JOHANNESBURGO – O arcebispo Desmond Tutu – ganhador do prêmio Nobel da Paz de 1984 por sua oposição pacífica ao regime racista da África do sul – classificou nesta terça-feira o governo do presidente Jacob Zuma como vergonhoso depois que autoridades sul-africanas não concederam um visto de entrada ao Dalai Lama. Tutu afirmou ainda que o governo liderado pelo Congresso Nacional Africano (ANC) é pior do que o regime do apartheid. O líder espiritual do Tibete participaria da festa de aniversário do arcebispo na sexta-feira, quando ele completa 80 anos.
O pedido de autorização para a viagem havia sido feito há várias semanas, mas o Dalai Lama decidiu cancelar a viagem alegando que não esperava mais receber o visto. O governo sul-africano vinha sendo pressionado pela China, seu maior parceiro comercial, a não conceder a permissão.
Em um editorial desta semana, o jornal “Sunday Times” de Joannesburgo disse:
“O governo hesitou durante semanas sobre a emissão de um visto ao líder espiritual tibetano, levando à suspeita de que (o governo) foi novamente colocado sob imensa pressão por parte da China não permitir a visita do Dalai Lama”.
Tutu criticou os líderes do ANC em uma coletiva de imprensa horas depois da desistência do líder espiritual. Ele disse que os sul-africanos esperam que o governo lute pelos direitos humanos como está previsto na Constituição.
– Esse governo, o nosso governo, é pior do que o regime do apartheid, porque ao menos no regime do apartheid você esperava isso – afirmou Tutu.
O Nobel da Paz afirmou que o ANC estão se tornando muito complacentes após ganharem todas as eleições desde 1994 com larga vantagem. Segundo ele, governo de Zuma pode enfrentar o mesmo destino das ditaduras árabes.
– Bom, Mubarak tinha uma larga maioria. Kadafi tinha uma larga maioria – afirmou ele, referindo-se aos líderes do Egito e Líbia. – Um dia vamos começar a pedir pela queda do governo ANC. Vocês são vergonhosos.
O governo chinês considera que o Dalai Lama comanda um movimento separatista no Tibete. O líder espiritual, que vive exilado na Índia, diz que reivindica apenas mais autonomia para a sua região natal, por meios pacíficos.
“Estamos agora convencidos, portanto, de que por qualquer razão ou razões o governo da África do Sul acha inconveniente emitir um visto para Sua Santidade o Dalai Lama”, disse nota do Gabinete dele.
O Dalai Lama foi apontado como um farol para a paz na África do Sul quando o regime racista do apartheid acabou, em 1994, mas ele se tornou uma dor de cabeça para a diplomacia do país porque o futuro econômico sul-africano está cada vez mais vinculado à China. O impasse já havia levado o governo sul-africano a rejeitar outro pedido de visto para o monge.
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