

1.      Programa da Mídia Ninja sobre comunicação e democracia no Brasil no contexto do golpe. Fui convidado pelo amigo Miguel do Rosário, do Cafezinho, por ser coordenador e criador do Manchetômetro, e lá debatemos com blogueiros e outras pessoas que trabalham com mídias alternativas.

2.      Dia seguinte ao segundo turno das eleições municipais no Rio de Janeiro, o mapa das votações é divulgado, revelando o que muitos temiam e que tantos outros, como eu, já pressentiam: Freixo não conseguiu quebrar o padrão do primeiro turno de ter sua votação concentrada na Zona Sul e suas adjacências. Isto é, não conseguiu penetrar os bairros mais populares da cidade.

3.      Domingo, dia 6 de novembro, participo de reunião para discutir a formação de uma frente ampla de intelectuais e ativistas progressistas com vistas a dar alguma unidade às esquerdas tanto para resistir ao golpe quanto para apoiar candidaturas viáveis nas eleições de 2018.

Uma coisa me impressionou nessas três experiências recentes, todas relacionadas com a esquerda: notei uma tremenda dificuldade dos principais agentes de conceberem ações que tivessem um alcance para além de seu próprio nicho.

Os blogueiros e midiáticos alternativos têm uma incrível fé de que a virada do jogo virá pela internet. Acertam em identificar a questão da comunicação como crucial para o atual embate político brasileiro – coisa que poucos analistas fazem mesmo nos dias de hoje, depois de tudo transcorrido. Ela sempre foi, só a esquerda que não percebeu. Lula, o campeão das eleições presidenciais, se achava invencível perante uma mídia que a seus olhos fenecia por decrepitude. Dilma, então, dispensa comentários. Dizer que o único controle da mídia que conhece é o remoto é algo de uma imbecilidade sem par. Deu no que deu.

Os alternativos, talvez por vício de posição, também não têm solução para o problema a não ser sonharem em se levantar pelo cadarço das próprias botas. Na verdade, trata-se de um grande complexo de umbigo: imaginam o cidadão à sua imagem e semelhança e não veem que uma porção imensa da sociedade brasileira recebe suas notícias do rádio, do Jornal Nacional e do WhatsApp, mas não de Facebook, Twitter ou blogs cult.

A derrota da campanha de Freixo tem a estampa do umbigo. Candidato queridinho da zona sul carioca, dos mesmos bairros onde ribombavam as panelas contra Dilma e o PT, a mensagem de Freixo não chegou ao povo, ou se chegou não convenceu. Será que os eleitores de Freixo vivem nos mesmos apartamentos dos batedores de panelas? Espero que algum survey possa deslindar esse mistério em um futuro próximo. Dizem que Freixo se gabou de não ter usado grupos focais na campanha. Seja por soberba, falso moralismo ou puro amadorismo, fato é que se tornou um exemplo clássico de esquerda em busca de povo.

Na reunião da frente de resistência ao golpe também presenciei a síndrome do umbigo. Tudo é apresentado como sendo muito horizontal, pois organizado pela internet – como se algum serviço de internet tivesse a capacidade de organizar um debate entre pessoas sem que alguém não tenha que mediar e ao final tomar as decisões importantes. Mas o problema não está aí, mas sim na vida para além da internet. Como chegar às dezenas de milhões de brasileiros que não são usuários contumazes do Facebook?

Esse é o grande problema que a esquerda brasileira, parcialmente desconectada dos movimentos sociais de base pela corrosão sofrida pelo PT e pelo posterior desenrolar do golpe: como efetuar a reconexão? Sua solução não é simples, pois a luta pelos corações e mentes dos brasileiros mais pobres é altamente competitiva e a esquerda tem aí um contendor formidável, as igrejas evangélicas.

Seu poder eleitoral foi ainda acrescido pela proibição das doações empresariais e a diminuição do período de campanha – ao diminuir o poder de influência do capital e a capacidade de comunicação direita dos partidos essas medidas contribuem para potencializar a capacidade que as igrejas têm de influenciar eleições e eleger candidatos próprios. Os partidos políticos, vilipendiados pela grande mídia, com menos caixa de campanha e horário eleitoral reduzido à metade têm dificuldade de competir, quanto mais os de esquerda.

Se há solução para a esquerda em nosso país ela passa necessariamente pela superação do complexo do umbigo e por um plano efetivo de religação com as classes populares. É preciso conceber modos de competir com as igrejas evangélicas conservadoras. Essa estratégia deve incluir alianças com setores mais progressistas entre os evangélicos e uma mudança de prioridades nas ações dos movimentos e frentes de esquerda, especialmente na área da comunicação. Não há viabilidade para a esquerda se ficarmos restritos ao circuito Elizabeth Arden da intelectualidade do eixo Butantã-Zona Sul carioca.  

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