4 de junho de 2026

Fragmento de carta de um embaixador a um amigo sobre país sul-americano tiranizado, por Sr. Semana

Não leitor(a), o país de que trata a carta não é o Brasil, a cidade não é Brasília e o presidente não é quem você está pensando. É a Venezuela, não a de hoje, mas a de 1905.
Rio de Janeiro - Correspondência inédita de 1904 de Machado de Assis para o acadêmico José Veríssimo doada à Academia Brasileira de Letras (ABL) por herdeiros da família Veríssimo (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Fragmento de carta de um embaixador a um amigo sobre país sul-americano tiranizado.

por Sr. Semana

“Meu prezado amigo. Foi para mim um treat, como dizem os ingleses, receber a sua carta… Se o senhor soubesse o que é [a capital deste país] avaliaria este prazer. A maior distração aqui … é [abrir a caixa de] correio. Quando está recheada, o dia é de marcar com pedrinha branca … quando o correio é magro … o coração [fica] melancólico. … O clima … é quente e úmido. Agora é mesmo a estação das chuvas. O clima, apesar de não ser bom, tanto que aqui há … febre amarela, é contudo a melhor coisa [da cidade]. Imagine o resto! A atmosfera moral é sobretudo depressiva. … Aqui reina um despotismo bárbaro e ignorante. Não é o bom tirano do [Ernest] Renan. É uma tirania licenciosa e cruel, como qualquer da Itália da Renascença, sem a feição artística, o realce do refinamento, o corretivo intelectual. Um [presidente]… tão repelente, tão traiçoeiro, tão avesso à civilização … subjuga as vontades, domina as consciências, impera pelo temor. É um espetáculo que vale quase a pena ver porque não parece do nosso século e dentro em pouco pertencerá, é de esperar, ao passado. … O elemento inteligente do país — que o há incontestavelmente — está contudo avassalado, disto não há dúvida, e almeja por uma transformação que não tem coragem para realizar e que talvez não mereça porque também tem suas culpas e defeitos”.

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Não leitor(a), o país de que trata a carta não é o Brasil, a cidade não é Brasília e o presidente não é quem você está pensando. É a Venezuela, não a de hoje, mas a de 1905. A carta foi escrita de Caracas pelo embaixador brasileiro Oliveira Lima a Machado de Assis e está publicada no volume V da Correspondência de Machado de Assis, Rio de Janeiro: Global, 2019, carta 835, pp. 28-30.

Esperemos, 115 anos depois e no mais importante país da América do Sul, que o elemento inteligente tenha a coragem de realizar a transformação que almeja e, juntando a nossa esperança à do embaixador, que a situação descrita na carta venha, dentro em pouco, pertencer ao passado.

Redação

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