29 de junho de 2026

Meu primeiro chefe no jornalismo

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No dia 1o, minha filha Mariana me lembrou que completava 45 anos de jornalismo. Tinha me esquecido.

A data me levou e lembrar os primeiros dias de jornalismo.

Meu primeiro emprego formal foi de estagiário da revista Veja. Terminei o colegial, prestei vestibular, passei na Escola de Comunicações e Artes da USP.  Chegando a São Paulo, o grande Luiz Fernando Mercadante – então dirigindo a revista Realidade – me convidou para um almoço.

Nem precisava de convite. Era na casa de tia Zélia, que se casara com ele muito moça. Tiveram dois filhos, separaram-se, dali para frente Luiz Fernando teve muitos amores mas sempre manteve a ligação umbilical com tia Zélia, seu porto seguro.

Luiz Fernando entrara para o jornalismo através do vô Issa, que o apresentou a Carlos Lacerda. Muito jovem tornou-se repórter político prestigiado na Tribuna da Imprensa, morando um tempo na casa do pai de Luiz Garcia.

Garcia era redator-chefe e o melhor e mais discreto jornalista da Veja daqueles tempos.

Luiz Fernando tentou, primeiro, o Jornal da Tarde, com o Laerte Fernandes. Mas, no primeiro semestre, não consegui me matricular no turno da manhã na ECA e não tive como estagiar no JT.

A segunda oportunidade foi na Veja, em um almoço na casa da tia para o qual Fernando levou o Luiz Garcia e o Talvani. Já tinha conseguido a mudança para a parte da manhã e ficara com as tardes liberadas.

E aí chego no Talvani, meu primeiro chefe e um tipo curiosíssimo, do qual tenho ótimas recordações

Veja foi criada em 1967, com uma redação inchada. Nos anos seguintes a redação foi se adequando ao tamanho da revista, enquanto procurava o equilíbrio financeiro. Entrei em 1o de setembro, na primeira abertura de estágio da revista, junto com os queridos Dailor Varella e Ângela Ziroldo.

Depois de três meses de estágio, recebi o honroso convite para substituir Tárik  de Souza, que tirara férias da editoria de Música. O Editor de Artes e Espetáculo era Carmo Chagas.

A estrutura de redação da Veja era meio estranha, provavelmente copiando o Time.

Havia as editorias-mãe. Por exemplo, Artes e Espetáculos. Debaixo delas, as subeditoriais. No caso, Música, Teatro, Artes Plásticas e Comportamento e Gente.

Depois, uma reportagem Geral subordinada a um Chefe de Reportagem, mas atendendo às pautas dos editores.

Creio que o modelo visava, através dos repórteres generalistas, suprir a visão mais técnica e fechadas das editorias especializadas.

Creio ter me saído bem na música. Cometi alguns atrevimentos, com críticas dos recém lançados Ivan Lins e Tim Maia, outra crítica de um show do Chico Buarque na Boate Dobrão. Uma reportagem sobre o grande violonista José Lanzac, o maior do país nos anos 20, mas que morrera esquecido em São João da Boa Vista.

Já tinha um bom conhecimento de estrutura de composição, noções básicas de harmonia e assimilei rapidamente o estilo ferino da editoria, cujo modelo máximo era José Ramos Tinhorão como redator da seção Gente.

No final do mês Talvani me aborda no corredor.

— Nassif, amanhã quero falar com você, mas na condição de amigo.

No dia seguinte, mal cheguei na redação ele me chamou para uma reunião em uma das salas fechadas.

— Quem está falando com você não é seu chefe, mas seu amigo. Amanhã vou te fazer uma proposta de salário de Cr $ 500. É o dobro do que você está ganhando, mas não é justo. Não aceite nada abaixo de Cr $ 1.500,00.

Não entendi nada, mas segui as recomendações.

Talvani era do Rio Grande do Norte. Eram três irmãos jornalistas, que brigavam como o diabo entre si. Cuidávamos de nunca tomar partido.

No dia seguinte ele me chama de novo:

— Nassif, tenho aqui uma proposta para te efetivar, de Cr$ 500.

Conforme o combinado, recusei e exigi Cr$ 1.500.

E ele:

— Bom, lamento muito. Vou tentar encontrar um emprego para você na Folha ou no Estado.

Não entendi nada. Mas como tinha acabado de chegar do interior, não quis discutir. No interior aprendemos a não discutir com loucos.

Fui até a mesa do Carmo e me despedi.

Ele:

— Mas porque está indo embora?

Contei a conversa com o Talvani.

— Tire esta semana e vá para Santos namorar. Segunda o Tárik volta e iremos conversar com o Sérgio Pompeu.

Sérgio era um dos redatores-chefe, ao lado do Luiz Garcia, e o ponto de equilíbrio emocional de Mino na redação.

Na segunda voltei, fui com o Carmo e o Tárik na sala do Sérgio e rapidamente fechou questão em torno dos Cr$ 1.500.

Saí aliviado da reunião e topei com Talvani no corredor. Nem tive oportunidade de lhe agradecer a dica.

—  Nassif, veio nos visitar?

— Não, vim trabalhar. O Sérgio aceitou minha proposta.

Talvani ficou indignado. Foi até a sala do Sérgio, bateu boca dizendo-se desautorizado. Mas na terça feira não teve remédio. Passei a trabalhar como efetivo, sob a chefia dele.

Até então estava alocado para Música e Comportamento. Ele me avisou que a moleza acabara. Dali por diante, seria só pedreira.

No meio das pedreiras, surgiu uma pauta agradável da Economia. Os editores eram Paulo Henrique Amorim e Emilio Matsumoto. Uma pauta sobre o circo Orlando Orfei.

Era um personagem fantástico, aliás, morto há algumas semanas.

Talvani me passou a pauta e me ordenou que não pedisse fotógrafo para o chefe dos fotógrafos. Ele mesmo queria fotografar.

Esqueci e pedi fotógrafo, não por birra mas porque sempre fui meio esquecido de detalhes.

Fui à tarde para entrevistar Orfei, à noite no circo e na manhã seguinte na redação, para redigir a matéria. Ainda não me havia acostumado com o burburinho da redação, por isso me escondia na baia de Artes e Espetáculos para escrever.

Estava imerso entre leões, tigres, bailarinas e domadores quando ouço o grito de Talvani:

— Nassif, venha aqui!

Fui, atravessei a baia central e parei de pé em frente sua mesa.

— Quem você pensa que é para ficar na baia de Artes e Espetáculos? Você é um foca, ouviu?, um foca.

Voltei para a baia e tentei prosseguir com a matéria, mas não dava. As teclas embaralhavam-se na minha frente, não conseguia enxergar nada.

Levantei, sai da baia, entrei de novo na baia da Geral, como um autômato, chutei uma cadeira que estava na minha frente e parei em frente o Talvani, ele sentado, eu de pé:

— Olha aqui, vá gritar com suas negas. Quem tem chefe é índio. Nunca mais grite comigo.

E voltei bufando.

Ainda nem me acalmara, quando Talvani entrou na baia da editoria.

— Vim aqui para pedir desculpas.

E eu, ainda com sangue fervendo:

— Não aceito!

— Como, não aceita?

— Não aceito. Você me ofendeu em público e vem pedir desculpas em particular?

Talvani levantou-se, meio sem graça, e voltou para a sua baia.

Aí caiu a minha ficha. Besta, precisando do emprego e faço essa besteira de não aceitar desculpas de chefe.

Não se passaram cinco minutos e Talvani me chamou de novo. Lá fui eu, esperando a demissão. Cheguei na sua mesa, ele tinha convocado todos os repórteres presentes. E, na frente deles, me pediu desculpas.

Dali em diante, foi o melhor chefe de reportagem que encontrei, sempre entusiasmado com o trabalho, os furos, sem entrar no jogo de panelinha dos repórteres mais antigos.

Seu único defeito foi o entusiasmo com minhas musiquinhas, que o levou até a montar um lobby junto a Caetano Velloso, levando uma fita que gravamos em seu apartamento.

Caetano deve ter pensando o mesmo que eu, depois da conversa de amigo com Talvani:

— Esses jornalistas são todos meio loucos.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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19 Comentários
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  1. Alciele

    4 de setembro de 2015 4:02 pm

    Mais um livro então…

     

    Pô Nassif, acabei de comprar o livro do PHA sobre os 50 anos de jornalismo dele e você com 45, então, quer dizer vou gastar meu suado dinheirinho com seu livro de 50 anos também. Assim não pode, assim não dá!!!

    Ahhh, vamo nessa!!!! Começa a escrever esse troço já, estarei esperando!

  2. Alexandre Weber - Santos -SP

    4 de setembro de 2015 4:17 pm

    Perdeu a chance de se divertir em Santos rsrsrs….

    Aqui é muito bom, meu amigo.

  3. Aline C Pavia

    4 de setembro de 2015 4:55 pm

    Delícia

    Ontem a internet foi uma merda, graças àquele menininho deitadinho na praia.

    Hoje estávamos precisando de um relato assim. Espirituoso, leve, divertido, a nos injetar de novo ânimo e fé na humanidade.

    Não te conheço pessoalmente, Nassif. Mas tenho fé em você. Tantos de nós temos. Obrigada por fazer parte do nosso dia-a-dia. Seu blog, os posts dos colaboradores e você se confundem numa única persona, o Nassif da caneta e do choro, bambambã em ambos os dois.

    Abraço e Obrigada.

  4. anarquista sério

    4 de setembro de 2015 5:18 pm

    Nassa, eu te acompanho quase

    Nassa, eu te acompanho quase na mesma data que vc é jornalista.

      Gostava de suas crònicas sobre economia e principalmente aos sábados quando escrevia sobre música na Folha.

             Agora vamos a matéria. Vc já escreveu sobre isso NESTE BLOG:

         ”’Meu primeiro emprego formal foi de estagiário da revista Veja”

            Vc apenas trocou ”estagiário” com ”foca ”.

            Abração !

              ps: Não é fácil se livrar de mim. Sou teu SEGUIDOR e PERSEGUIDOR mor. rs

    1. Raí

      4 de setembro de 2015 9:10 pm

      Quem tem um amigo como você, não precisa de inimigo.

      Anarca, você não tem a exclusividade, de ter acompanhado a vida profissional do Nassf, e embora ele(e alguns de nós) tenha a capacidade de conviver pacificamanete com os “diferentes”(alguns chamam de anarquistas)o nosso amigo comum, até conseguiu livrar-se dos chefes confusos(embora bons camaradas) dos colegas inescrupulosos; da inescrupulosa Veja; da reacionária Folha, da inespressiva TV Gazeta; do UOL; do IG, porém não consegue livrar-se de alguns seguidores, que são uma verdadeira sarna.

  5. Maria Luisa

    4 de setembro de 2015 5:40 pm

    Meio loucos e lunaticos

    “Todos os Homens do Presidente” foi um dos impulsos para se fazer jornaslimo. Hoje ja sem a paixão de outrora, mas ritimando a semana. E que bom que você e PHA têm muitas e boas historias para contar. Esperemos seu livro também. 

     

  6. W K

    4 de setembro de 2015 5:46 pm

    E

    eu, que achava que era só em megê que uma reunião era somentemente para homologar o que já havia sido decidido na véspera…

     

  7. Odonir Oliveira

    4 de setembro de 2015 6:22 pm

    Querido Nassif, te disse em maio em SP que estamos ficando

    velhos.

    Sabe-se que você é um cara esquecido, já esqueceu de pegar filhas na escola, esqueceu chaves do carro…dentre otras cositas más … Agora, Mariana precisar te lembrar de quantos anos você tem de profissão ?!

    Repito: estamos ficando velhos !

    Ainda outro dia acompanhava eu, pelo blog, as notícias do casamento da Mariana, depois da outra e depois que as menores já estão fazendo Enem … Não digo? Envelhecemos e estamos mais lembradores de fatos, quando nos pomos a escrevê-los.

    Daí que volto a mesma tecla já faz uns 10 anos. Volta a escrever crônicas aos sábados , ou de 15 em 15 dias, companheiro.

    Deixe esse fel da política descansando um pouco e toca seus instrumentos, compõe suas músicas e escreve suas linhas de crônicas.

    Eu aguardarei

    Bonita história do moleque que saiu meio sem saber ao certo seu caminho em SP e tornou-se esse baita joranalista que conhecemos.

    1. Raí

      4 de setembro de 2015 9:03 pm

      Esquecimento ou vaidade ?

      Odonir, em se tratando do Nassif, não foi esquecimento não.

      Garanto-lhe, que ele tem memória de jovem, só esquece o que envelhece-o, e você acha que a vaidade(jamais confessada) do nosso amigo comum, iria admitir que está envelhecendo, se não tivesse sido provocado pela filha ?

      Independente do motivo, quem ganhou com isso, foram os seus seguidores e amigos do blog, que estavam saudosos daquelas saborozíssimas crônicas, com sabor de Poços,  da São Paulo antiga, das redações dinossáuricas, das chefias tediosas, da falta de liberdade de expressão, aqueles tempos cinzentos…

  8. Fenando G. Trindade

    4 de setembro de 2015 6:33 pm

    Nassif,
    O pessoal mais novo,

    Nassif,

    O pessoal mais novo, que só conheceu a Veja como essa coisa horrorosa que é hoje não deve ter entendido nada….

    Obrigado. Bela bela crônica, boas lembranças. Você devia cronicar mais.

     

     

     

  9. José Emílio Guedes Lages

    4 de setembro de 2015 7:01 pm

    Memórias sao memórias

    Esse belo texto nos leva a crer que ricas memórias estao a caminho, com fundo musical salpicado de chorinhos de responsa.

    José Emílio Guedes Lages- Belo Horizonte

  10. Raí

    4 de setembro de 2015 8:54 pm

    Voltando aos “velhos tempos”(das crônicas) amigão ?

    Nassif, como é saboroso, vê-lo escrevendo, depois de um longo e tenebroso inverno, estes “causos” de sua vida profissional, e mesmo quando abordam casos pessoais e “Caldenses” como as crônicas de antigamente no seu blog !

    Quanto aos 45 anos de profissão, a cada dia mais independente, ainda bem, que a Mariana lembrou-lhe, pois não é todo dia, que a gente faz quase 1/2 século de trabalho corajoso, destemido, independente, desafiador e às veses errado na perspectiva(quem nunca erra ?) porém jamais comandado, como ficou provado, neste imbr´glio seu com o Talvani.

    Parabéns meu irmão, pela longevidade profissional, e que Deus lhe dê saúde e sabadoria, para continuar nesta luta.

  11. carlos a.

    4 de setembro de 2015 8:57 pm

    primeiro chefe


    muito bonito…parabéns!

     

  12. geraldo chaves

    4 de setembro de 2015 11:58 pm

    Parabéns Nassif pelos seus 45

    Parabéns Nassif pelos seus 45 anos de profissão.

    Sempre fui um grande admirador seu, e mais ainda a partir de sua denúncia do Caso Veja.

    Estar aqui no seu blog diáriamente é um grande prazer para todos nós seus admiradores.

  13. lenita

    5 de setembro de 2015 12:36 am

    Este nosso “Seo Nassif”

    É bom purdimaisdaconta,sô. Frequento o seu Blog ha 6 anos, mais ou menos e não conheci quase nada das suas crônicas. Favor começar de novo a escrevê-las, pois esta foi ótima. Adoro crônicas e jamais me esqueço do Rubem Braga, do Carlos Drumond, Fernando Sabino e de outro mineiro famoso, Paulo Mendes Campos, alem da Marina Colassanti.

    Abração e continue assim como és, um lutador por suas verdades,

  14. Under_Siege

    5 de setembro de 2015 3:56 am

    Parabéns, Nassif!

    E obrigado pelo trabalho de qualidade!

     

    SAÚDE!!!

  15. Nilva de Souza

    5 de setembro de 2015 7:58 am

    Sua tribo penhorada agradece

    Sua tribo penhorada agradece suas crônicas e causos.

    parabens pelos 40 e tantos anos de jornalismo. Acho que entendi porque esqueceu o número de anos, rs.

    abracao procê.

  16. gardenal

    5 de setembro de 2015 11:38 am

    Parabéns pelas BODAS DE

    Parabéns pelas BODAS DE RUBÍ.  Mas quero receber os parabéns pela passagem das minhas BODAS  DE CERÂMICA  comemorados agora aos  9 anos de curtição de sua página.

  17. jc.pompeu

    5 de setembro de 2015 3:44 pm

    Moral Edificante da

    Moral Edificante da Crônica:

    Todo grande sobrinho jornalista de sucesso e prestígio teve, quando jovem foca aprendiz de feiticeiro na cidade grande, o providencial nepotismo pão de queijo fresquinho com café quentinho de uma admirável e zelosa tia Zélia.

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