4 de outubro de 2026

A maior ameaça à Polícia Federal, por Luis Nassif

Ainda há um contingente profissional na PF. Os abusos denunciados, agora, pela Folha, foram levantados há dois anos pelo repórter Marcelo Auler, e passaram intocados pela mídia corporativista na fase de cumplicidade.

Acompanhei os primeiros passos da modernização da Polícia Federal. Planejamento estratégico, programas de qualidade, inovação tecnológica, eram os pontos da nova agenda modernizante. Um dos responsáveis externos pelo trabalho me dizia que os policiais colocavam no peito broches saudando a nova PF, e orgulhavam-se da missão proposta, de ser um FBI dos trópicos.

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Nos contatos com delegados, ouvia relatos sobre o uso das novas tecnologias e as parcerias com o FBI, que permitiram localizar o comendador Arcanjo, o grande bicheiro de Mato Grosso, cujos recursos ajudaram a expandir o agronegócio local.

A reportagem de hoje, da Folha, sobre o engavetamento de um inquérito interno sobre grampos, apesar de proposto por procuradores, mostra que a Lava Jato contaminou todo o sistema de justiça do Paraná, do judiciário à PF. De empresa modelo, parte da PF se transformou em uma praticante de atos ilícitos. Não apenas nos grampos ilegais, mas na perseguição a delegados que tentaram preservá-la das ilegalidades a que era induzida por Sérgio Moro. E contaram com a plena cumplicidade de juízes paranaenses, aliados dos delegados em ações cíveis destinadas a calar as críticas.

Esse desmonte da PF começou com a Operação Satiagraha e o afastamento do delegado Paulo Lacerda por Lula, curvando-se a pressões do Supremo Tribunal Federal. Na época, o ex-Ministro Márcio Thomaz Bastos procurou a então chefe da Casa Civil Dilma Roussef e praticamente implorou para que convencesse Lula a não efetivar a demissão. A demissão implicaria em romper a paz interna da PF, submetendo-a aos embates internos de grupos partidarizados.

Sou testemunha desse processo. Fui intimado como testemunha de um inquérito interno destinado a apurar suposta venda de dossiês por setores da inteligência da PF contrários à Lava Jato. A denúncia havia partido da revista Veja, seguindo o jogo habitual de procuradores e delegados: plante uma denúncia e, com base nela, abra um inquérito.

Apenas na hora do depoimento me apresentaram o dossiê, indagando se eu conhecia o conteúdo. E aí me dei conta de que a única evidência de “vazamento” era o que havia saído no GGN. Só que era um artigo meu que foi copiado, sem o devido crédito, para dar a aparência de dossiê secreto.

O artigo era sobre a influencia de Rosangela Moro nas APAEs (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) do Paraná, e sua parceria com Marlus Arns, sobrinho de Flávio Arns que, como Secretário de Educação do Paraná, havia destinado R$ 450 milhões às APAEs. O tal dossiê era álibi para atacar grupos críticos da Lava Jato.

Havia publicado o artigo muito antes da Lava Jato. E inclui Rosangela quando Marlus se tornou advogado de delação e um evento na ONU revelou que ela era diretora jurídica da APAE Paraná, que encaminhava a Marlus todas as ações da entidade.

Ainda há um contingente profissional na PF. Os abusos denunciados, agora, pela Folha, foram levantados há dois anos pelo repórter Marcelo Auler, e passaram intocados pela mídia corporativista na fase de cumplicidade.

Agora, a denúncia mostrou o fim da parceria que garantia os abusos da Lava Jato. É possível que, agora, o lado profissional da PF se dê conta dos prejuízos causados pelos delegados que se deixaram contaminar pelo clima da Lava Jato – e que hoje ascenderam à cúpula da PF levados por Sérgio Moro. Eles são a maior ameaça à perpetuidade de uma PF profissional, que volte a ser orgulho do país.

O GGN prepara uma série de vídeos explicando a interferência dos EUA na Lava Jato. Quer apoiar esse projeto? Acesse www.catarse.me/LavaJatoLadoB e saiba mais.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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15 Comentários
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  1. Anônimo

    9 de setembro de 2019 11:39 am

    Polícia Federal – É de embrulhar o nosso estômago.

    Quando via o aparato de rambos da PF para prender políticos desarmados eu me perguntava porque não usavam aquela valentia para combater traficantes e milicianos. Hoje sabemos que aqueles ATORES INFERNAIS tramavam contra a democracia. E o pior é que estão soltos e não foram expulsos da corporação.

  2. Fabricio Coyote

    9 de setembro de 2019 12:16 pm

    d’antas e outros quadrúpedes: a polícia federal é comandada por um banqueiro. a ponto de Protógenes perder o cargo de delegado efetivo. coisa muito rara. assim como foi rara a prisão de delcídio do amaral por… em gravação clandestina sugerir conversar com ministros do supremo. direito de qql senador, diga-se. em fux we trust. fachi é nosso.

    p.s.: depois de Nassif citar Daniel Dantas, veremos se haverá citação sua no inquuérito, digo, brasil 247…

  3. peregrino

    9 de setembro de 2019 12:43 pm

    e por falar em milicianos…
    com as mudanças de Bolsonaro, ouvi dizer de um amigo que passou a ser uma palavra maldita, proibida em qualquer canto, qualquer boca e qualquer documento

    se é verdade ou não, só a parada ou a continuação das investigações dirão

  4. solle

    9 de setembro de 2019 4:26 pm

    Não sei o Lacerda, mas Protógenes e Fausto de Sanctis são apoiadores da vasa jato

  5. Jossimar

    9 de setembro de 2019 5:14 pm

    Em algum lugar há uma entrevista em que um brasileiro que já trabalhou o FBI afirma que vários delegados da PF recebem salários do FBi para cumprir ORDENS DELES.
    Isto deve estar no youtube mas não lembro o nome do entrevistado.

  6. Sergio Navas

    9 de setembro de 2019 10:09 pm

    “Estancar a sangria, com Supremo com tudo”

  7. Maria Luisa

    10 de setembro de 2019 4:46 am

    Que a PM e Policia Civil sejam fascistas, herdeiras da policia de Felinto Müller e da ditadura não causam espanto. Agora o caso da Policia Federal, teoricamente melhor formada e preparada atuar de forma similiar às policias de estado é algo que deveria ter chamado a atenção dos governos progressistas. A PF tem se mostrado reacionaria e esteve abertamente durante as ultimas eleições ao lado da candidatura de Aécio, um crimininoso, e agora com Bolsonaro ligado às miliciais. Que moral tem a PF?

  8. vera venturini

    10 de setembro de 2019 9:58 am

    Nassif e seu otimismo. Onde é que está o profissionalismo da PF? Cadê o Queiroz e quem matou a Marielle? De quem era a droga do helipóptero? Por que os tucanos estão todos impunes? Já pegaram a lavagem de dinheiro dos donos da mídia?
    Deixa de ser otimista, Nassif. Sofrem todos de bolsonarite. Usam o poder a seu proprio interesse. Pegam umas mulas nos aeroportos enquanto deixam passar conteiners de drogas?
    PS. Seu elogio ao Gilmar Mendes foi precoce demais. As declarações dele ontem comprovam que esse juizeco tem a altura do bolsonarismo. Nunca defendeu a institucionalidade, estava protegendo os baratas e tucanos da Lava Jato.

  9. altamiro souza

    10 de setembro de 2019 10:55 am

    mais uma matería que contextualiza e amplia
    bem a denuncia do Intercept…
    parabéns…

  10. NeoTupi

    10 de setembro de 2019 11:33 am

    Só esclarecendo: Paulo Lacerda foi afastado da PF antes da Satiagraha e foi para a ABIN. Na Satiagraha ele foi afastado da ABIN.
    Agora vamos ser sinceros. Quando ainda em 2005 Protógenes chamou o Cesar Tralli da Globo para filmar a prisão do filho do Maluf, cujos advogados haviam combinado dele se entregar sem imprensa, ali fez escola da espetacularização usada na Lava Jato.
    Gosto muito do Paulo Lacerda, e acho que ele fez a diferença mudando o perfil da PF. Só acho que, mesmo realizando um excelente trabalho, tem críticas que precisam ser feitas. Deixou correr um pouco frouxo alguns abusos de autoridade. Ele mesmo não previu que acabou criando monstros. Assim como Sepúlveda Pertence disse do MPF.

  11. JoaoMineirim

    10 de setembro de 2019 11:43 am

    Foi na PF que começou o golpe.
    A PF não não recebeu o reajuste salarial de 2008 (último concedido por Lula) aos servidores públicos.
    Em 2011, começaram as negociações dos sindicatos dos servidores e Dilma. Ela negava reajustes, somente concedeu reajustes em 2012, depois de muito cansaço e bagunça lá no Ministério do Planejamento, inclusive com infarto do então secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, Duvanier Paiva Ferreira.
    A PF continuou de fora deste reajuste, ela reivindicava outros percentuais, inclusive por ter ficado de fora dos reajustes de 2008. O ódio ao PT e a Dilma na PF chegaram aos níveis máximos. Não à toa teve agente treinando tiro ao alvo com a cara na Dilma.

    1. Arthemisia

      11 de setembro de 2019 5:04 pm

      Essa tara pelo enriquecimento das corporações no serviço público implodiu o país.

  12. CST command

    11 de setembro de 2019 8:49 am

    Detalhes chocantes (documentos) foram publicados confirmando perjúrio e falsificação de depoimentos de agentes da polícia federal durante prisões arbitrárias em massa de cidadãos obviamente inocentes. A Rússia pede que Bolsonaro não toque na lei de abuso de autoridades. (O botão de tradução para o português está localizado no canto superior direito)
    http://cstcommand.com/index.php/countries/yuzhnaya-amerika/braziliya/item/125-novye-podrobnosti-prestuplenij-politsii-brazilii-protiv-rossiyan-rassledovanie

  13. CST command

    11 de setembro de 2019 8:54 am

    O “CST command” conduziu uma investigação sobre o envolvimento da polícia federal na destruição das florestas amazônicas (O botão de tradução para o português está localizado no canto superior direito)
    http://cstcommand.com/index.php/countries/yuzhnaya-amerika/braziliya/item/22-mezhdunarodnyj-prestupnik-berjot-v-zalozhniki-amazoniyu-i-rabotaet-na-ssha-rassledovanie

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