Peça 1 – a resistência sem liderança

Espocam resistências em todas as partes do país contra os desmandos de Bolsonaro e seu grupo. Hoje em dia, há juízes pela democracia, economistas, procuradores, uma classe média indignada,  resistência no Judiciário, no mundo político, entre prefeitos e governadores, mas de forma difusa. 

A prova maior é a falta de rumo da oposição em relação às eleições no Congresso. Há apoios a Baleia Rossi, críticas ao apoios a Baleia Rossi, defesa de chapa pura, defesa de alianças, em uma perda de rumo que não perdoa nem esquerda nem centro-direita.

Não há ponto de coordenação.

Há um sentimento difuso de que o país está sendo destruído, as instituições arrebentadas, que os hunos de Bolsonaro não poupam educação, saúde, ciência e tecnologia, movimentos sociais, indústria nacional, mercado, empregos. E, a partir da tragédia de Manaus, a constatação de que o país está completamente à deriva no combate à pandemia.

Enfim, um sentimento de urgência generalizado, pronto para explodir, mas com o calor se dispersando no ar pela entropia, de defeitos nos fios condutores da eletricidade.

Peça 2 – as ameaças do bolsonarismo

Não se trata de um problema exclusivo de destruição das instituições, mas de um risco iminente de controle do país pelo crime organizado.

Há sinais nítidos no ar de que Bolsonaro irá tentar o golpe, mais cedo ou mais tarde. Mais cedo, se conseguir juntar massa crítica em favor do golpe. Mais tarde, com a perspectiva de ser derrotado nas eleições de 2022.

  1. Desde já coloca em dúvida as eleições.
  2. Há dois anos estimula o armamento para a população, de um lado facilitando a importação de armas e reduzindo o controle da Polícia Federal sobre munição. De outro, atuando diretamente contra policiais e fiscais da Receita que atuavam no combate ao contrabando de armas no porto de Itaguai – o ponto central do contrabando de armas no país.
  3. Além das milícias, há uma ligação umbilical dos Bolsonaro com os Clubes e Tiro e Caça e com grupos muralistas armados espalhados por todo o país.
  4. A aproximação com sindicatos das Polícias Militares estaduais e a corte às bases das Forças Armadas.

Todos esses fatores aumentam a eletricidade na política e estimulam o antibolsonarismo. Mais uma vez, a falta de coordenação provoca dispersão do calor.

Peça 3 – a perda de rumo das instituições

Some-se a desorganização das instituições com o desmanche constitucional que permitiu o impeachment. O vale-tudo do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Lava Jato contaminaram praticamente todas as instituições de controle do país.

Hoje em dia, a ameaça maior é Bolsonaro. No pós-Bolsonaro, o desafio maior será preservar a governabilidade, no caos que se instalou em todas as instituições da República.

Hoje se tem o seguinte quadro:

Judiciário – o ativismo se espalhou por todos os poros do Judiciário. Não há mais obediência aos fatores intangíveis de controle – jurisprudência, respeito aos códigos, razoabilidade nas sentenças. Jogam-se com prazos ou com a condescendência das corregedorias e dos tribunais superiores para uma militância política desmoralizante para a Justiça. É um poder que caminha rapidamente para a desmoralização. Só que, nessa trajetória, deixará muitas vítimas pelo caminho. Para evitar ameaças futuras ao Judiciário (e à democracia) há a necessidade de uma freada de arrumação. Mas o corporativismo do Judiciário, e a ação imprudente de Ministros do Supremo, como Luis Roberto Barroso, estimulando o protagonismo dos juízes, coloca muita resistência a qualquer forma de coordenação.

Mídia – em anos 2.010, a mídia brasileira cometeu o mais imprudente dos pecados da arrogância, articulando diretamente o impeachment de Dilma Rousseff e se apresentando como a verdadeira oposição ao país. É um trem sem rumo. O modelo de negócio faz água, não conseguiu viabilizar o grande motivo da conspiração – a blindagem contra as grandes redes sociais – e, hoje em dia, atua como um peru bêbado. Depois de ter gastado toda a credibilidade em um anticomunismo de guerra fria, não tem como desenvolver um discurso eficaz contra o direitismo de Bolsonaro. Limita-se a praticar a inviabilização dos adversários pré-Bolsonaro, a imprecar contra o bolsonarismo, a enaltecer Luciano Huck e a endossar cegamente o negócio da privatização.

É incapaz de pensar fora da caixinha ou no dia seguinte.

Governos estaduais – espremidos pela pandemia e pela crise fiscal, não conseguem esboçar reação mais sólida ao bolsonarismo. 

Legislativo – como em todo caso de governo enfraquecido, aumentam as demandas por cargos e verbas. E têm sido regiamente atendido por Bolsonaro. Só agirá quando o movimento de opinião pública pelo impeachment se tornar irresistível.

Peça 4 – as forças políticas

Nesse quadro confuso, há dois desafios para as forças políticas remanescentes da destruição imposta pela Lava Jato. Primeiro, como derrubar Bolsonaro. Depois, como garantir a governabilidade pós-Bolsonaro. São justamente as duvidas em relação ao pós-Bolsonaro que travam a batalha final pelo impeachment, a direita temendo um ressurgimento das esquerdas nas eleições; as esquerdas temerosas do que seria um governo Hamilton Mourão.

Em qualquer país racional haveria um pacto entre as forças democráticas, em cima de regras claras. Primeiro, entender o pacto como uma trégua para a disputa política. Ou seja, dá-se um prazo para a reconstrução da democracia, cada lado abre mão de suas demandas mais relevantes e, depois, abre-se novamente a disputa política.

Mas não há nenhum caminho claro pela frente.

O centro-direita continua se escudando nas tolices da mídia em pretender transformar Luciano Huck em estadista e em inviabilizar os adversários. Hoje em dia suas manifestações se resumem a generalidades de bom mocismo, a favor da redução da miséria, da desigualdade, do racismo etc., mas sem apresentar uma proposta concreta sequer para viabilizar os princípios,. Fica-se nisso: bom mocismo apenas. Mesmo as manifestações de boas intenções  são soterradas pelo interesse imediato nos negócios da privatização e do desmonte do Estado.

Do lado da esquerda, há a mesma perda de rumo. Não foi capaz sequer de definir uma ação conjunta em relação às eleições no Congresso. 

A partir do governo Temer houve uma ação sistemática de quebra das pernas dos sindicatos. O PT foi engolfado por uma polarização maliciosa conduzida pela mídia, apresentando-o como a outra face da moeda do bolsonarismo e até agora não conseguiu escapar da armadilha. E Lula já não tem o mesmo pique do passado, compreensível depois da perseguição infame. a que foi submetido na última década. Aliás, o maior crime cometido pelo movimento mídia-Supremo-Lava Jato contra o país foi a inviabilização política de Lula. Em qualquer país civilizado, ex-presidentes são ativos nacionais, essenciais para os grandes pactos de governabilidade.

Peça 5 – o fator Ciro Gomes

É por aí que se deve analisar o fator Ciro Gomes. Ciro tem algumas características que certamente o farão crescer nos próximos meses.

* Tem diagnósticos claros sobre os problemas centrais do país, não apenas econômicos, como institucionais. 

* Tem personalidade forte e determinação, qualidades que fortalecem em períodos de perda de rumo e de comando. As atitudes do irmão Cid Gomes em Fortaleza, enfrentando o motim da Polícia Militar, apesar da imprudência pessoal, mostrou um grau de determinação à altura do desafio de enfrentar o crime organizado que se apossou do comando do país.

* Tem boa penetração no Nordeste e capacidade de articular com os governadores.

* Ajudou a desenvolver boas políticas públicas no Ceará

* É reconhecidamente honesto. Enquanto Ministro do Interior, conduziu a transposição do São Francisco com pequenas e médias empreiteiras. Assim que saiu, e assumiu Fernando Bezerra Coelho – do centrão – voltou-se ao esquema anterior das grandes empreiteiras. Entende-se, aí, parte de sua bronca com o PT.

* Seu desenvolvimentismo vem alicerçado em argumentos racionais.

* Enfrenta menos resistências que o lulismo em redutos do centro-direita.

* Tem sinceridade suficiente para desmascarar as ilusões políticas alimentadas pela direita, como Huck e João Dória.

 Não são poucos os defeitos:

* A capacidade de criar conflitos dentro do seu próprio campo.

* Um ego monumental, que o fez abrir mão da possibilidade de ter sido presidente em 2018, ao recusar a proposta feita pelo PT – através de Fernando Haddad – de ser o vice-presidente na chapa de Lula, para assumir a candidatura a presidente quando Lula fosse impedido pelo STF. E sua viagem a Paris, para não se posicionar em relação ao seguro turno das eleições.

* A dificuldade em dialogar com movimentos e sindicatos, comprometendo um dos pilares da modernização do país: o aprofundamento da democracia através de modelos de participação. 

* A demonização de quem ousar apontar erros em suas estratégias.

* A ojeriza aos acordos políticos. Mas que pode ser uma vantagem na quadra política atual, para arregimentar seguidores.

Em quem está na oposição, voluntarismo é qualidade. No poder, pode ser ameaça. Mas, em preparativos para a guerra – como ocorre agora, na resistência a Bolsonaro – pode ser a única alternativa de resistência.

É possível que a perda de rumo atual faça com que seus defeitos sejam minimizados e que a impulsividade atraia cidadãos desiludidos com a ideia de que será possível reconstruir o país e as instituições com bons modos. 

No cenário político atual, o governador do Maranhão, Flávio Dino, tem entendimento muito mais apurado sobre os instrumentos de democratização, de políticas sociais. E tem pulso para enfrentar desafios pesados. Seria o nome ideal para a construção na paz com bons modos, mas não necessariamente em períodos de guerra. E Fernando Haddad – provavelmente o melhor Ministro da história do país, pelo conjunto de políticas que implementou – não tem mostrado disposição para assumir um protagonismo maior no jogo político.

Por tudo isso, sem um fato novo, de coordenação ampla da resistência a Bolsonaro, é possível que, na perda de rumo atual que caracteriza a oposição, a estrela de Ciro comece a brilhar com mais intensidade.

 

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