Por MiriamL
Do Sul 21
Um local da cidade: Bamboletras — a pequena aldeia gaulesa do Nova Olaria
Cercada por megalivrarias e sem nenhuma poção mágica a que possa recorrer, a irredutível Bamboletras resiste. Alheia ao modelo triunfante de livrarias onde os livros são procurados em terminais de computador – Vou ver se tem, poderia soletrar para mim?, diz o atendente, dirigindo-se a um terminal livre — , na pequena Bamboletras a resposta vem imediata e a caminhada é até a estante. Com um dedo, o livro é puxado e mostrado e, se o usuário perguntar, poderá ouvir uma opinião a respeito. Os livros do acervo não são quaisquer. Tudo é escolhido e conhecido pela dona e seus funcionários. Pois quem entra na Bamboletras sente que ali a literatura não está pressionada (ou demolida) sob pesadas cargas de auto-ajuda, vampiros e tons.
A dona e responsável pela pequena e acolhedora Bamboletras (R. Gen. Lima E Silva, 776, Centro, Porto Alegre, tel 51 3221-8764) é Lu Vilella, a jornalista com pós-graduação em literatura que a criou há 18 anos. “Quando eu estava na pós, enquanto meu gosto ia ficando mais requintado, notei que todos os títulos que eu queria ou precisava ler não estavam nas livrarias. Então eu pensei que Porto Alegre precisava de um local especializado em literatura”.
E as megalivrarias? “Quando a Livraria Cultura apareceu em Porto Alegre, a Bamboletras sentiu o impacto”. Naquela época, Lu reuniu sua equipe e disse que teriam que melhorar em tudo: na organização do espaço, no acervo, no atendimento e na atenção para as boas novidades. “Porém, se a comunidade não demonstrasse interesse numa pequena livraria de qualidade, nós simplesmente fecharíamos, pois, se é para vender qualquer coisa, prefiro fechar. Eu só vendo o que conheço e gosto”.
Hoje, Lu diz que está em seu barquinho vendendo livros entre vários pesqueiros japoneses – Cultura, FNAC, Saraiva, etc. “Minhas entrevistas para contratar funcionários começam por ‘Qual foi o último livro que tu leu?’ ou O que tu tá lendo agora?’ e ‘Quais são teus escritores preferidos?’. Se as respostas não forem aquelas típicas de quem é apaixonado, não rola, não tem como. Preciso me diferenciar, preciso de gente conhecedora. A Bamboletras abre das 10 às 22h, tenho que administrá-la, não posso atender todo mundo, ainda mais que vendo 90% do meu estoque na loja, só 10% são encomendas”.
Mas há situações bastante graves. Lu Vilella diz que o tamanho das megalivrarias e o fato de elas possuírem administrações centralizadas garante a elas lucro maior. Enquanto livrarias como a Bamboletras compram continuamente pequenas quantidades, as mega fecham pacotões por preços unitários menores. O preço de capa deveria ser o mesmo, mas isso é só teoria. “As megalivrarias compram tão barato que acabam não respeitando o preço de capa e vendendo por menos. Na Europa não tem conversa, o preço de capa é sempre respeitado. Aqui, as megas e suas compras centralizadas estão mudando para pior a cadeia do livro. Antes, quando eu não tinha um livro, pedia para um distribuidor gaúcho e recebia o volume poucas horas depois. Como as megas não compram mais dos distribuidores locais, eles estão falindo e nós temos que comprar direto da editora, pagando frete, tendo que obedecer aos pedidos mínimos delas, etc., que são coisas que prejudicam a diversidade do meu acervo. Nisto, as megas nos prejudicam muito, além de lucrarem mais e ficarem cada vez mais mercadão. Minhas encomendas não estão tão rápidas como eram antes por culpa do fechamento das distribuidoras”.
Lu Vilella afirma que há algumas questões a respeito do livro que deveriam ser revistas pelos políticos. O preço fixo de capa é uma delas. Ela diz que se a Bamboletras não a absorvesse tanto, estudaria as leis de outros países para conversar com mais propriedade com os políticos que são clientes da livraria. “Há questões que deveriam ser mexidas antes que todas as livrarias fiquem com o mesmo estoque, mais ou menos como é a Feira do Livro”.
E, aproveitando o gancho, finalizamos perguntando por que a Feira do Livro é tão repetitiva e ruim. A resposta vem simples: “É que na Feira há poucos livreiros, e quem tem diversidade de acervo? As editoras e os distribuidores é que não”.
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