19 de junho de 2026

A mídia brasileira não defende liberdade de expressão, por Miguel do Rosário

Sugerido por Webster Franklin

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Do Tijolaço

Por Miguel do Rosário

ScreenHunter_5470 Jan. 18 09.21

É preciso enterrar esta mentira.

A mídia brasileira não defende a liberdade de expressão.

Nem absoluta, nem parcial, nem nenhum tipo de liberdade de expressão.

A única liberdade que a mídia conhece é aquela que lhe interessa comercialmente.

A mídia brasileira não deu quase nada sobre a sonegação da Rede Globo.

Houve um sinistro pacto de silêncio em torno do assunto, apesar de envolver 1 bilhão de reais, roubo de processo e lavagem de dinheiro em diversas off shore no exterior.

A mídia brasileira apoiou o golpe, sustentou a ditadura e se enriqueceu à margem de um regime totalitário que censurava, matava e prendia quem tinha coragem de se expressar livremente.

Além disso, a liberdade de expressão não existe num regime de monopólio.

O sistema de comunicação brasileiro não é democrático e, portanto, não é livre.

E se não é livre, não existe liberdade de expressão.

O poder de poucas famílias sobre tvs, rádios e jornais, não encontra paralelo no mundo democrático.

O arcabouço legal, após o fim da lei de imprensa, também não colabora para a liberdade de expressão.

Ricos e poderosos podem processar judicialmente qualquer um que lhes incomode. Como não há lei, depende-se da opinião de juízes, que infelizmente ainda formam, no Brasil, um estamento patrimonialista a serviço da classe dominante

É o caso, por exemplo, de Ali Kamel, que processa vários blogueiros, por conta de ninharias. Ninguém lhe chamou de ladrão. Ninguém ofendeu sua família. Ninguém o desrespeitou como pessoa.

Houve apenas humor, chiste e, no meu caso, uma crítica política ao chefe do jornalismo do maior monopólio da América Latina.

Não existe liberdade de expressão nem na própria mídia.

Se alguém elogiar um político do qual a mídia não gosta, é demitido.

Se alguém fizer uma charge crítica ao político que a mídia gosta, é demitido.

O jornalismo brasileiro encontra-se cada vez mais oprimido por um patronato sectário.

Não há liberdade nenhuma!

Enquanto todas as profissões liberais se expandem no Brasil (médicos, advogados, arquitetos, etc), o jornalismo declina.

Os salários são cada vez menores, há cada vez menos empregos. Os jornalistas se sentem cada vez mais oprimidos nas redações.

Não podem pensar, não podem falar, não podem desenhar, não podem sequer desabafar nas redes sociais.

Quer dizer, podem desabafar sim, desde que o desabafo seja agradável aos patrões!

Podem falar o que quiser, desde que toquem conforme a música dos barões da mídia!

E agora a mídia brasileira, uma mídia monopolista, conservadora, golpista, astutamente, toma para si a bandeira de Charlie, um jornalzinho nascido na luta contra os monopólios, contra os conservadores, e que sempre defendeu, de verdade, a democracia.

No enterro de Charb, seus amigos cantaram a Internacional, a famosa canção revolucionária, com os punhos erguidos, e Jean-Luc Melechon, uma das principais lideranças da esquerda francesa, fez o discurso principal.

Melechon foi o candidato a presidente da Frente de Esquerda, nas eleições de 2012. É um homem público extremamente sério e respeitado pela esquerda européia.

A esquerda francesa defende a Palestina, defende os imigrantes, defende todas as minorias, lança candidatos muçulmanos, contra uma direita cada vez mais racista, cada vez mais reacionária quando o tema é imigração.

A nossa mídia nunca fez um “Globo Repórter” em detalhes sobre o socialismo francês, que inclui um sistema tributário progressivo, leis sobre a herança e sobre as grandes fortunas, educação e saúde públicas para todos.

O socialismo francês hoje está em crise inclusive por seus excessos, e pelos vícios do próprio homem. Por exemplo, há 25 anos, o Estado francês, a partir de conselhos de psicanalistas, começou uma nova política em relação aos órfãos. Ao invés de orfanatos, as crianças eram alocadas em famílias que receberiam auxílio do Estado para criá-las. Resultado: uma quantidade crescente de famílias que rejeitavam os filhos quando este completavam 18 anos, e o Estado parava de pagar o auxílio.

Os terroristas do atentado são um exemplo. Eles foram criados por famílias que recebiam auxílio do Estado, e foram rejeitados em seguida, ingressando no mundo do crime e, depois, aderindo ao terrorismo.

A mídia brasileira é uma talentosa alquimista. Ela consegue inverter tudo. No primeiro dia da ditadura, os jornais diziam que a democracia tinha voltado.

Transformaram a democracia de Jango em ditadura, e a ditadura em democracia.

E agora transformam um jornalzinho comunista-libertário de Paris em ícone da sua visão distorcida, monopolista, hipócrita de liberdade de expressão!

Os chargistas do Globo apenas podem fazer charges que corroborem a linha reacionária do jornal.

Nenhum chargista do Globo tem ou terá liberdade de expressão para praticar uma arte livre e irreverente!

Sobretudo se a crítica deriva de uma ideologia socialista, anarquista ou libertária, como era a dos chargistas do Charlie.

Ao contrário, a mídia demite imediatamente qualquer empregado que tenha manifestação de livre pensamento, sobretudo se esta liberdade se volta em defesa da classe trabalhadora.

O controle da narrativa permite à mídia criar um universo paralelo, para dentro do qual até mesmo a esquerda se vê abduzida.

No afã de ser contra a mídia, muitas vezes fazemos exatamente o jogo dela.

A mídia, malandramente, pegou o discurso de liberdade de expressão, que é um discurso vencedor, e passou a defender um Charlie e uma França que sempre representaram tudo que a nossa mídia não é: socialista e libertária.

No grande jogo da geopolítica mundial, um jogo hoje profundamente midiatizado, a mídia brasileira quer posar ao lado dos vencedores, mesmo que estejamos falando de um jornaliznho comunista e libertário de Paris.

No fundo, ela age certo.

A esquerda, neste caso, é que pode ter cometido um erro, ao se deixar levar por um pensamento binário (a mídia é favor, então sou contra), permitindo que a mídia brasileira se finja de paladina de valores que ela, a mídia, historicamente, nunca defendeu: a democracia e a liberdade de expressão.

A mídia brasileira, tal como ela é hoje, se consolidou na ditadura.

Jornalzinhos como Charlie Hebdo, havia de montão no Brasil na década de 60, atendendo a atmosfera da época, profundamente libertária. Todos foram censurados. Os jornalistas e chargistas só encontraram emprego em dois ou três jornais do eixo Rio e São Paulo.

Sem concorrentes, sem outros jornais, empresas como Globo e Folha passaram a dar as cartas na opinião pública brasileira, durante décadas, e sua influência cresce vertiginosamente após a redemocratização.

Os poucos artistas do texto e da charge que sobreviveram à hecatombe da ditadura e às terríveis crises econômicas das décadas de 80 e 90, tiveram que se tornar submissos intérpretes do pensamento patronal.

Em suma, temos que deixar isso bem claro: a mídia brasileira é exatamente o contrário de tudo que se pode chamar de liberdade de expressão.

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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14 Comentários
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  1. helcio dias de sa

    19 de janeiro de 2015 5:42 pm

    a midia brasileirra nao defende liberdade de expressao.

    O cartel midiatico brasileiro é “dono da nossa liberdade de expressao”. Quem manda é o dono.E SEFINI.

  2. altamiro souza

    19 de janeiro de 2015 5:42 pm

    ótimo texto do rosário,

    ótimo texto do rosário, simples, objetivo.

    de fácil entendimento.

    mas profundo em sua denúncia do que é verdadeiramente

    a tal da grande mídia e suas falácias e golpísmos.

    é preciso exagerar um pouquinho para aperfeiçoar esse entendimento.

    é como se vivessemos, sob a ditadua dessa grande mídia

    – pensamento único, fundamentalista -,

    nos tempos da inquisição.

    os herejes, os que defendem os governos trabalhistaas

    ( vargas, jango, lula, dilma),

     são lançados na fogueira dos assassinatos de reputação, etc e tal.

    são condenados a priori, sob a justificativa até do tal domínio dao fato

    inventado por joaquim barbosa, servidor do pig, no caso do mentirão, por exemplo.

     

    os chamados colunistas –

    calunistas torquemadas –

    da grande imprensa (como merval pereira,globo, e reinaldo azevedo,veja,)

    abrem suas caixa s de ferramentas pontiagudas para ferir seus adversários.

    ancorados na tal da liberdade de imprensa (empresa deles, claro).

    e impedem que o outros tenham voz.

    caixa de pandora, caixa de males  recorrentes.

    isso é tirania do pensamento único, tortura cotidiana contra

    os segmentos que eles querem destruir,a ditadura midiática

      impregnando de ódio todas as telinha e manchetes destes veículos,

    impondo o medo e o diversionismo social…. 

    um terror que praticamente naturalizou-se

    nestes últimos doze anos de governo progressista.

    como o discurso  da liberdade de expresão obviamente

    é secular e será sempre vencedor, essa grande mídia

    usa esse discurso para permanecer dizendo  o que quer,

    sem dar voz,nem  resposta aos outros que ataca.

    e a justiça e o congresso aceitam tudo…em nome do quê?

     

  3. msilve

    19 de janeiro de 2015 5:43 pm

    Nossa Miguel. Concordo

    Nossa Miguel. Concordo plenamente com tudo o que voce disse aqui no texto. Mas não sei porque, fiquei com uma sensação que voce quer a todo custo nos convencer do seu “Eu sou Charlie”. Esquece cara. Esta voce perdeu na blogosfera.

  4. Nonato Amorim

    19 de janeiro de 2015 6:23 pm

    OS CULPADOS SÃO: DILMA & LULA

    . . . que se acovardaram diante da necessidade de fazer o enfrentamento com os grupos de mídia desde o primeiro dia em que puseram o pé no Palácio do Planalto. Vou repetir a COVARDE entrevista que o Lula deu para a Revista Piauí, ainda em janeiro de 2009, com a aprovação pessoal e do governo nos píncaros. Falou cada besteira de corar a todos. Leiam e reflitam:  

    http://extra.globo.com/noticias/brasil/a-integra-da-entrevista-do-presidente-lula-revista-piaui-188864.html

  5. Luciano Lira

    19 de janeiro de 2015 6:50 pm

    Isso fica mais claro em ano

    Isso fica mais claro em ano de eleição para presidente. As suas entrevistas parecem mais um interrogatório. Tentam passar para a população como se fossem corretos, democráticos mas ao fundo, implicitamente não conseguem esconder que são meros ditadores em decadência. Depois que passa as armações, a gente começa a rir de tanta maldade. Como se comportaram os entrevistadores diante da presidenta Dilma em relação ao Aécio e a Marina. É só assistir de novo, com calma, e pedirem a um grupo de jovens para dizer analisar que foi tratado cada um dos entrevistados. A resposta vai ser unânime… A mídia realmente, a brasileira com raras excessões, nunca foi a favor da liberdade de imprensa… Os blogs incomodam porque conseguem desmitificar suas edições parciais…

     

     

     

     

  6. Luiz Antonio Antunes Machado

    19 de janeiro de 2015 7:22 pm

    Cartel

    A dita grande imprensa brasileira é um cartel, para haver liberdade de expressão é necessário um governo muito mais firme que este aí, que defenda os blogs, a pequena imprensa, e que seja verdadeiramente democrático, que abra a imprensa para grupos estrangeiros, nada de reserva de mercado, isso é um atraso. Estamos vivendo a globalização ou não ? Somos a favor da concorrência ou não? Somos capitalistas ou não ? Nada de meias medidas, este governo necessita de um choque de firmeza, na boa, devagar, dentro da lei, nada de confronto inútil, ou atropelo, mas firmeza e verdade.

  7. Maria Luisa

    19 de janeiro de 2015 7:58 pm

    O duplipensar da midia brasileira

    Absolutamente correto, Miguel, que anda com a pena afiada. Gostei tambem da sua série “Porque sou Charlie Hebdo”. Artigos esclarecedores sobre qual o tipo de jornalismo pratica jornais como Charlie Hebdo. 

    Sobre o estado socialista francês ou o estado do bem-estar social, não interessa à nossa midia divulgar, explicar ao brasileiro como vivem os franceses porque eles são contra qualquer possibilidade de maior divisão social. Imposto sobre fortunas ? Taxação sobre ganhos (mais-valia)? Impostos em ordem descrente?  Se até os programas sociais colocados em pauta pelos governos do PT foram vilipendiados por toda a grande imprensa, não querem mudança coisa nenhuma. Não desejam um povo mais instruido e um estado mais social e plural.

  8. Alessandre de Argolo

    19 de janeiro de 2015 8:44 pm

    Ainda há esperança para o Cafezinho

    Pelo menos ele é Charlie e não saiu atirando contra o jornal, contra as charges e tal e coisa.

  9. sergio m pinto

    19 de janeiro de 2015 11:22 pm

    O negócio da mídia nativa é a

    O negócio da mídia nativa é a defesa da libertinagem de expressão. Coreto, Dona Judith Brito?

  10. peregrino

    19 de janeiro de 2015 11:34 pm

    em todo encadeamento lógico…

    e chamo de lógico apenas por ser facilmente previsível, realmente não há liberdade de expressão

    mídia brasileira é uma grande merda, mas também pelo fato de seus profissionais serem excessivamente obedientes ou dependentes, em termos de amestrados e mal pagos

    para que se preocupar com uma mídia dessa, perdendo leitores e seguidores a cada dia que passa?

    e entre ser seguidor e ser simplesmente conduzido às cegas há uma grande diferença

    muito difícil, em todo encadeamento, uma verdade contrariar outra e, ou exatamente  por isto, ou enquanto não acontecer, deixemos que sigam mentindo cada vez mais ou alargando seus abismos, onde todos caem a um só tempo.

    1. peregrino

      19 de janeiro de 2015 11:49 pm

      um dia entenderão, como os charlies já entenderam…

      que liberdade sem limites é adentrar e se expor nos extremos

      e nos extremos só há caos, tensão, perigo, o imprevisível ou a ruína

  11. will

    19 de janeiro de 2015 11:39 pm

    a liberdade de expressão continua a fazer vítimas

    http://rt.com/usa/223895-jim-clancy-cnn-leaves/

  12. Maria (Maria Carvalho)

    20 de janeiro de 2015 12:07 am

    Resumidamente:

    (…)

    “A mídia, malandramente, pegou o discurso de liberdade de expressão, que é um discurso vencedor, e passou a defender um Charlie e uma França que sempre representaram tudo que a nossa mídia não é: socialista e libertária.”

    (…)

  13. Mario Alexandre T.

    20 de janeiro de 2015 8:48 pm

    Bla bla bla

    Mídia nenhuma é nunca foi democrática em lugar nenhum do mundo, nem na França. Se assim fosse os Islandeses teriam informação suficiente e não permitiram que o sistema bancário fosse totalmente regulado pela iniciativa privada e tivesse freios para que especuladores não o quebrassem , que fosse totalmente transparente e com auditorias periódicas, como deveria ser no mundo inteiro.

    Essa história de achar que apenas quebrando o monopólio midiático e regulamentar o Direito de Resposta é de uma inocência atros. Já escrevi aqui uma vez, e se fosse barão da mídia eu lutaria por isso, claro que às escondidas, pois é um tiro no pé de quem defende essa tolice.

    Quebrando o monopólio melhora ? Sim, melhora, pois pulveriza. Resolve ? Não, não resolve. pq quem assumirá esse nicho Brasil serão oligarcas regionais, serão laranjas dos grande barões mas não serão os defensores da real Democracia midiática, aqueles que publicam a resposta de alguém que foi denunciado por eles sem esperar a justiça, algo que sinceramente, é raro de se ver, até na mídia dita progressista.

    Num país com uma justiça classista e medíocre como a nossa, quem os juízes favorecerão ? Foi o Nassif  que ganhou em primeira instância ou o Kamel ? É muita, mas muita inocência de algumas pessoas.

    Aqui no ABC tem o Diário do Grande ABC, que pelo que sei, sempre teve tiragem maior que Folha e Estado. Mas, de quem é o Diário do Grande ABC e tantas mídias alternativas ? De família progressista que dá Direito à Voz com direito de igualdade para o patrão e para o funcionário, para o acusado e para o acusador, para o pobre e paro o rico ?

    Se pulveriza da forma que está isso vira samba do crioulo doido, cada um defendendo o teu quinhão regional, que já acontece com as retransmissoras. É isso que todo mundo quer ?

    Tem que ser cirúrgico. Direito à Voz e ponto final. Ando rescrevendo isso aqui sempre, que o denunciado tenha Direito à Voz no corpo da matéria e ponto final. Isso com a internet já é possível, é só criar as regras e regulamentar. E claro, que se exijam provas para que sejam feitas as denúncias.

    Quero ver a Veja fazer a capa que fez contra a Dilma se na mesma revista já estivesse a resposta, sem edição, obviamente. Quero ver se teriam coragem de publicar sem nenhuma prova, sem mesmo evidências.

    Mas aqui a maioria defende o Direito de Resposta de uma Justiça que tanto criticam e sabem que tem lado. Sinceramente, queria mesmo entender isso.

    Se for feito a regulamentação do Direito de Resposta como querem e regulamentação da mídia da mesma forma que andam fazendo, esqueçam, é o último prego no caixão da sonhada mídia realmente democrática.

     

     

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