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Blog de Sebastiao Nunes

Visitando um megahipermercado virtual sociopolítico no ano de 2099, por Sebastião Nunes

Visitando um megahipermercado virtual sociopolítico no ano de 2099

por Sebastião Nunes

Minha boneca da Emma Watson parou de funcionar. Inerte na cama, fez com que eu me sentisse viúvo. Desesperado, telefonei para o centro de manutenção da Apple na Califórnia, mas tudo o que consegui foi o telefone da revenda em São Paulo.

Liguei para lá.

– Minha boneca da Emma Watson parou de funcionar – disse eu. – Não fala, não anda, não toma banho, não cozinha, não lava, não passa, não beija, não trepa, não faz nada. Até parece uma daquelas bonecas japonesas vendidas em 2017. Que devo fazer?

– Infelizmente, meu caro senhor, as peças de reposição de sua boneca deixaram de ser fabricadas. Mas tenho ótimas notícias.

E antes que eu abrisse a boca continuou:

Os novos chips desenvolvidos no Vale do Silício, e que acabam de ser lançados mundialmente, clonam com absoluta fidelidade qualquer pessoa de qualquer época.

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Adão Ventura odiaria passar pela vida em brancas nuvens, por Sebastião Nunes

Adão Ventura odiaria passar pela vida em brancas nuvens

por Sebastião Nunes

As largas plantas amarelas dos pés, o negrume descorado da pele e a flacidez opaca do rosto indicavam que o poeta estava se despedindo.

Sentados em cadeiras de ferro pintadas de branco, eu e Jaime ajudávamos Adão a selecionar seus poemas inéditos na babel de infinitos manuscritos, espalhados pela cama também de ferro e também pintada de branco.

Amarfanhado, o lençol não dava conta de recordar os infinitos doentes terminais que tinham saído daquela cama para a autópsia, o necrotério, a cova e o esquecimento.

– O título será “Costura de Nuvens” – disse Adão, olhando para nós com seu ar de falsa insegurança. – Costura de Nuvens é um bom título, não é?

Mais que isso, era uma pepita de absoluta pureza da mina secreta de Adão.

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Preto, pobre e poeta – que puta azar, hein, Adão Ventura? Por Sebastiao Nunes


 

Por Sebastiao Nunes

Vezes sem conta palmilhei, tarde da noite, as ruas do Santo Antônio, bairro de classe média branca de Belo Horizonte. Ao meu lado, o patético poeta negro perseguia inalcançáveis louras de olhos azuis ou verdes, entrevistas numa rua, numa loja, num bar, numa livraria – entrevistas entre sonhos e esperança.

Adão era preto e não sabia. Quase opaco de tão negro, tinha lábios grossos, pés esparramados e a inconsciência do negro recém-forro.

Adão era pobre e fazia de conta que não: bebericava nas mesas do Lucas com a mesma placidez dos brancos remediados e, na hora de pagar, sacava a eterna nota de Cr$100,00, afirmando não ter trocado. Nunca tinha. E nunca pagava.

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Tristezas do Jeca: agonia e morte de dois escritores marginais brasileiros, por Sebastião Nunes

A cancela gemeu. Comprida trilha estreita, pavimentada de pedras irregulares, conduzia à pequena casa em ruínas. Entrei. Bafo de mofo.

Entrou comigo a multidão tristonha de fantasmas arrependidos. Fantasmas de poetas, ficcionistas, cineastas, músicos, atores, fotógrafos, pintores.

Lá dentro, em cima da cama tosca de madeira carcomida, o velho cabeludo estertorava. Sangue coagulado empapava a camisa branca puída. Hemoptise, buraco de bala ou faca, hemorragia gástrica. Eu não sabia o quê. A morte rondava.

Aos 69 anos – era julho de 2007 – José Agrippino de Paula agonizava.

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Um poema satírico brasileiro comentado pelo erudito presidente-golpista, por Sebastião Nunes

Um poema satírico brasileiro comentado pelo erudito presidente-golpista

por Sebastião Nunes

O Brasil, como palco de dramalhões, não tem paralelo no mundo. Colonizado e explorado com voluptuosa preguiça por uma confusa mistura de criminosos e herdeiros da pequena aristocracia portuguesa, perdeu-se no caos. Terra de elites podres, corrupção antiga e velhos golpes que se repetem como se fossem novos. Lá em cima, os poderosos de hoje (crias dos poderosos de ontem) dividem o butim, sempre gordo. Aqui embaixo, a ralé e a classe média baixa (a média alta é tropa de choque dos poderosos) tentam sobreviver, juntando os cacos, os farrapos e a esperança. Ou, como filosofou um amigo esperto, quem tem coragem vai ser traficante; quem não tem, entra para a polícia. A alternativa é jogar futebol ou cantar música brega em programa de auditório, únicas praias em que preto pobre pode ter sucesso e encher o metafórico chapéu.

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Delação de Pedro Malasartes e programa Criança Desesperança, por Sebastião Nunes

Uma semana antes do casório, o Noivo-Velho deixou de lado os preparativos para se dedicar a nova tarefa: lançar uma grande campanha de arrecadação de fundos para rechear os bolsos dos cupinchas.

Reunidos no salão de festas do Palácio do Planalto, ministros, senadores, puxas e deputados fizeram absoluto silêncio quando o Chefão-Golpista-Mor perorou assim:

– Meus amigos, irmãos, camaradas, dar-vos-ei hoje uma rápida pincelada do que tramamos nas madrugadas dos porões.

Pigarreou o grosso pigarro dos velhos e continuou:

– Vamos lançar o notável programa Criança Desesperança, destinado a abiscoitar um trilhão de reais para nossos esvaziados fundos.

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A delação premiada de Pedro Malasartes – Delírios noturnos do velho caduco

Intervenção sobre pintura de Domenico Ghirlandaio

Por Sebastião Nunes

Um grito de arrepiar alma penada atravessou as abóbadas do palácio do... Qual é mesmo o nome daquele bicho de perna comprida, pescoço vermelho e cabecinha preta? Ah, deixa pra lá. Bota aí tapujaca, jabiru, jaburu, tuiuiú, qualquer coisa do tipo.

Quem assim gritou, devastado de medo, foi o noivo-senador, apavoradíssimo, pulando da cama na luxuosa alcova presidencial-golpista.

Acabava de sonhar com uma figura sinistra de dentes compridos e sangue à beça escorrendo pela cara. Assustadora mesmo.

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A delação premiada de Pedro Malasartes – Conversa fiada antes do casório, por Sebastião Nunes

A delação premiada de Pedro Malasartes – Conversa fiada antes do casório

por Sebastião Nunes

Resumo da ópera:

Morrera a mãe do pequetito Pedro em meio aos angustiantes tédios da riqueza mal adquirida. Apenas dois dias após a morte da primeira consorte, mãe de Malasartes, o muxibento pai, poderoso senador da República, de 70 e muitos outonos, arregalou as butucas para cima de bonita ex-miss de apenas 22 primaveras. Como se vê, estava mais é procurando sarna para se coçar. Enfim, trata-se de versão tupiniquim-mambembe do clássico “A bela e a fera”. Estamos na terceira fase dos preparativos de tal casamento.

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A delação premiada de Pedro Malasartes – Preparativos para o casório do pai, por Sebastião Nunes

A delação premiada de Pedro Malasartes – Preparativos para o casório do pai

por Sebastião Nunes

A defunta mãe de Malasartes nem tinha dois dias de enterrada quando o pai do bebê, poderoso senador da república, apontou os bugalhos para cima de deliciosa ex-miss, loira de 20 e poucos anos e olhos de ressaca.

Aliás, o bode velho, passado dos 70, cara mais engelhada do que leito de rio sertanejo durante seca braba, já vinha botando olhares lânguidos na donzela casadoira bem antes da defunta sucumbir aos tédios da gravidez e da riqueza inútil.

Aliás, a donzela casadoira, depois de eleita miss, aventurou-se nalguns cursos de voo curto, daqueles que são chamados, no interior, caça-marido.

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A delação premiada de Pedro Malasartes – O nascimento do herói, por Sebastião Nunes

por Sebastião Nunes

Pedro Malasartes é podre de rico.

Fez fortuna, como a maioria dos brasileiros multimilionários, utilizando com liberalidade os costumeiros instrumentos de enriquecimento rápido de nossa elite: chantagem, fraude, corrupção, grilagem, intimidação, estelionato, sonegação, notas frias, troca e venda de favores, extorsão, agiotagem, formação de quadrilha e, quando não havia recurso mais barato, encomendando assassinatos e queimas de arquivo.

Em pesquisas recentes (2016), realizadas por órgãos internacionais, Malasartes foi eleito um dos 100 maiores canalhas brasileiros de todos os tempos.

Desde criancinha revelou inúmeros talentos para o exercício do poder, talentos que o transformaram em um de nossos mais brilhantes homens públicos.

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Diálogo sobre traidores antigos e traidores modernos, por Sebastião Nunes

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Imagem: Reprodução

Por Sebastião Nunes

Cochilando debaixo de um coqueiro numa praia de Itamaracá, Joaquim Silvério dos Reis foi acordado por um galopar furioso.

Ergueu-se de um pulo, agarrando a espada na mão esquerda e a garrucha de dois canos na direita: “O que vier eu traço”, resmungou convicto.

O cavaleiro, descalço e vestido com trapos, chegou esbaforido, saltou do cavalo e aproximou-se de Joaquim Silvério, caindo de joelhos diante dele:

– Me acuda, pelo amor de Deus! Me salva, porque vão me garrotear!

Sem entender nada, o traidor mineiro olhou aquele mulato baixo, troncudo e moço, que implorava socorro.

– Acalme-se, meu amigo – disse ele. – Aqui você não corre perigo algum.

– Tem certeza? – duvidou o recém-chegado. – Olha que essas terras estão mais do que vigiadas. Os portugueses estão por toda parte, armados até os dentes. Leia mais »

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Chico, meu papagaio de estimação, é danado de sabido, por Sebastião Nunes

Chico, meu papagaio de estimação, é danado de sabido

por Sebastião Nunes

Ouvi um toc-toc-toc no vidro da janela e lá estava ele: meu papagaio verde do bico dourado.

Me levantei para abrir e ele entrou, voando lentamente até seu poleiro.

– De onde está vindo, Chico? – perguntei.

– Da ONU – respondeu ele.

– E o que estava fazendo na ONU, Chico?

– Aprendendo como ganhar dinheiro sem fazer nada.

– Ahhh... disse eu.

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O menino Brasil, a menina Brasília, a galinha e o pé de feijão, por Sebastião Nunes

O menino Brasil, a menina Brasília, a galinha e o pé de feijão

por Sebastião Nunes

Sentindo-se à beira da morte, a bondosa mãe reuniu seus dois filhos pequenos e disse, com voz chorosa:

– Meus queridos, sinto que é chegada a hora. Infelizmente, só tenho para deixar-lhes esta galinha, mas é uma galinha muito especial. Cuidem bem dela.

Entregou-lhes a galinha e, estremecendo, esticou as canelas.

Dias depois, o bondoso pai sentiu-se à beira da morte e chamou os filhos:

– Meus queridos, sinto que de hoje não passo. Infelizmente, só posso lhes deixar estes grãos de feijão. Cuidem bem deles, porque são muito especiais.

Entregou-lhes um saquinho, soltou um último suspiro e bateu as botas.

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A proliferação de ratos em Brasília depois do golpe, por Sebastião Nunes

A proliferação de ratos em Brasília depois do golpe

por Sebastião Nunes

– Pedro! – trovejou Deus, quase matando de susto os anjos e os querubins que rodeavam Seu trono.

– Droga – resmungou São Pedro, que jogava porrinha com o arcanjo Gabriel. – Isto aqui já foi mais tranquilo.

Enquanto Gabriel, suspirando, recolhia os palitos e a caixa de fósforos, São Pedro disparou rumo ao trono divino.

– Pois não, Senhor – disse o guardião das chaves celestiais. – Às Suas ordens!

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Um dia na vida conturbada do urubu que tinha o rabo preso, por Sebastião Nunes

Um dia na vida conturbada do urubu que tinha o rabo preso

por Sebastião Nunes

O almoço chegara ao fim. Deliciado, o urubu-rei-do-planalto-central raspava os derradeiros fiapos da carniça que ele e seu bando devoravam. Era uma carniça enorme, fedorenta como ela só. Talvez a carniça da Previdência Social. Quem sabe a carniça da Educação Fundamental. Ou ainda a carniça dos Direitos dos Trabalhadores. Mas que era deliciosa, fosse a carniça que fosse, lá isso era.

Saciado, o urubu-rei-do-planalto-central arrotou. Bocejou. Abriu as longas asas escuras espreguiçando-se com prazer. Apoiou as patas no chão e, bico erguido, lançou-se no espaço azul da manhã que findava.

– Diacho! – resmungou ele, constatando que as asas lhe pesavam que nem chumbo. – Estarei ficando mais velho do que sou? Nunca me pesou tanto o corpo nem jamais tive tanta dificuldade para alçar voo. Alguma coisa está errada.

Virou o bico para trás e viu que, logo ali perto, voava o urubu-secretário-geral-do-planalto-central.

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O nariz de Pinóquio e os narizes dos figurões da república, por Sebastião Nunes

O nariz de Pinóquio e os narizes dos figurões da república

por Sebastião Nunes

Preocupadíssimo, Geppetto se postou diante do espelho mágico e indagou:

– Espelho, espelho meu, haverá nariz mais comprido que o de Pinóquio?

– Ah, ah, ah! – riu-se o espelho da ingenuidade do velho marceneiro. – Só no Brasil, meu caro, existem milhares de narizes mais compridos que o de seu filho.

– Não acredito, seu pedaço de vidro estúpido – irritou-se o velho. – E como eles conseguiram narizes tão compridos?

– Mentindo, uai! – respondeu o espelho à moda mineira. – Não foi colecionando mentiras que o nariz de Pinóquio cresceu tanto?

– Tá danado – resmungou Geppetto, e foi bater na porta do filho.

– Pinóquio, meu filho, abre essa porta. Não adianta nada esgoelar!

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Como foram assassinados os moleques João Huck e Luciano Dória Jr., por Sebastião Nunes

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Foto: Tania Rego/Agência Brasil

Eram gêmeos univitelinos: cara de um, focinho de outro. Nasceram num dia de sol quente na favela do Quebra-Pau – qualquer um sabe onde fica, não sabe?

Na hora de escolher os nomes, o maior fuzuê: a mãe, fanática pelo maridão da Angélica, exigia que um se chamasse Luciano Huck. Já o pai, vidrado no bon-vivant das noitadas paulistanas, não abria mão de João Dória, inclusive com o Jr.

Por que não fizeram assim, um nome chique e midiático para cada um? Não sei: mistérios insondáveis de pobres turrões.

Brigaram de soco, pontapé, beliscão e mordida. Quando a ambulância chegou, chamada pelos vizinhos, gemiam ensanguentados no chão da cafua. Os filhotes? Quase se acabando de tanto esgoelar num colchonete fedorento.

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Como um recém-operado de catarata enxerga a República-das-Bananas, por Sebastião Nunes

Como um recém-operado de catarata enxerga a República-das-Bananas

por Sebastião Nunes

Há cerca de um mês fui operado da porra do olho direito. Nada de dramático: coisa de 30 minutos e estava liberado. Pronto para enxergar o mundo azul? Não. Na República-das-Bananas não tem azul. Nem verde. Nem amarelo. Só cinza.

Durante 15 dias pinguei colírios variados no olho avariado, 15 vezes a cada 24 horas. Voltei ao médico três vezes, até que na última visita receitou óculos novos e mandou voltar seis meses depois para operar a porra do olho esquerdo.

Tudo bem? Não. O mundo continua cinza.

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Marx e Engels visitam Machado de Assis para falar de revolução, por Sebastião Nunes

Imagem: Reprodução

Por Sebastião Nunes

Corria o ano de 1882. Comodamente instalados numa velha otomana, dois alemães esperavam o dono da casa. Acabavam de chegar de Londres.

– Será que vai dar certo? – perguntara o mais velho, antes da viagem.

– Não tenho dúvida – respondeu o mais moço. – Um sujeito que escreveu uma novela como “O alienista” e um romance como “Memórias póstumas de Brás Cubas” deve compreender tudo desse país. Ou quase tudo.

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O Cavaleiro da Triste Figura enfrenta o Cavaleiro da Pavorosa Carranca, por Sebastião Nunes

O Cavaleiro da Triste Figura enfrenta o Cavaleiro da Pavorosa Carranca

por Sebastião Nunes

– Veja como são as coisas, amigo Sancho – dizia Dom Quixote ao escudeiro Sancho Pança, enquanto vagabundavam por terras manchegas. – Aqui estamos em busca de aventuras e ouvi dizer que, em Brasília, um terrível nigromante apronta horríveis traficâncias contra o povo. Creio que devemos confrontá-lo e derrotá-lo em combate justo, para defesa dos ofendidos.

Sancho coçou a barbicha e perguntou:

– E que Brasília é essa, meu senhor?

– Uma espécie de Madri tropical de uma república-banana chamada Brasil, a existir no futuro remoto, habitada por 80% de papagaios e 20% de ladrões.

– Tanto papagaio assim?

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Bob Dylan, quem diria, nasceu cresceu e morreu no Cariri, por Sebastião Nunes

Bob Dylan, quem diria, nasceu cresceu e morreu no Cariri

por Sebastião Nunes

Com a enxada no ombro, o jovem Bob Dylan palmilhava a tórrida estrada que levava ao algodoal raquítico. Suava que nem peba. O sol queimava, os beiços gretados pediam água. A estrada parecia interminável. Para aguentar, começou a entoar a cantiga que andava matutando nas horas de folga:

– Quantas istrada havera um home de parmilhá

Inté qui de home havera de ser chamado

Quantos mar havera uma pomba branca de sobrevuá

Inté pudê na areia drumi...

Cantava e marcava o compasso com os pés descalços. Mal percebeu que estava chegando. Música era bom por isso.

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Vamos começar tudo de novo?, por Sebastião Nunes

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por Sebastião Nunes

Durante milênios, filósofos de todas as correntes, tendências e manias especularam sobre o funcionamento de nosso cérebro.

Ocupará a crueldade um determinado escaninho?

Onde se localiza a prudência?

A capacidade de amar nasce conosco ou é acrescentada mais tarde?

E a alma? Sua origem está no cérebro, no estômago ou no coração?

O que no princípio não passava de sucessivos saltos no escuro aprimorou-se com o tempo e novos e notáveis instrumentos de especulação e pesquisa.

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Machado de Assis e Carolina visitam o MASP num dia festivo, por Sebastião Nunes

Machado de Assis e Carolina visitam o MASP num dia festivo

por Sebastião Nunes

– É, para mim, motivo de especial satisfação inaugurar este magnífico Museu de Arte – arengou a rainha Elizabeth II, em seu discurso de inauguração da nova sede do MASP, em 8 de novembro de 1968. E continuou: – A sua beleza, simplicidade e a perícia com que foi construído tornam-no mais um impressionante exemplo do espírito de iniciativa dos paulistas.

Os convidados aplaudiram com entusiasmo, excelentes puxa-sacos que eram. Todo sorrisos, o príncipe Filipe examinava com prazer as paulistanas bonitas.

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Dois capítulos de “Somos todos assassinos”, minha ficção sobre publicidade, por Sebastião Nunes

Dois capítulos de “Somos todos assassinos”, minha ficção sobre publicidade

por Sebastião Nunes

Enquanto os livros antigos não são reeditados, cato de vez em quando alguns textos que publico como amostra e, sem um pingo de vergonha, certo de sua atualidade nestes tempos de golpe e de golpistas. Hoje são duas páginas do STA.

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Acalanto triste (porém esperançoso) para um país em ruínas, por Sebastião Nunes

Uma releitura brasileira de um dos textos fundamentais da poesia oriental, o “Mantiq ut-tair”

Por Sebastião Nunes

Certo dia, o rei dos pássaros deixou cair uma pena, uma simples pena, bem no centro do maior deserto da Terra.

            Mas era uma pena tão magnífica, de tal forma maravilhosa, que os pássaros que a encontraram, muitos anos depois, não tiveram a menor dúvida: era uma pena de seu rei.

            A descoberta correu de bico em bico e, dentro de mais alguns anos, todos os pássaros do mundo visitaram o deserto e viram, deslumbrados, a primeira prova verdadeira da existência de seu desconhecido rei.       

            Sabiam, por velhas lendas, que o rei dos pássaros tinha construído seu ninho no ponto mais alto da mais alta montanha da Terra.

            Também sabiam, narrado de pais para filhotes, que o nome secreto de seu rei queria dizer “trinta pássaros”.
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O que nos reserva o futuro: como se divertirão nossos filhotes inclames, por Sebastião Nunes

Por Sebaestião Nunes

Continuando minha análise do futuro controlado pelos inclames, eis uma pequena amostra de uma festança entre eles, talvez num clube particular e exclusivo, quem sabe num condomínio fechado. Se não for assim, será quase assim.

O PRAZER DE CHURRASQUEAR

Grupo numeroso de inclames, funcionários de multinacional, costumava reunir-se semanalmente em animadíssimo churrasco. Levavam família toda: consortes e sogros e filhos e pais e avós. Bisavós e cunhados e concunhados e genros. E noras e carros e gatos e cachorros.

As carnes do famoso churrasco eram sorteadas na hora, entre os participantes.

As picanhas (sempre em número de quatro) eram extraídas da bunda de duas das buclames-sogras.

As maminhas, dos peitos de quatro das buclames-avós.

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As novas castas sociais e a vertiginosa ascensão dos inclames, por Sebastião Nunes

As novas castas sociais e a vertiginosa ascensão dos inclames

por Sebastião Nunes

Classe média é um estado de espírito, ao contrário do que pensam sociólogos, economistas, publicitários, juristas, políticos e estatísticos.

            As duas principais características da classe média são consumismo exacerbado e individualismo predador. A união dessas duas características cria o típico estado de espírito inclâmico, voltado para a destruição em massa de ambientes, bens e pessoas, gerando o individuo que denominei inclame.

            Foi o surgimento das grandes cidades que propiciou a amplificação dessas duas características até o grau extremado que se verifica hoje.

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Sexta lei do decálogo da classe média: nosso admirável mundo novo, por Sebastião Nunes

Sexta lei do decálogo da classe média: nosso admirável mundo novo

por Sebastião Nunes

SOMAR NÃO É SUBTRAIR

Tendo absorvido sua porção diária de Soma* um casal de inclames (indivíduos de classe média) perdeu por completo a (sic) tesão**. Sentiram-se então pastosos que nem abacate liquidificado no que se chama vitamina de abacate nos botecos de mauseráveis da zona boêmia do Baixo Meretrício (versão popular do Alto Meretrício, alocado junto aos poderes executivo, legislativo, judiciário e à mídia televisada, oralizada e impressa).

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Três recortes da STA, minha fictícia agência de publicidade, por Sebastião Nunes

Três recortes da STA, minha fictícia agência de publicidade

por Sebastião Nunes

Entre 1980 e 2000 publiquei quatro edições de um livro que me dá saudade. Por conta dessa lembrança boa, e porque “Somos todos assassinos”, satírico e corrosivo, me parece bastante atual, estou preparando uma quinta edição. Cada “capítulo” é estruturado como um anúncio impresso, ocupando uma ou duas páginas no máximo, com título, ilustração e texto, seguindo o padrão da época em jornais e revistas. Reproduzo aqui três dos textos avulsos, ilustrados com um outdoor “patrocinado” pela STA.

 

O PROGRESSO VOCÊ É QUEM FAZ

Vim de Pernambuco sem emprego e sem coragem, mas meu pai era rico e estudei administração de empresas na PUC e doutorei-me nos Estados Unidos.

Voltei dos Estados Unidos magro e desanimado, mas ganhei apartamento no Leblon, cartões de crédito e pequeno carro esporte italiano.

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O Humanismo está morto. Viva o Individualismo à Brasileira!, por Sebastião Nunes

O Humanismo está morto. Viva o Individualismo à Brasileira!

por Sebastião Nunes

Socratião, expulso a vassouradas por Xantipa, reuniu-se na Ágora com seus parças para mais uma sessão de papo furado e bebedeira: Platião, Fedontião, Antistião e Cebestião. Seu maior pobrema (como dizem os mineiros) era compreender os sofismas usados pela Estupidez para virar o país de cabeça para baixo, botando o Individualismo em cima e o Humanismo embaixo. Difícil de entender? Por isso tantos sabichões sebastiúnicos reunidos na Ágora onde, apesar da balbúrdia, era possível pensar. Não dava para pensar era com Xantipa na cola, brandindo aquela horrorosa bassoura (como diziam os antigos) de bruxa malvada.

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