4 de junho de 2026

A Globo e sua tática diversionista, por Gilberto Maringoni

A extrema cautela do JN deixa entrever mais que cuidados com a qualidade da informação. Pode ser manifestação de receio de que fatos até aqui ocultos ganhem a luz do dia.

A Globo e sua tática diversionista

por Gilberto Maringoni

Assisti uma parte do JN agora à noite (segunda, 10). O tom foi de tentar desqualificar as denúncias do Intercept.

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A coalizão governista – que inclui a direção da Globo – está diante de um problema sério: a desastrada nota lançada pelo MPF – no calor da hora – admitiu serem verdadeiros os diálogos vazados. A dada altura o documento afirma:

“Dentre as informações ilegalmente copiadas, possivelmente estão documentos e dados sobre estratégias e investigações em andamento e sobre rotinas pessoais e de segurança dos integrantes da força-tarefa e de suas famílias”.

OU SEJA, PASSARAM RECIBO sobre o que já foi divulgado e pelo que ainda há a divulgar. Possivelmente o clima de barata-voa e a sensação de terem sido pegos com a boca na botija bagunçou a redação.

Sem ter como negar o material que está em todas as redes, o principal informativo da Globo buscou dar aparência de normalidade ao caso. Os argumentos foram de três ordens:

1. A CONVERSA NÃO REVELA NADA DEMAIS. Juízes dialogam com advogados, procuradores e policiais, para melhor realizarem seus trabalhos. Essa foi a linha da declaração de Moro, em Manaus, de Mourão, em Brasília, e da nota da Associação dos Juízes Federais (Ajufe). Além disso, o JN colocou no ar um vídeo de Deltan Dallagnol, postado no twitter. O procurador ressalta a imparcialidade da LavaJato (mais de 50 condenados e 400 investigados de 26 partidos) e seu objetivo determinado de combater a corrupção;

2. AS CONVERSAS E ZAPs revelados pelo Intercept são antigos (Moro) e nem é mais possível dizer se são autênticos ou não, pois ninguém mais guardou esses registros;

3. AS MENSAGENS FORAM hackeadas de forma criminosa e ilegal – repetido duas vezes por Bonner e Renata, além de constar na nota da Ajufe – e são liminarmente nulas como provas.

Foi lido um trecho da nota da defesa de Lula, mas ninguém do Intercept foi ouvido.

O JN AGE COMO JOGADOR DE POQUER. Mostrou algumas cartas, mas espera a movimentação do adversário para decidir nova tática. Há um certo tom defensivo, pois o alerta de Glenn Greenwald, Betsy Reed e Leandro Demori é claro:

“Esse é apenas o começo do que pretendemos tornar uma investigação jornalística contínua das ações de Moro, do procurador Deltan Dallagnol e da força-tarefa da Lava Jato – além da conduta de inúmeros indivíduos que ainda detêm um enorme poder político e econômico dentro e fora do Brasil”.

MORO E SUA TRUPE não sabem o que vem pela frente. Leandro Demori, editor do site, afirmou ter divulgado apenas 1% do material recolhido. A afirmação joga uma bomba no colo dos possíveis parceiros articulados com a república de Curitiba, entre os quais podem estar a própria Globo, sites de direita, como o Antagonista, e setores do aparelho de Estado, entre eles, membros do STF.

Trata-se literalmente de uma guerrilha informativa de movimentos rápidos, sem que um dos lados – Moro, Dallagnol & Associados – conheça, mesmo que de forma imprecisa, o poder de fogo do outro.

A extrema cautela do JN deixa entrever mais que cuidados com a qualidade da informação. Pode ser manifestação de receio de que fatos até aqui ocultos ganhem a luz do dia.

O PONTO CEGO DESTA ANÁLISE

Há um ponto falho – e importante! – sobre o possível acobertamento que a Globo estaria dando a Sérgio Moro. Esse tópico me escapou de início.

Trata-se do pé de um dos blocos do telejornal, com exatos 20 segundos de duração. Foi pronunciado por William Bonner:

“O secretário de Comunicação da Presidência da República, Fábio Waingarten, disse há pouco que o presidente Jair Bolsonaro afirmou o seguinte, abre aspas: ‘Nós confiamos irrestritamente no ministro Moro’, fecha aspas”.

Por que motivo Bolsonaro se arriscaria a fazer uma afirmação temerária dessas? Das duas uma: ele sabe que nada de importante virá nas novas denúncias, ou recebeu algum tipo de pressão ou chantagem.

Toda a edição do JN sobre o caso foi meio estranha. Não houve nenhuma entrevista de viva voz, a não ser declarações públicas de Moro, Mourão e o vídeo pessoal de Dallagnol. Tudo o mais foi ilustrado com leitura de notas escritas. E mais, todas essas notas têm origem no mundo jurídico.

Nenhum parlamentar – do governo ou da oposição – foi ouvido. Nenhum empresário, nenhum analista. A Globo fez uma edição com régua e compasso, buscando esvaziar o conteúdo e o contexto político das trocas de mensagens da república de Curitiba.

Pode ter criado uma realidade virtual para abafar o caso. Talvez siga nessa toada nos próximos dias, quando o Intercept vazar mais coisas. Pode ter feito uma aposta alta. No poquer, pode ter trucado.

Bolsonaro teria feito o mesmo em jogo combinado com a rede já chamada por ele de “inimiga”? Teria algo a ver com o andamento da pauta essencial, que liga todos os blocos das classes dominantes, a reforma da Previdência? Com a greve de sexta (14), que promete ser avassaladora?

As próximas horas e dias serão de altíssima octanagem…

Gilberto Maringoni

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

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9 Comentários
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  1. evandro condé

    11 de junho de 2019 9:26 am

    Um pouco mais, no Estudio i não houve menção, até onde assisti, na chamada do jornal das 18 não houve “chamada da notícia ( mas deram depois). Perderam o pudor.

  2. Paulo Dantas

    11 de junho de 2019 9:28 am

    O jornalista do Intercept disse que só analisaram 1% dos arquivos , isto vai render …
    Agora , conversas sérias não devem mais serem feitas por estes aplicativos , eles se mostraram inseguros.

  3. marcio cruzeiro

    11 de junho de 2019 9:54 am

    As Organizações Globo são Inimigas do Brasil, e assim devem ser Tratadas( Créditos para o Escritor Fernando Moraes )……..E a Temperatura sobe em Brasília !…..

  4. Anônimo

    11 de junho de 2019 10:44 am

    “A Globo fez uma edição com régua e compasso,”
    Talvez:
    A Globo fez uma edição com esquadro e compasso.

  5. Dermeval Santos Lopes Junior

    11 de junho de 2019 10:54 am

    Foi exatamente isso que coloquei em comentário da minha lavra.Seria o efeito “vaga-lume” como asseverei.Ninguém sabe o que está por vir.Eu arriscaria dizer que a Globo,direta ou indiretamente,está no grampo.Os proximos capítulos serão fascinantes e devastadoras.Cueca de aço nunca esteve tão em alta.

  6. Renato Lazzari

    11 de junho de 2019 12:33 pm

    De qualquer forma, esse balaio que contém Moro, Bolsonaro, milícias, Queiroz, Trump etc. está deixando muito satisfeitas as pessoas da iniciativa privada que pretendem tomar o poder do estado para si. A demonização do estado é tudo de que precisam. Cabe portanto aos democratas e em especial à “esquerda” mostrar às pessoas que fora do estado, elas ficam vulneráveis, que não é possível pensar uma nação próspera e justa regulada pelo dólar.

    Senão daqui a pouco estamos como os cidadãos dos EUA, totalmente paranóicos, achando que o “governo” (eles não dizem estado) é sempre conspiração contra o cidadão.

    Fica a sugestão ao Marangoni e democratas: aproveitar que nosso cidadão ainda não é tão paranóico quanto o dos EUA e reforçar esse ponto. Sei que é difícil acusar a iniciativa privada de não promover a riqueza, mas não é difícil demonstrar que em qualquer lugar e tempo, desde o advento do capitalismo (de uns 200 anos ou pouco mais para cá), a iniciativa privada gerindo ou mesmo dando pitaco no estado resulta invariavelmente em muito mais gente pobre ou remediada que próspera, numa multidão enorme desempregada (na prática, sem direito ao trabalho, o que vai contra a DDH). Iniciativa privada, por enquanto vai, desde que fortemente regulada pelo estado. Se não, é essa pobreza em todos os sentidos que estamos vendo.

  7. Chris

    11 de junho de 2019 3:26 pm

    “Por que motivo Bolsonaro se arriscaria a fazer uma afirmação temerária dessas? ” Um cara que fala uma coisa pela manhã e se desmente a tarde… uma biruta de aeroporto, como diz o Nassif. Não veja sofisticação onde só há broncos. Broncos úteis às eminências pardas espertas, mas broncos. Ele nem tem idéia do que arrisca ou deixa de arriscar, basta ver o que ele diz até de quem ele gosta e quer agradar.

  8. Lúcio Vieira

    11 de junho de 2019 6:34 pm

    A globo desta vez vai se complicar de um modo como nunca houve com ela. Pôde ao longo do tempo montar conluios com e contra vários de seus interesses. Foi inclusive com isto que os tucanos puderam contar por todo este tempo para se protegerem. A própria globo ao longo de sua história criou narrativas, deu abrangências a falas que lhe interessavam. Um de seus graves erros foi usar uma estratégia suicida que muito possível que o falecido e esperto Roberto Marinho dificilmente usaria. Era um discreto que por muitos anos, grande parte das pessoas não sabiam quem era ele. Planejava as coisas nas entradas dos bastidores e dificilmente entraria tão acintosamente no sistema lavajatista que poderá ser sua ruína.

  9. Lúcio Vieira

    11 de junho de 2019 6:34 pm

    A globo desta vez vai se complicar de um modo como nunca houve com ela. Pôde ao longo do tempo montar conluios com e contra vários de seus interesses. Foi inclusive com isto que os tucanos puderam contar por todo este tempo para se protegerem. A própria globo ao longo de sua história criou narrativas, deu abrangências a falas que lhe interessavam. Um de seus graves erros foi usar uma estratégia suicida que muito possível que o falecido e esperto Roberto Marinho dificilmente usaria. Era um discreto que por muitos anos, grande parte das pessoas não sabiam quem era ele. Planejava as coisas nas entradas dos bastidores e dificilmente entraria tão acintosamente no sistema lavajatista que poderá ser, afinal, sua grande ruína.

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