5 de junho de 2026

Da banalidade da vida ou de “fazedores de anjos”, por Shellah Avellar

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Da banalidade da vida ou de “fazedores de anjos”

por Shellah Avellar

Tenho pensado muito nos últimos tempos, eu diria quase todo dia, sobre estes públicos de risco e em situação de exclusão.

Mas, apesar de ser sensível e solidária a todo este leque de pessoas sob ataques e perseguições estúpidas, a questão da mulher e seu lugar no mundo volta sempre a incomodar.

Até porque também faço parte deste target.

Na segunda-feira (15), no final da tarde, na fila do supermercado, uma senhora entrou meio apavorada dizendo que o vigia de uma casa em obras no Brooklin, zona sul de São Paulo, onde vivo, encontrou morta uma menina de aparentemente 10 anos, com sinais de violência e estupro.

As reações? Normais: de espanto, e indignação. E não faltou quem dissesse que as meninas “de hoje”, aos 10 anos, já parecem mulheres, e se vestem de maneira extremamente sensual.

Daí, me veio à cabeça a mulher saudita que foi estuprada e “de quebra”, por isso, recebeu 200 chibatadas e prisão por 6 meses.

E pensei na menina do meu bairro. Que nome teria? Teria pais vivos e presentes? O que estaria fazendo por ali?

Resolvi batizá-la de “Angel”. E tentei desenhá-la no auge de seus 10 anos: Será que ia à escola? Fazia todas as refeições do dia? Tinha sonhos? Gostava de estudar? O que será que ela gostaria de ser, ou vir a ser ou de ter sido? De amar e de ser amada?

E esta coisa me pega e me remexe e me embrulha, num misto de cansaço e solidão.

A gente, que escreve, pode esboçar os afrescos do imaginário e dar à menina o retrato que merece: “simplesmente menina”.

Penso nas meninas de 10 anos que conheço. Na menina que fui. Na menina que minha filha foi.

Nas meninas – mulheres de todos os matizes que vivem por aí afora. Nas molecagens. No abandono das bonecas e em suas recaídas. Nos bichinhos de pelúcia que vão ficar sem seu abraço companheiro de noites insones ou medrosas. Dos olhares românticos para aquele menino ou menina especial. Dos diários cor-de-rosa. Dos papéis com marcas do batom das mães. Das intermináveis tagarelices ao celular com as melhores amigas. Dos vestidos floridos e esvoaçantes. Da ansiedade das festas. Das tristezas sem motivo. Da euforia ociosa de existir e ter a vida pela frente.

A vida que se banaliza pelo instinto selvagem. Pelo animal que grita e se sobrepõe ao racional impotente.

A vida, em que num átimo a ternura dá lugar às línguas sedentas, mãos violentas, órgãos invasores, de homens que ignoram a nobreza em si próprios.

Será que tentou resistir ao flagelo? Ou aquela memória não esperava a derrota para se revelar?

Teria uma fé clandestina que a mantivesse viva? Para testemunhar seus horrores?

Será que tentou gritar? Será que algum transeunte a ouviu, mas não tinha “tempo” de parar para averiguar se alguém de sua “raça humana” precisava de ajuda?

Mas, após o fato “consumado”, muitos destes transeuntes apressados têm tempo de parar, para saber o que houve, para ter o que contar quando voltar para sua casa.

E alguns destes ficam ali por horas, se alimentando da dor alheia.Para compensar a opacidade de seus dias. E contam um conto mais um ponto. Porque, quanto mais sensacional forem suas invencionices, mais ouvintes gulosos serão saciados. Até a nova tragédia urbana.

Saio correndo do supermercado, apresso o passo, cada vez mais fortemente.

Preciso ir para casa. Chorar baixinho por Angel, esta desconhecida tão familiar.

A melancolia me leva até o universo das luas, que se compadecem dos artistas e fazem brotar, de suas feridas, imagens oníricas que os desprendem de sua realidade fúnebre.

E me inebrio com o farfalhar de asas de Angel, que alça voos mágicos para bem longe das ninharias e dos monstros antropoides que, com seu bestiário, insistem em molestar as crianças e “fabricar anjos”.

Aceno para Angel, que deixa atrás de si rastros de estrelas e poeira de fim de mundo.

 

Arte: Shellah Avellar

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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  1. Preocupado-rj

    19 de agosto de 2016 10:23 pm

    As doenças trágicas do machismo…

    Nassif. Este texto de Shella navega sobre sombras usando  termos poéticos que ocultam ou escondem a nossa realidade concreta surgida com a doença da “cultura machista”. Que é mais opressora, a mais depravada e a mais doentia de todas as outras doenças. Foi criada a “priscas” eras pelo gênero homem que passou a possuir os “meios de produção e o capital deles resultantes”. Em seguida a este poderio absoluto acima do bem e do mau sobre todos os seres vivos, eles, os gêneros homem, acreditaram e acreditam  até hoje que subjugando o gênero Mulher, os seus poderes seriam os maiores que os de  todas as suas conquistas. Acreditavam e acreditam até hoje que o gênero Mulher é um Ser inferior e, para tanto, bastaria inventar as “religiões” ou “seitas” , a figura da “traição” e ainda colocar a sua Moral entre suas próprias pernas. Estava é está até hoje e de maneira perversa e sutil o doentio conceito de da inferioridade do gênero feminino.As Mídias (meios de enganação de massa), escritas, faladas e televisadas, oligopolizadas, e também comprometidas com a “misogenia” e com o Capital Financeiro reforçam esta tragédia dantesca que vivenciamos até os dias de hoje, ininteruptamente.Acontece que  o gênero homem desconhece até hoej que a nossa Mãe Natureza não dá saltos e portanto quando eles em todos os recantos do Mundo A contraria de maneira imbecil a predestinação dada por Ela à Mulher através da reprodução da Vida, o gênero homem, todos eles , passam a sofrer desvios comportamentais físicos, mentais e psíquicos de inumeráveis, dentre eles, o do “homossexualismos” enrustidos e a “pederastia”, sem excceções. Freud, o criador da psicanálise, explica de maneira didática e irrefutável estes fenômenos desviantes, incluindo os sexuais de tipos deiversos com características p´roprias em cada homem.É como uma ferida escondida no interior de cada “machista” e nunca cicatrizará, enquanto ele ou eles não perceberem que esta doença social vem do fato delees não valorizarema verdadeira importância do gênero Mulher sobfre todos os outros Seres , incluindo o gênero homem, que é também, apenas um coadjuvante. Muiito embora ele não perceba este fenômeno, que é óbvio e ululante, tem como castigo carregar todos estes desvios comportamentais, todos eles, enrustidos até o fim de sua vida. Nelson Rodrigues, nosso grande dramaturgo, sempre diz; “…se todos os homens conhecessem a intimidade de cada qual, ningúem se falaria” , e acrescenta ainda: “…se os fatos provam tudo isso, pior para os fatos”.

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