4 de junho de 2026

O transtorno afetivo bipolar

Olhada com isenção, a história de São Francisco de Assis (Giovanni di Pietro, nome de batismo) mostra que ele tinha Transtorno Afetivo Bipolar (TAB).  Por exemplo, a Wikipedia diz que

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“Depois de uma juventude irrequieta e mundana, voltou-se para uma vida religiosa de completa pobreza, fundando a ordem mendicante dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos, que renovaram o Catolicismo de seu tempo.” 

Forçando um pouco a barra poderíamos reescrever o texto assim: “Depois de torrar dinheiro compulsivamente, sua família o botou no olho da rua  sem  as chaves da casa e do cofre. E ele passou a viver fora de casa junto com  outros sem-teto.” No entanto, é forçoso considerar que o jovem  foi capaz de se mostrar com boa imagem perante todo o mundo cristão, não obstante (ou por causa de) seu turbulento transtorno. Dão a isto o nome de  “transtorno”, e não de “doença”, porque se considera que não preenche todas as características próprias de doença. Não se instala na biologia do corpo, mas no campo afetivo desse corpo. Antes chamavam-no de Psicose Maníaco-Depressiva, nome depois rejeitado, pois concluiu-se que bipolaridade não se enquadra no âmbito das psicoses.

Intuí que Francisco teria sido um bipolar quando nestes dias refleti sobre o significado de “rasgar dinheiro”. E, então, no Google, o vi em listas de portadores desse transtorno junto com Cazuza, Cassia Kiss, Van Gogh, Elvis Presley, e outros famosos. A lista é enorme – mas ainda incompleta, pois anônimos também sofrem desse mal. Observação: a própria Cassia Kiss foi quem se declarou bipolar:

http://ego.globo.com/Gente/Noticias/0,,MUL324082-9798,00-NAS+BANCAS+CASSIA+KISS+SOU+BULIMICA+E+BIPOLAR.html

Diz-se que o percentual de transtornados  é de 0,5% a 1% da população mundial e pode manifestar- se na adolescência ou em  fase mais madura, entre homens e mulheres.  Formas mais leves podem afetar até 4% da população mundial.

Por pura sorte São Francisco não  teve (ao que diz a História) de enfrentar mais preconceitos contra seu distúrbio: em sua época o valor mítico da pobreza era enorme (vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, depois vem, e segue-me –  trecho bíblico muito badalado pela igreja). Portanto, ele (de família de comerciantes, muito  rica) se encaixou num belo e, para a ocasião, muito útil figurino,  por ter “preferido” viver como pobre. (Sabe-se que o mecanismo de escolhas do bipolar é prejudicado pelo afeto). Outro golpe de sorte, mais terra-a-terra e imediato para ele, foi que a pequena vila de Assis era pouco habitada e seus moradores se conheciam uns aos outros, donde que provavelmente era considerado honroso (ou, sabe-se lá o quê) dar coisas de comer e de beber ao rapaz bonito, bem falante e oriundo da elite, que a pé transitava pelas ruas, vivia, falava com passarinhos e louvava a Deus,   dormindo ao relento sem medos – porque a vila de Assis daquele tempo não era como a Brasília do ataque aos índios que dormiam na rua.  

E quanto aos outros atingidos nos dias de hoje pelo mal do bipolarismo? Podemos dizer, sem dúvida, que eles devem sofrer horrores – mais ainda pelo fato de  o distúrbio se passar no campo afetivo.  A gastança irresponsável, um dos males imposto a seu portador, causa também pesados sofrimentos às famílias dos afetados. Haveria explicações teóricas para este vínculo do TAB com a mania de jogar dinheiro fora? Ainda não vi muitas, nos relatos de pessoas com Transtorno Bipolar. Angustiam-se, relutam, se sentem ora poderosas, ora arrasadas. Nesse contexto, o dinheiro acaba funcionando como moeda de troca, como se dissessem:  pago qualquer quantia para me livrar deste sofrimento avassalador. Numa das narrativas uma moça diz: sinto um grande vazio no peito, uma angústia, que ao comprar me dá a sensação de ter sanado o problema.

Conheço 2 livros com depoimentos de portadores do Transtorno Afetivo Bipolar: da autora Marina W.,   Não sou uma só: diário de uma bipolar, da Ed. Nova Fronteira; e do autor Walter Moreira Santos (usando o pseudônimo William L.),  Dentro da Chuva AmarelaMemórias de um maníaco-depressivo, da Geração Editorial.

Dentre os vários blogs  com depoimentos de bipolares encontrei este do Sidney Rezende (Globo) com relato da Marina W., que também trabalhou na Globo:

http://www.sidneyrezende.com/noticia/6364+cassia+kiss+e+bipolar+viva+a+liberdade

e este, cuja lista de bipolares me pareceu severamente exagerada, mas tem comentários sensíveis, de transtornados:

http://convivendocomabipolaridade.blogspot.com/2006/12/bipolares-famosos_28.html

e este, da ilustração, que tem um artigo conciso e interessante sobre o tema:

http://inovabrasil.blogspot.com/2010/09/humor-ou-transtorno-bipolar.html

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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