Mais um caso de racismo em ação da PM choca com imagens que remetem à escravidão

Renato Santana
Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.
[email protected]

PMs usaram uma corda para amarrar e arrastar homem negro pelas ruas. Em 2021, um jovem negro foi arrastado por uma moto da corporação

Na captura de tela de vídeo do portal UOL, policiais carregam o homem negro em mais uma ação racista da PM

Alegando que um homem negro de 32 anos resistia à prisão, na Vila Mariana, em São Paulo, policiais militares usaram uma corda para amarrá-lo nos pés e  nas mãos arrastando-o pelas ruas. 

O caso ocorreu no domingo (4) e uma denúncia em vídeo da ação ganhou força nas redes sociais nesta semana. A cena remete a ilustrações do Período Colonial, quando pessoas negras eram presas e arrastadas da mesma maneira. 

Da mesma maneira também têm sido as justificativas apresentadas: o homem estaria com um amigo e um adolescente furtando um supermercado e com ele os policiais encontraram duas caixas de bombons. 

Conforme os policiais, o homem teria se negado a ser detido ameaçando os matar com as próprias armas. 

A Polícia Militar os afastou e a ouvidoria da corporação disse lamentar o episódio e reafirma que “a conduta assistida não é compatível com o treinamento e valores da instituição”. Por certo, então, que há sérios problemas e deficiências no treinamento dos policiais.

Não é um fato isolado

Padre Júlio Lancellotti foi um dos responsáveis pela denúncia ter repercutido nas redes sociais. O religioso trabalha há décadas com pessoas em situação de rua na capital paulista e aborda as violências sofridas por essa população.  

Apresentando resistência, entende Lancellotti, o homem deveria ser imobilizado com as técnicas que a própria polícia tem para conter uma pessoa agitada. Para ele, em entrevista ao UOL, o fato de ter acontecido da maneira que ocorreu com um homem negro e pobre não se trata de coincidência.  

“Isso não é um fato isolado. É um fato documentado, que mostra uma prática recorrente e permanente. Sabemos que se esse rapaz fosse branco e vestido de uma forma diferente não seria tratado assim”, afirma. 

Racismo estrutural 

O padre reforçou que cenas como as vistas na zona sul de São Paulo são corriqueiras e mostram a existência de um “racismo estrutural entranhado nas pessoas”. 

“É uma demonstração de racismo estrutural por ser um jovem negro. O que ele fez não justifica esse tipo de tratamento. Isso mostra uma aporofobia [aversão e desprezo aos pobres] e pobrefobia”, afirma Lancellotti. 

Justiça Militar isenta policiais

A afirmação do padre Lancellotti possui inúmeros casos como prova. Em 30 de novembro de 2021, um jovem negro foi arrastado por 300 metros numa moto da Polícia Militar. Em maio de 2022 o policial foi a julgamento. 

A Justiça Militar de São Paulo concluiu que o policial militar não cometeu os crimes de abuso de autoridade e constrangimento ilegal pelos quais era investigado. Por este motivo, o Tribunal de Justiça Militar (TJM) arquivou o caso. 

Um Inquérito Policial Militar (IPM) sobre o caso também já havia sido arquivado. Mesmo com imagens flagrantes, nada ocorreu e a impunidade seguiu sendo terreno fértil para novas ações da PM do tipo. 

As filmagens postadas na web provocaram reações e debates de especialistas em segurança pública, direitos humanos e personalidades. Especialistas criticaram a abordagem, classificando-a como tortura e racismo

LEIA MAIS:

Renato Santana

Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Os policiais abusam porque são arengados pelos oficiais que comandandam os batalhões. O Ministério Público, que poderia fazer algo contra esses comandantes, prefere fazer vistas grossas. Os promotores estão mais preocupados com a suplementação pelo governado das verbas orçamentárias que irão garantir seus salários acima só teto. O resultado é uma democracia de faz de conta em que a PM opera como se fosse uma tropa de jagunços nazistas. A cereja no bolso são as indenizações negadas ou ridículas fixadas pelos juízes e pelo TJ.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador