As ondas antipetista, cristã e verde ocorreram em set.2010. Virada azul um pouco. Não vamos discutir isso. Dilma perdeu votos que obteve por sua propaganda ter sido mais ágil (2ª. quinzena de agosto), mas que não estavam consolidados. E em todo o mês de setembro houve a reação da oposição, até assustada com o sucedido.
Mas a súbita perda recente (em relação às pesquisas de dias atrás) não poderia ser parcialmente explicada pela elevada abstenção? Não configurando necessariamente uma continuidade da tendência do decréscimo recente (2a. quinzena de setembro) nem tampouco problemas com pesquisas ou urnas.
O fato é que nas eleições presidenciais o PT “sempre” cai e o PSDB sobe da pesquisa do sábado para a urna. E com diferenças maiores que as detectadas pelos institutos entre si (em 2006 também foi o Datafolha quem acertou mais mas em 2002 foi Vox Populi.) Não se pode sempre usar a margem de erro apenas para um lado. Não se pode falar em favorecimentos, pois o PT parece sempre superestimado nas pesquisas (nas estaduais e municipais há exceções de todos os tipos, mas o foco agora é o agregado presidencial, pesquisas de 2 a 10 mil entrevistas em todas as regiões.)
Não penso ser o caso de se retomar agora a perenga Outros vs Datafolha. Já foi comentado que a metodologia dos demais usa uma distribuição para a amostragem mais próxima da população. Porém há conhecidos e elevados níveis de abstenção e o Datafolha, buscando acertar no que viu (população), pode acertar no que não viu (população que vota.)
A hipótese por trás deste comentário é a de que em segmentos “lulistas”, digamos com 60% ou mais de intenção de votos, haja também abstenção acima da média; e, alternativamente, que dentre o eleitorado tucano e verde as abstenções sejam reduzidas. A título de comparação serão mostrados no quadro os resultados das pesquisas de uma semana antes da eleição, mas para a análise, calculando a diferença com a eleição real (2a. linha para cada ano), tomaremos apenas a Datafolha de cada véspera de 1º turno, supondo que sua metodologia foi sempre a mesma.
Em 3 eleições seguidas, quando o PT tinha cerca de 50% das intenções de voto, foi surpreendido por redução de votação em relação a pesquisas. A perda súbita de votos válidos que Lula teve em 2002 (1,9%) e 2006 (1,9%) entre a última pesquisa e as urnas não foi explicada por ondas. Bom, em 2006 houve a ausência no debate da Globo, mas isso já havia sido capturado na última pesquisa, com uma outra queda de 2 pp. Desta vez a perda “típica” também ocorreu para Dilma, mas de forma mais aguda (3,4%) e penso haver uma explicação plausível.
Em 2002 (com +2,8%) e 2006 (3,2%) o candidato do PSDB teve um crescimento no final. Em 2010 o mesmo ocorre para Serra (1,6%) e para Marina (2,2%) Esses crescimentos podem ser muito bem em parte efeito estatístico, pela simples redução dos votos do PT no momento de sua concretização. Não deve ser tudo transferência ou erro de amostragem.
Imagine-se, apenas por hipótese, uma situação genérica de pesquisa estimulada de votos : 50 (PT), 30 (PSDB), 20 (outros). Descartemos os brancos/nulos/indecisos da análise. Teríamos 50, 30 e 20 de votos válidos (como resultado de uma pesquisa.)
Agora, suponha-se que a abstenção no eleitorado do PT seja de 21% e nos demais 15% (média = 18%, como costuma ocorrer nas nossas eleições.) Não sabemos exatamente qual é a taxa de abstenção por segmento social ou de preferência partidária, mas sabemos que o PT, pelo menos em 2006 e 2010, recebe boas declarações de voto no segmento rural e nos segmentos de menor renda/escolaridade. E podemos intuir que a abstenção nesses grupos, por fatores diversos, possa ser maior. Menor receio de perder a eleição e falha ao digitar a urna não devem, também, ser totalmente desconsiderados. Uma coisa é declarar voto, outra é dirigir-se à seção no dia e efetivamente concretizar o voto (aliás bem longo : do 1º para o 2º turno os brancos/nulos caem 3 pp do total.) Alternativamente, também pode haver eleitores antipetistas (já que o PT é sempre o partido mais “demonizado”) que se declaram como indecisos por maior tempo e na urna escolhem alguém para votar. São hipóteses.
Com essas perdas de votos, proporcionalmente diferentes, teríamos, no exemplo, 39.5 (PT), 25.5 (PSDB), 17.0 (outros) de votos concretizados. E os válidos seriam 48.2, 31.1, 20.7 Aqui não há transferências nem ondas ou tendências envolvidas, apenas um grupo perde por abstenção um percentual maior que os outros. No exemplo o PT perde 1,8% (muito parecido ao que ocorreu com Lula em 2002 e 2006), o PSDB ganha 1,1% e “outros” ganha 0,7%. Ou seja, basta um grupo perder mais por abstenção que evidentemente os outros sobem em válidos, mesmo sem mudança na intenção de voto. É possível determinar percentuais diferentes de abstenção que minimizariam ainda mais as diferenças encontradas entre pesquisas e urnas.
Como exercício, se aplicássemos os percentuais de abstenção de 21% (PT) e 15% (outros) à última Datafolha (50.5, 31.2, 17.2, 1.1) teríamos uma nova projeção de válidos de 48.7 (Dilma), 32.3 (Serra), 17.8 (Marina), 1.2 (Plínio) bem mais próxima à apuração verificada (46.9, 32.6, 19.3, 0.9) Isto é, se esta hipótese de abstenção diferenciada por segmento sócio-econômico/preferência partidária pudesse ser comprovada, nos níveis supostos, faltaria explicar -1.8, 0.3, 1.5, 0.3; e estes seriam explicados mais facilmente – por serem números baixos – por transferência, margem de erro, continuidade de onda, redução de indecisão, etc. Seriam diferenças muito menores entre pesquisa e realidade que o que vimos (-3.6, 1.4, 2.1, 0.2)
Desse modo, se pudermos considerar um padrão de redução de 1.8% a 2% de válidos para o PT na reta final da eleição, teríamos que considerar como transferência de Dilma para Marina apenas até 1.5% (no caso para os últimos 2 dias, pois a pesquisa Datafolha não foi em apenas um dia.) A diferença de Serra em relação à pesquisa seria mínima. Bom, se for verdade, isso não altera a dificuldade de cada candidatura em se comunicar com seu eleitorado, mas ajuda a confiar mais em pesquisas e a entender fenômenos que se repetem sempre. Deixaríamos de ficar surpreendidos. (Eu, por meu turno, passarei a “ajustar” as pesquisas que vierem do 2º turno, reduzindo Dilma em 2% e aumentando Serra em 1,5 ou 2%. Minha intuição é de que assim se estaria estimando melhor a realidade do processo eleitoral.)
As pesquisas, até onde vimos, não perguntam se o entrevistado confirma que irá votar, se votou na eleição anterior, etc. Penso que poderia haver essa questão e depois duas tabulações, com e sem aqueles que declaram incerteza quanto a se comparecerão à eleição. E também deveria haver cruzamento de abstenção com preferência partidária. Não adianta tanto capricho em segmentações, estratos, cruzamentos e amostragens se não pudermos ter certeza sobre como se dá a abstenção, que junto a brancos e nulos invalida mais de 25% dos votos!
Com a palavra os institutos de pesquisa.
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