Quando esse domingo termina?: o tempo da catástrofe para pessoas que vivem nas ruas
por Paulo Fernandes Silveira
“O desastre arruína tudo, deixando tudo como está”.
(Maurice Blanchot, A escritura do desastre).
Em meados dos anos 70, catástrofes naturais atingiram diversos lugares do mundo, tirando a vida de centenas de milhares de pessoas: os terremotos de Haicheng e de Tangshan, na China; o terremoto da Guatemala; o terremoto, seguido por um tsunami, no Golfo de Moro, nas Filipinas; a série de terremotos em Friul, no nordeste da Itália. Em agosto de 1976, anunciou-se a erupção do vulcão La soufrière, na ilha de Guadalupe, colônia francesa no Caribe. Segundo as previsões de especialistas, havia a possibilidade de uma explosão. Em poucos dias, 75 mil habitantes evacuaram a região.
Essas informações são apresentadas por Werner Herzog no início do seu documentário para televisão sobre o La soufrière. Assim que soube das ameaças de erupção e de explosão que deixou deserta a cidade próxima ao vulcão, o cineasta alemão partiu para ilha de Guadalupe. A realização do documentário às vésperas da catástrofe implicava num risco para Herzog e para os dois cinegrafistas da sua equipe.
As imagens do documentário mostram um cenário semelhante ao de muitos lugares do mundo após o confinamento provocado pela pandemia: uma cidade deserta onde somente alguns poucos animais circulam no meio das ruas, portas e janelas fechadas, semáforos que continuam funcionando apesar da ausência de carros e a presença de um silêncio que destoa da realidade retratada. Em determinado momento, Herzog colhe os testemunhos dos únicos habitantes que encontra na cidade. São três camponeses pobres de meia idade. Eles não têm medo de morrer. Um belo senhor negro, deitado na grama com seus gatos, esclarece: “Eu espero minha morte. (…) ninguém sabe quando ela virá, Deus a ordenou!” (HERZOG, 1977).
O documentário termina mostrando uma densa nuvem de fumaça saindo do vulcão que, para surpresa de todos, acabou não entrando em erupção. Acompanhado pela “Marcha fúnebre de Siegfried”, de Wagner, música que sugere o fim dos tempos (GUIDO, 2013), Herzog reconhece o elemento patético daquela “reportagem sobre uma catástrofe inevitável que nunca ocorreu” (HERZOG, 1977). Para o historiador Thomas Elsaesser, essa ideia percorre o trabalho de Herzog: a tediosa experiência do tempo marcada pela espera de um apocalipse que não chega (1986, p. 141).
Numa coletânea de fragmentos publicada em 1980, Maurice Blanchot propõe uma análise semelhante sobre a ameaça do desastre, catástrofe ou Shoah. Mesmo que estejamos à beira do desastre, argumenta o filósofo, não é possível situá-lo no porvir, pois não há tempo nem espaço em que ele se cumpra (1980, p. 8). Como podemos ser ameaçados por algo que não irá ocorrer? Nesse aparente paradoxo, Blanchot enlaça duas concepções de desastre: aquela que faz parte da experiência e aquela que não faz parte, especialmente, a “inexperiência de morrer” (1980, p. 63).
Esse livro de Blanchot insere-se num diálogo com o filósofo judeu Emmanuel Levinas, seu grande interlocutor e amigo (BIDENT, 1998, p. 517). Da riqueza e complexidade dos temas e questões abordadas, retenho, apenas, essa ideia sobre o tempo da catástrofe: além das calamidades finitas e historicamente datadas, há um desastre que nos ameaça constantemente, desde um passado imemorial, desastre que representa uma potência de destruição do mundo e de nós mesmos, avesso a toda e qualquer ordem estabelecida, “ruptura sempre em ruptura” (BLANCHOT, 1980, p. 121).
Com o esvaziamento dos grandes centros urbanos e a interrupção das atividades do comércio e dos ferros-velhos, as pessoas em situação de rua perderam suas já precárias condições de sobrevivência. Esse é o caso da Maria, que trabalha como catadora desde menina e, por causa do excesso de peso que carregava em sua carroça, danificou as articulações do seu joelho. Mesmo assim, atravessando a cidade numa cadeira de rodas, Maria continua coletando latinhas. Com o fechamento dos bares e dos ferros-velhos, Maria está nas ruas sem nenhuma proteção contra a pandemia e sem sua principal fonte de renda. Uma situação semelhante enfrenta o Anderson, um jovem baiano que veio há poucos meses tentar a sorte em São Paulo. Sem dinheiro ou familiares na cidade, Anderson passa as noites embaixo dos toldos das lojas. Antes do confinamento, o rapaz fazia pequenos serviços e coletava latinhas. Um caso ainda mais dramático é o do João, desde o término das obras de construção de um edifício de escritórios num bairro nobre da cidade, no qual ele era ajudante de pedreiro, esse senhor vive nas ruas. Depois de alguns anos, João foi se desligando da realidade, sua sobrevivência depende da doação de trabalhadores que passam por ele no caminho que leva ao trem.
Para Maria, Anderson e João, o tempo da cidade deserta passa lento e arrastado como o tempo do domingo, um tempo sem serviços e sem doações, um tempo de carências, solidão e abandono. A calamidade histórica que estamos enfrentando deve ter um fim, em breve, retornaremos para nossas atividades normais, mas o tempo do desastre das pessoas em situação de rua continuará lhes ameaçando constantemente.
Paulo Fernandes Silveira (FE-USP e IEA-USP)
Referências.
BIDENT. C. Maurice Blanchot: partenaire invisible: essai biographique. Paris: Éditions Champ Vallon, 1998. Disponível em:
http://93.174.95.29/main/6396710045E0BE966832D30B236B6F8F
BLANCHOT, M. L’écriture du désastre. Paris: Gallimard, 1980. Disponível em: http://93.174.95.29/main/B8B287C7CCEADDBD0A18E783DA56FF9E
ELSAESSER, T. An Anthropologist’s Eye. In: CORRGAN, T. (ed.), The films of Werner Herzog: Between mirage and history, London, Methuen 1986, 133-155. Disponível em: http://93.174.95.29/main/A428A15FBCFD835B716CA5230C89073E
GUIDO, L. Dans les ‘abysses du temps’. Echos wagnériens dans l’œuvre documentaire de Werner Herzog. Décadrages, n. 25, p. 37-59, 2013, Disponível em: https://journals.openedition.org/decadrages/727
HERZOG, W. La soufrière. 1977. Disponível em:
LEVINAS, E. Autrement qu’être au au-dela de l’essence. Paris: Kluwer Academic, 1978. Disponível em:
https://libgen.lc/ads.php?md5=D14C7BA7DD3153315156FD47D2315450
http://93.174.95.29/main/D14C7BA7DD3153315156FD47D2315450
Rui Ribeiro
1 de abril de 2020 2:56 pmComo diria minha humilde tia:
Esse domingo tá passando mais devagar do que um dia de fome
Dinah Papi Guimaraens
1 de abril de 2020 2:59 pmÓtimo artigo de reflexão acadêmica. Em tempos de Covid-19, rememoro poeticamente García Lorca: “Todos compreendem a dor que se relaciona com a morte, mas a verdadeira dor não está presente no espírito (…) A verdadeira dor que mantém desperta as coisas é uma pequena queimadura infinita nos olhos inocentes dos outros sistemas (…) Nós ignoramos que o pensamento tem favelas onde o filósofo é devorado pelos chineses e pelas lagartas e alguns meninos idiotas têm encontrado nas cozinhas pequenas andorinhas com muletas que sabiam pronunciar a palavra amor. ” (GARCÍA LORCA, Federico. “Panorama Ciego de Nueva York” in Poeta en Nueva York. Madrid, Catedra/ Letras Hispanicas, 2017, p. 147-8).
Paulo Silveira
2 de abril de 2020 7:24 amOlá Rui Ribeiro, que belíssimo comentário, obrigado! Também aprendi sobre a fome com um parente, meu vô, Florestan. Oi Dinah Papi, que texto lindo do Lorca, vou passar para os meu alunos. Trabalho com minha companheira, que é arquiteta, numa das favelas mais pobres de SP, a Moinho, adorei o “pensamento tem favelas”, beijos
Rui Ribeiro
2 de abril de 2020 11:51 amOi, Paulo.
Cara, eu aprendi sobre a fome comigo mesmo.
Valeu, Hermano. Ninguém larga a mão de ninguém.
Valeu pelo voluntariado na favela Moinho.
Volunteers of America, Jefferson Airplane
Quando eu ouvir essa belíssima música, vou me lembrar de você e de sua companheira.