
Do Politike
A cultura do estupro é a expressão mais radical da cultura da superioridade
Vivian Alt
Ninguém educa um filho para ser um estuprador, mas criamos meninos imbuídos de um sentimento de superioridade em relação às mulheres
Este é um texto especial da editora Vivian Alt em decorrência do recente caso de uma jovem violentada por um grupo de homens na cidade do Rio de Janeiro. Embora seja um tema fora do perfil editorial do site, o Politike sente a necessidade de debater o assunto com seus leitores.
Imagem: Júpiter, o mais poderoso dos Deuses romanos, toma a forma de um touro branco e convence a princesa Europa, por quem estava apaixonado, a monta-lo. Quando ela o faz, ele foge para a ilha de Creta, onde a estupra. O quadro é de Titian (Tiziano Vecellio), pintor veneziano do século 16.
Há quase uma semana, falamos intensamente sobre a “cultura do estupro”, que contribuiu para uma brutalidade cometida contra uma menina de 16 anos na cidade do Rio de Janeiro. Essa mesma cultura deixou os criminosos que a estupraram coletivamente confortáveis o bastante para publicarem fotos e um vídeo do crime em uma rede social. Essa cultura também permitiu que amigos desses indivíduos ridicularizassem a vítima ao comentarem as imagens.
Foi necessário que essas imagens grotescas parassem na internet para que um movimento de revolta ocorresse, levando à discussão da “cultura do estupro”. Mas o que significa, na realidade, essa cultura do estupro?
A maioria dos comentários, textos, artigos e postagens em mídias sociais fala sobre uma cultura que pune as vítimas enquanto os perpetradores são isentados ou desculpados por diferentes motivos. Existe, contudo, muita coisa por trás da cultura do estupro. Discutimos sobre a necessidade de educar as meninas para que não “provoquem” um estupro e de educar os meninos para não estuprarem. Ninguém ensina meninos a estuprar, mas os ensinamos a sentirem-se superiores. Mesmo que involuntariamente, as famílias e a sociedade mostram diariamente aos meninos e homens que eles estão em vantagem na vida. Que são superiores.
Os atos cotidianos são tão pequenos e sutis que é difícil perceber como contribuímos para a cultura da superioridade – e, finalmente, do estupro. Tudo começa em casa. No café da manhã, no almoço, no jantar, ou no churrasco, com aquela piadinha machista tão sem maldade do papai, do titio, dos amigos da família. E aquela clássica frase no trânsito: tinha que ser mulher! Quem não ouviu? Não é grosseiro, não é maldoso. É sutil, mas existe. E em muitas famílias (quiçá na maioria) ocorre com frequência. Na televisão, em quase toda a programação dos canais abertos temos referência à mulher como objeto: comercial de cerveja, novelas com os clássicos estereótipos, programas de auditórios (a Banheira do Gugu e as dançarinas do Faustão são exemplos famosos), entre outros. Também se tem a reprodução do ideal da mulher: nos comerciais de produtos de limpeza ou cozinha, cuidando das crianças, sendo bela, recatada e do lar.
Enquanto crescemos, ouvimos nossos pais censurarem nossas roupas e nossos corpos, mesmo que não de forma bruta. Um “zelo”, um cuidado de quem não quer ver sua filha ser vítima de violência. Para os meninos, a preocupação é muito menor. Antes de saírem de casa, as meninas ouvem diversos conselhos: cuidado com quem você conversa, preste atenção na hora de comprar bebida para ver se não colocaram nada dentro, não fique sozinha em lugares isolados, não pegue táxi sem ser da cooperativa, etc. Em países como Índia e China, por exemplo, vai-se além. Em ambos os países, é proibido saber o sexo do bebê antes do nascimento para evitar abortos de meninas. Na Índia, há inúmeros casos de desnutrição entres meninas, uma vez que famílias de menor renda tendem a priorizar a alimentação de meninos.
Os meninos crescem nesse mundo. No Brasil, eles veem e ouvem tudo isso a vida inteira – da piada aos conselhos, dos comerciais aos programas de TV. E é inevitável perceberem que têm menos restrições e menos dificuldades. Nasce, assim, um sentimento de superioridade. Claro que muitos não veem essas vantagens e privilégios como superioridade inerente, mas sim como uma construção injusta da sociedade. Há outros que se entendem superiores e, embora não pratiquem violência contra mulheres, não contestam quando outros (conhecidos ou não) cometem tais crimes.
E sempre existirão aqueles que levam a cultura da superioridade ao extremo. E esse extremo chama-se violência, estupro. Ninguém educa um filho para ser estuprador, mas criamos meninos imbuídos de um sentimento de superioridade. Não atentamos para aquilo que cotidianamente pode transforma-los em pessoas que praticam ou compactuam com a violência contra a mulher. Esses detalhes do dia a dia também reforçam nosso hábito de culpar a vítima: a saia curta, o batom vermelho, o decote. “Mas ela estava sozinha”, “estava bêbada”, “estava drogada”, “estava no lugar errado”, “estava dando em cima do cara”, “estava pedindo”. Não seria desumano usar esses mesmos argumentos para “justificar” o porquê de um homem ter sido estuprado? Porque estava bêbado, drogado, sozinho, ou se estivesse dando em cima de uma mulher, etc.
O estupro é a expressão mais radical e mais dramática desse sentimento de superioridade. Será sempre muito complexo combater o estupro enquanto homens se julgarem superiores às mulheres. A cultura do estupro seguirá firme enquanto acharmos que falar mal de machismo é “mimimi”. Enquanto continuarmos tratando o respeito à mulher como uma luta feminista e não da humanidade. Enquanto acharmos que igualdade de gênero se refere exclusivamente aos direitos das mulheres e não aos direitos de todos nós.
maria rodrigues
30 de maio de 2016 5:09 pmDas tantas expressões e modos
Das tantas expressões e modos aparentemente sutis, muito daqueles que passam batido no imaginário social, citaria um que um dia disse uma jornalista:
“A rópria cultura que exige do homem um corpo saradão, ou abrutalhado, que é a mesma que define a mulher modernosa como aquela a mais frágil possível em magreza, quem sabe raquitismo seria mais apropriado, incita a violência deles contra elas.”
Aí, vendo há poucos dias em um dos blogue uma propaganda da DOLCE GABANNA, vê-se que a jornalista tinha razão no que falava. Na propaganda, de uma fotografia supimpa, tem-se uma mulher jovem, belíssima, magérrima, com roupas provocativas (?), saltos altos, deitada no chão, insinuando que os homens que estavam de pé, ao lado dela, a violentavam. Temse o sentindo de uma dinâmica, do que houve e dou estava por vir. Eles todos, apresentando corpos belíssimos, saradões, bem vestidos, mas mostrando o peito “varonil”, uns segurando algemas, etc. Não lembro de tudo, Sei que a propaganda foi bastante comentada por esses dias, algumas mulheres pedindo para boicotar os produtos da empresa de moda.
Conde de Rochester
30 de maio de 2016 5:35 pmO que é ESTUPRO???
[video:https://www.youtube.com/watch?v=24AiDztrB2E%5D
Como é que diante de um video destes os tão altruistas defensores de direitos sociais não se calam envergonhados.
Meire
30 de maio de 2016 5:58 pmO Deus Pai de Jesus Cristo, não é um Deus patriarcal.
Deus Pai também é Mãe
http://www.vidapastoral.com.br/artigos/trindade/deus-pai-tambem-e-mae/
Por Profª Margarida Luiza Ribeiro Brandão – Publicado em Setembro-Outubro de 1999 (pp. 2-8)
( nota minha – 12«Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar. 13 Quando vier o Espírito da Verdade, ele encaminhará vocês para toda a verdade…” (Jo 16)
A Igreja nos conclama a aprofundar de maneira especial nossa reflexão sobre Deus Pai, no desenrolar deste ano de 1999. É um apelo que indica caminhos para orientar nosso processo de conversão, na busca de proximidade cada vez maior com Deus[1]. Essa busca se revigora na contemplação, no estudo e no compromisso ético de lutar pela transformação da realidade em que vivemos as relações cotidianas de nossa experiência de vida e de fé. Ela renova nossa compreensão do sentido profundo da relação do Deus Pai revelado por Jesus Cristo a toda a humanidade e a cada pessoa em particular. Ela ilumina nossa compreensão do mundo e da história, na qual estão imbricadas a história humana e a história da salvação.
Neste fim de milênio, torna-se cada vez mais nítida a certeza da impossibilidade de viver este processo contínuo de conversão, sem desenvolver uma sensibilidade ecológica local, interplanetária e cósmica. A responsabilidade de mediadores entre o mundo criado e Deus, na perspectiva cristã, tem uma dimensão escatológica, da terra ao céu e do céu à terra. A referência à relação entre o céu e a terra, tão frequente na Bíblia, na teologia, presente na oração do Pai-nosso, indica uma responsabilidade que é, a um só tempo, dom e tarefa humana (cf. Gn 1,1; Is 66,22; Mt, 6,10).
Responsabilidade atenta à necessidade de um engajamento universal, que deve andar junto à crítica profética da fé, para que nosso mundo possa corresponder à criação de Deus. Para isso, precisamos compreender nosso parentesco com todo o Universo, com os seres humanos, os animais, as plantas, o ar, a água, o solo, os micro-organismos, numa profunda interconexão de todas as coisas.
Falamos a partir deste contexto amplo, identificado com as afirmações da fé cristã sobre Deus Pai, nas quais se encontra o apelo cristão à fraternidade universal. Esse apelo fortalece o engajamento pessoal cotidiano, comunitário, nas instituições, nas estruturas, nas exigências éticas da vida social e eclesial. O Deus Pai de Jesus Cristo, por ele carinhosamente chamado de Abbá, é um Deus Trindade, comunidade de amor, relação e vida — não é um Deus patriarcal[2]. Nossa imagem de Deus Pai não pode deixar de lado sua entranhada misericórdia, seu coração de mãe, que desmascara o caráter vindicativo da justiça humana, que projetamos automaticamente em Deus (cf. Lc 6,36)[3].
À medida que nos aproximamos de Deus Pai, sua imagem se torna mais presente no meio de nós e aumenta a nossa responsabilidade de testemunhá-la no mundo em que vivemos. Nesse sentido, o que se deve acentuar é a proximidade de Deus e de seu Reino, e não traços masculinos e patriarcais atribuídos à pessoa divina. Nossa linguagem sobre Deus é palavra de homem e de mulher, comunicada através de símbolos femininos e masculinos, construídos pela experiência humana através dos tempos.
1. Nossa linguagem sobre Deus Pai
Quando falamos de Deus Pai e da relação entre Deus e as criaturas humanas, entre Deus e o mundo, nosso discurso é inevitavelmente analógico, aproximado, metafórico e simbólico. A origem desse modo de se expressar provém do Antigo Testamento, que, em uma linguagem profundamente religiosa, nos apresenta um Deus sempre presente nos acontecimentos terrestres e na vida do povo, nos quais intervém, age, fala, acolhe, julga, louva e pune. Esse modo de expressão é contínuo, de certa maneira, no Novo Testamento e ao longo da história do cristianismo[4]. A bem da verdade, temos de nos precaver para não construir uma imagem desfocada de Deus, com as limitações de nossa linguagem sobre ele. Por isso mesmo, no campo da espiritualidade e da ética, a atenção deve ser redobrada para não projetarmos em Deus elementos especificamente humanos de nossa linguagem, que possam conduzir a um posicionamento errôneo ante situações existenciais de difícil decisão.
A reflexão sobre a face feminina de Deus não é tema teológico recente. Atualmente, essa reflexão apresenta nuanças muito próprias, quando se evidencia a importância da experiência das mulheres como fonte primária e contexto para viver e compreender a palavra de Deus para a humanidade[5]. Esse procedimento leva em conta a perspectiva das relações de gênero como categoria de análise, como chave de entendimento da realidade. Essa categoria de gênero, usada na reflexão teológica, demonstra a persistência inaceitável de desigualdades de todo tipo entre mulheres e homens, existentes na sociedade e mesmo na Igreja. Essas desigualdades precisam ser conhecidas, divulgadas e enfrentadas com discernimento e vigilância.
Quando abordamos a temática da face feminina do Pai, de Jesus Cristo, do Espírito Santo e nos referimos a textos bíblicos através de uma hermenêutica e de uma exegese estudadas com cuidado, a escritos abalizados de teólogas e teólogos, encontramos muitas indagações e certo grau de perplexidade. Muitas vezes, a veemência com que essas questões são colocadas indicam da parte dos que as apresentam o início de um processo de conversão. Mulheres e homens começam a compreender o sentido profundo do respeito à alteridade e da necessária relação de reciprocidade entre os lados feminino e masculino da experiência humana, especialmente à luz do caráter trinitário da alteridade divina: o Pai, o Filho e o Espírito.
O uso de metáforas femininas para falar de Deus faz parte desta reflexão, embora saibamos que a realidade divina transcenda todas elas, pois o mistério divino se situa além e acima de toda imaginação humana. No entanto, “o símbolo gera o pensamento”[6]. Nesse sentido, a metáfora é uma linguagem figurada, tentativa de falar de um mistério que escapa à nossa compreensão, com palavras de nosso cotidiano cujo significado conhecemos. A metáfora é mais uma explicação do que uma definição, mas faz pensar. Quando dizemos “Deus é mãe”, estamos nos referindo a Deus por meio da metáfora mãe, por trás da qual está a experiência feminina da maternidade. A consolidação dessa metáfora chega a transformá-la em “modelo”, o modelo de Deus como mãe, uma metáfora com “força estável”[7].
Se somos criados à imagem e semelhança de Deus, essa é uma fundamentação inegável de que podemos usar metáforas femininas ao lado das masculinas para falar de Deus (cf. Gn 1,27). Essa nova linguagem vem se expandindo nos grupos e nas comunidades eclesiais, à medida que as mulheres vão se encontrando em reuniões criativas, solidarizando-se na vida e na oração compartilhadas, na descoberta e no estudo conjunto de formas distintas de se falar de Deus, que ficaram esquecidas nas Sagradas Escrituras e na Tradição[8]. Ela significa um crescimento na “compreensão tanto das coisas como das palavras transmitidas, pela contemplação e estudo dos que creem, os quais as meditam no seu coração “(cf. Lc 2,19.51; Dei Verbum 8).
Essa contemplação e estudo encontram raízes firmes na maneira como são retomados criteriosamente pelas teólogas textos importantes das Sagradas Escrituras, dos Padres da Igreja e da reflexão teológica contemporânea. Não é possível abordá-los todos neste breve artigo. Lembramos os que nos parecem mais significativos para a nossa reflexão[9].
2. Raízes da nova linguagem
Tanto no Antigo como no Novo Testamento, existem alguns textos elucidativos. As citações não são numerosas, mas extremamente expressivas ao usar a linguagem do parto, do leite materno, das asas acolhedoras da mãe pássaro, do extremo cuidado do amor de mãe, para falar do mistério divino. Ao mesmo tempo, acentuam a constância do amor de Deus, que nos acolhe sempre e não nos abandona em nenhuma circunstância da vida, ao lembrar que muitas mães deixam seus filhos ou os tratam com violência.
Através desses textos bíblicos fica evidente o valor do corpo feminino, em si mesmo, como corpo banhado pelo sopro do Espírito, como gerador de vida, como criador de humanidade[10]. O modelo de Deus como mãe remete ao princípio criador e gerador de vida, ao afago, ao carinho, à capacidade de proteger e respeitar a formação e a autonomia dos filhos e filhas. A Mãe Criadora permanece intrinsecamente unida e se alegra com a criação e o crescimento do mundo, compadece-se de suas fraquezas, derrama seu amor poderoso para se opor a tudo o que possa prejudicá-lo e destruí-lo (cf. Os 13,8).
“Há muito que me calei, guardei silêncio e me contive. Como uma mulher que está de parto eu gemia, suspirava, respirando ofegante” (Is 42,14). “Por acaso uma mulher se esquecerá de sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho do seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem, eu não me esquecerei de ti” (Is 49,15; cf. 66,13). Há outros textos do Antigo Testamento que fazem alusão a Israel sofrendo as dores de parto (cf. Is 21,3; Mq 4,9-10; entre outros), mas aqui Iahweh-mãe aparece nitidamente como sujeito. No Novo Testamento, algumas epístolas também usam a linguagem do parto e do aleitamento: “Desejai, como crianças recém-nascidas, o leite não adulterado da palavra, a fim de que por ele cresçais para a salvação, já que provaste que o Senhor é bondoso” (1Pd 2,2-3; cf. 1Cor 3,1-2; 1Ts 2,7- 8; Gl 4,19)[11].
Como a criança que procura o apoio do colo materno, nos momentos de dificuldade e de alegria, e ao mesmo tempo busca se distanciar da mãe, na construção de sua própria autonomia, há uma frase nos Salmos que indica esta procura do refúgio divino nos reveses da vida. Com pequenas variações eles repetem: “Eu me abrigo à sombra de tuas asas” (Sl 17,8; 36,8; 57,2; 61,5; 63,8; 91,4). Há também outros textos do Antigo Testamento em que proteção das asas expressa relações simbólicas maternas: “Como a águia que vela por seu ninho e revoa por cima dos filhotes, ele o tomou, estendendo as suas asas, e o carregou em cima de suas penas” (Dt 32,11).
Ao recuperar os textos patrísticos que apresentam metáforas femininas para falar do mistério divino como etapa necessária para a reflexão atual, algumas teólogas assinalam que, apesar da predominância de um quadro androcêntrico, essas metáforas existem nos escritos de alguns Padres. Os textos mais citados são de Ireneu, Agostinho, Hilário de Poitiers, Cirilo de Alexandria, Jerônimo, João Crisóstomo, Gregório Nazianzeno, Clemente de Alexandria, entre outros. Em Clemente de Alexandria (†215), as metáforas femininas relativas ao aleitamento divino, a Deus Pai e Mãe, são mais evidentes e valorizadas[12].
Clemente de Alexandria considera que o pedagogo divino é uma mãe que amamenta seu filho. A mãe tanto é o Pai como o próprio Jesus (cf. 1Cor 3,1-2). Esse Padre da Igreja utiliza os termos mãe e pai para designar a atividade de Deus na geração do filho: “Deus é amor e por causa deste amor ele se torna visível para nós. O fato de ser indizível o faz Pai, sua compaixão por nós o faz Mãe. O Pai amou e foi mulher. O grande sinal disso é aquele que ele fez nascer de si mesmo. E o fruto deste amor é amor”[13].
Clemente usa as palavras “mãe” e “mulher” para falar da geração eterna do Verbo e do mistério da Encarnação. O Logos, o Verbo, a Sabedoria de Deus é o leite sagrado: “O Logos é tudo para o pequeno, é ao mesmo tempo pai, mãe, pedagogo e ama. Ele disse: ‘Comei minha carne e bebei meu sangue’”[14].
Pode-se ver através dessas rápidas referências que se trata de um discurso teológico sedimentado na natureza humana e divina do Verbo encarnado e no simbolismo da Eucaristia.
Clemente de Alexandria também compara Deus a uma mãe pássaro, passando em seguida à imagem da paternidade: “Deus, no seu grande amor à humanidade, liga-se ao homem como a mãe pássaro que, quando cai o pequeno do ninho, voa em direção a ele; e, se uma serpente tenta devorá-lo, a mãe saracoteia ao redor, gemendo por seu pequeno. Deus procura paternalmente a criatura, cura-a da sua queda, persegue a fera selvagem e recolhe de novo o pequeno, empurrando-o a voar novamente em direção ao ninho”[15].
Pode-se dizer que Jesus assume essa simbologia materna para si, como lemos no Evangelho de Mateus:“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas, e não o quiseste!” (Mt 23,37, cf. Lc 13,34-35). Santo Agostinho equipara Mt 23,37 com o Salmo 63,8: “à sombra de tuas asas, eu grito de alegria, minha vida está ligada a ti, a tua direita me sustenta”. Utiliza expressamente a palavra “mãe” para falar que nós encontramos proteção em Cristo-Mãe-Sabedoria, que se encarnou no meio de nós (cf. Jo 1, 14; Fl 2,6-8)[16].
No evangelho de João, no momento do sacrifício da cruz, a angústia e o sofrimento não são só prelúdio de morte, mas também de ressurreição. Jesus compara este momento de sua vida com o momento do parto, no qual “a mulher entristece-se porque a sua hora chegou; quando, porém, dá à luz a criança, ela já não se lembra dos sofrimentos, pela alegria de ter vindo ao mundo um homem” (Jo 16,21). O que a Bíblia traduz como homem no texto citado é a palavra grega ánthropos, que indica o ser humano, tanto homem quanto mulher. Essa palavra corresponde à palavra hebraica adam no Antigo Testamento. Indica a espécie humana e expressa a relação da humanidade com Deus (cf. Gn 1,26-27; 2,7s.18s).
Podemos dizer que a mãe se alegra pela chegada de nova criatura humana, que pode ser um homem ou uma mulher. O nascimento de nova criatura é um ato cósmico que simboliza o mistério da vida. “A experiência da vida e da geração da vida proporcionada pela mulher é uma metáfora adequada para a linguagem em relação ao misericordioso Deus-Sabedoria de Jesus e do seu Espírito que renova o mundo”[17].
Essa breve referência a metáforas femininas encontradas em textos bíblicos e patrísticos nos fornece fundamentos para dizer que o masculino e o feminino são equivalentes na linguagem humana para falar de Deus. Muitos outros elementos podem ser encontrados, especialmente em textos de espiritualidade, escritos especialmente a partir do período medieval. Este é um campo de estudos no qual há ainda muito a aprender. É possível transcender a noção patriarcal de uma hierarquia entre os sexos. O conhecimento dessa nova linguagem pode ocasionar mudanças importantes para a espiritualidade e a ética cristãs.
3. Implicações para a ética e a espiritualidade
O amor de Deus como mãe é um amor de justiça, um amor agápico. Não uma justiça retributiva do dar a cada um o que lhe corresponde pura e simplesmente, mas uma justiça “recriativa”, libertadora, que significa no Antigo Testamento a libertação de Israel e, no Novo Testamento, de todo o gênero humano. Essa justiça “recriativa” valoriza a pessoa humana, respeitando sua dignidade de criatura de Deus. Ela torna claro o profundo sentido do amor, como valor ético fundamental.
No Novo Testamento é João que nos fala do amor, de uma maneira muito própria. Em resposta ao amor de Deus por nós, manifestado na pessoa de Jesus, devemos nos amar uns aos outros (cf. Jo 13,34-35). Devemos amar a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todo o nosso entendimento, com toda a nossa força e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mc 12,28-31; Mt 22,33-40; Lc 10,25-28).
As metáforas do parto, do aleitamento materno, da acolhida e da proteção que encontramos no modelo de Deus Mãe não devem ser construídas sobre estereótipos de identidade feminina, enfatizando a ternura e a meiguice. Pelo contrário, a profundidade da relação mãe-filho motiva e dá sentido a uma bravura insuspeitada, que enfrenta com força e destemor, tudo o que impede a realização plena da vida dos filhos e filhas, especialmente nas situações-limite.
Gerar, alimentar, formar para a autonomia das próprias decisões, para a solidariedade com o mundo, para a prática da justiça, tudo isso supõe sensibilidade para descobrir que a relacionalidade está no coração de todas as coisas. As mães constroem uma memória histórica inesquecível, não apenas porque geram filhos. Elas também geram atitudes e sentimentos. Nossa relação com o mundo depende de nossa capacidade de ver, ouvir, tocar, demonstrar nossos sentimentos. Por meio dos sentimentos, estabelecemos conexões vitais com outras pessoas e com nosso ambiente natural.
Os mandamentos assumem uma conotação diferente dentro desta visão ampla da realidade, quando vivenciamos a relação Deus-Mãe/Pai/mundo. “Neste contexto, é impossível considerar o amor a Deus separado do amor aos outros seres (humanos ou não) que constituem o corpo do mundo, e o amor para com os outros, o amor agápico da criação, é um amor muito fundamental: a afirmação da existência”[18]. Afirmação da vida que se destina a todo o Universo, porque a justiça de Deus deseja o crescimento e a plena realização de todo o mundo interligado. Sua atenção se dirige especialmente para os que estão mais necessitados, motivando uma opção preferencial pelos pobres, pelos excluídos, pelos menores, pelos que estão à margem da vida.
A lembrança de ter estado no útero materno, o uso de metáforas maternas na nossa linguagem sobre Deus nos despertam o pensamento de que em Deus nós vivemos, nos movemos e realizamos nossas experiências existenciais mais profundas, construindo uma autonomia relacionada, que não pode prescindir em nenhum momento de sua profunda relação com Deus Pai que também é Mãe.
4. Concluindo
Para libertar a imagem de Deus dos condicionamentos patriarcais que ainda persistem, não basta apenas o conhecimento de nova linguagem sobre Deus Pai/Mãe. Isso implica que se estabeleçam relações justas, amorosas, cheias de cuidado e ternura entre mulheres e homens das mais distintas raças, nações, povos e religiões, de maneira que se possa enfrentar as injustas disparidades quanto à qualidade da vida e da saúde em toda a humanidade.
Esta linguagem nos faz pensar como a maternidade, este mistério da vida humana e divina, é uma experiência privilegiada para vivenciar a atuação de Deus no mundo. Não se trata apenas de mudanças de cunho linguístico, mas de trazer esta imagem de Deus para dentro da imaginação e da vida cotidiana de mulheres e homens de nosso tempo. Esse modo de proceder possui implicações inegáveis para a espiritualidade e o empenho ético de transformação da realidade em que vivemos, lutando pela implantação de estruturas de justiça e de paz, uma vez que se situa para além da pura e simples feminização de conceitos.
[1] Ver Comissão Pastoral e Missionária do Grande Jubileu do Ano 2000. Deus Pai, São Paulo, Paulinas, 1998, pp. 40ss.
[2] Ver JOHNSON, Elizabeth, Aquela que é. O mistério de Deus no trabalho teológico feminino, Petrópolis, Vozes, 1995, pp. 294-302; McFAGUE, Sallie, Modelos de Deus — Teologia para uma era ecológica e nuclear, São Paulo, Paulus, 1996, pp. 39-41; GÓMEZ-ACEBO, Isabel, Deus também é mãe, São Paulo, Paulinas, 1996, p. 11.
[3] Ver HÄRING, Bernhard, “La ética teológica ante el III Milenio del Cristianismo”, em VIDAL, Marciano,Conceptos fundamentales de ética teológica, Madrid, Trotta, 1992, p. 20.
[4] Santo Tomás de Aquino tem muitos ensinamentos a respeito da linguagem sobre Deus e sua relação com a experiência histórica, através de metáforas e símbolos. Escapa aos limites deste artigo aprofundar essa questão, que está presente na reflexão teológica contemporânea. Sobre isso ver JOHNSON, Elizabeth, op. cit., especialmente pp. 22ss e 256ss.
[5] Cf. BRANDÃO, Margarida L., Evangelho e experiência humana. A comunicabilidade da ética cristã em um mundo pluralista, São Paulo, Paulus, 1998, pp. 91-118.
[6] Axioma de Paul Ricoeur, citado por JOHNSON, Elizabeth, op. cit., p. 21.
[7] Cf. McFAGUE, Sallie, op. cit., pp. 59ss.
[8] Ver JOHNSON, Elizabeth, op. cit., pp. 23-25; McFAGUE, Sallie, op. cit., pp. 52ss.
[9] Não é o caso de referir a bibliografia existente a respeito a partir da década de 80, que, é extensa. As autoras citadas na nota 2, com textos mais recentes, publicados na década de 90, constituem uma boa amostra do que existe na literatura teológica feminista sobre esta matéria.
[10] Ver LUCCHETTI BINGEMER, Maria Clara-BRANDÃO, Margarida, “Novidade do Espírito, novidade ‘corporificada’”, em Vida pastoral / 202(1998) setembro-outubro, pp. 2-9.
[11] Cf. BORRENSEN, Kari Elisabeth, “L’usage patristique de métaphores féminins dans le discours sur Dieu”,em Révue théologique de Louvain, (1982) 2, pp. 206-207: ver também JOHNSON, Elizabeth, op. cit., pp. 152- 157 e 260ss.
[12] Cf. BORRESEN, Kari Elisabeth, art. cit., pp. 212-217; GÓMEZ-ACEBO, Isabel, op. cit., pp. 83-85; KING, Ursula, “O divino como mãe”, Revista Concilium / 226 (1989) 6, pp. 134-135.
[13] Citado por BORRESEN, Kari Elisabeth, art. cit., p. 214.
[14] Citado por GÓMEZ-ACEBO, Isabel, op. cit., p. 83.
[15] Cf. GÓMEZ-ACEBO, op. cit., p. 100.
[16] Cf. BORRESEN, Kari E., art. cit., pp. 207-208; GÓMEZ-ACEBO, Isabel, op. cit., pp. 89-90.
[17] JOHNSON, Elizabeth, op. cit., p. 156.
[18] McFAGUE, Sallie, op. cit., p. 166.
Profª Margarida Luiza Ribeiro Brandão
Pedro Mundim
30 de maio de 2016 9:04 pmPor que não prendem os estupradores…
Por que não prendem os estupradores (e os ladrões, os assaltantes e os homicidas) ao invés de ficar elocubrando sobre uma cultura disto e uma cultura daquilo?
Essa conversa é um subterfúgio para dissolver no corpo da sociedade a culpa dos verdadeiros criminosos. Querem que eu bata no peito e diga: ELE é estuprador porque EU sou mau. Desculpe, mas continuo achando que ELE é estuprador porque ELE é mau.
O código penal tem que ser revisto para tornar as penas mais severas. Quando acabar a impunidade, acabará essa enrolação toda a respeito de uma cultura de estupro.