4 de junho de 2026

O brasileiro e sua Fé Cristã, as esquerdas e o Golpe de Estado.

Lendo este último xadrez do Nassif – https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-da-democracia-em-transe-e-dos-aprendizes-de-feiticeiro#comment-967540 – e os comentários me veio a impressão de que precisamos olhar para o brasileiro real dentro da sua religiosidade cristã  e da cultura do American Way Of Life e da Meritocracia para entender o pacifismo como se encara o Golpe de Estado. E, surgiu este texto. 

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O brasileiro e sua Fé Cristã, as esquerdas e o Golpe de Estado.

O brasileiro tem uma formação cristã. E, dentro dela foram décadas de um cristianismo mais voltado para o campo espiritual.

Talvez, se olhou muito mais para as coisas do além do que para as coisas terrenas, do que para os problemas cotidianos, resolvidos ou na hora do voto, sendo o eleito quem deve resolvê-los, e se não tiver Eleição, por quem assumiu o Poder sem voto.

Não há uma preocupação coletiva com os rumos da sociedade brasileira. Porém, podemos assistir uma necessidade de culpar os outros pelos problemas que enfrentamos na Economia e Sociedade.

Uns chamam os golpistas de culpados, outros chamam de culpados o PT, Lula e Dilma. Ninguém se vê participante dos erros. O Pecado está no outro. Eu não faço parte do todo, sou apenas eu, minha família e no máximo meus amigos.

Não querendo polemizar, já polemizando e durante todo o texto polemizarei.

Jovens brasileiros, maior comitiva na Jornada Mundial da Juventude e mesmo com um Papa progressista o que se mostra desses jovens: eles são sorridentes, cheios de Fé, Esperança, creem na Salvação, se mostram solidários, porém, eles estão sorridentes e felizes, mas não estão vendo a banda passar no Brasil do Golpe nada solidário por excelência e acreditam em contos de fadas:

– solidariedade resolve tudo. Terço na mão e pronto!

E, imaginemos no todo da sociedade? Quantos jovens sabem enxergar a realidade para além do doméstico, do quarteirão de casa, do núcleo familiar e dos amigos e do trabalho?

O brasileiro é acima de tudo um acomodado. É um retrato do cristianismo pouco engajado e que não se enxerga como uma Teologia da Libertação, e, sim! Muito mais como um neopentecostal e a Teoria da Prosperidade. Abraça-se na ideia da Fé, da bondade, até, mas não se coloca como agente social, porque não lhe foi dado o passaporte de agente para estar no Mundo do Pecado como participante, não lhe foi colocada a ideia de coletividade, de que são as ações concretas de Poder que podem tornar as pregações de Jesus Cristo reais, e que elas precisam ser colhidas nos governos e parlamentos e não apenas numa corrente de Oração pela paz do Mundo.

Deixar que os outros façam exime de culpas quem não fez. Exime de pecados. Foi o outro quem fez, não sou responsável. E o brasileiro comum é bem este quadro de não envolvimento com a realidade concreta do Poder, não é verdade?

Imaginemos em um País que mistura a religiosidade conservadora com a Cultura do American Way Of Life. Que mistura a cultura do consumo e a cultura da meritocracia. Que avança no individualismo do meu diploma, meu carro, meu emprego, minha Casa, minha Vida e, ainda, tem alguém para referendar isto, em crescente nas Igrejas neopentecostais, principalmente.

Talvez, o programa Minha Casa, Minha Vida poderia chamar Programa Casa para Todos, como foi chamado o programa de levar energia elétrica para todos os lares: Luz para todos. Porém, a sociedade do “eu” não daria a significância se assim chamado fosse.

Adentramos no Brasil existente e vemos que o brasileiro nem sindicalizado quer ser para não pagar uma taxa de Imposto Sindical. E, como ele não é dado ao raciocínio acredita que nasceu do Céu: férias, 13, cesta básica, vale-transporte, aviso prévio de 90 dias, jornada de 44 horas, etc. É uma mistura de Divino com boa-vontade dos “homens do dinheiro”.

Você compra foi seu esforço, você não compra a culpa é de quem está fora do seu domínio de ações. Claro, colocando em evidência que uns são mais culpados que outros, porque se assumem coletivos e, no meu individualismo se mexe, se retira os brios do esforço.

Imaginemos cadê meu mérito se eu penso coletivo, se eu faço parte de um Governo que olha por todos e não me destaca?

Eu pensei nos professores. Imaginemos criar aulas de Cidadania, de noções básicas de Direito, de Educação Sexual, de Política nas escolas. Qual sindicato iria bancar uma revolução deste quilate? O Professor perder metade da grade semanal de aulas, para implementar outro currículo escolar?

É o corporativismo. É a aceitação da realidade, contanto que não se produza um choque com a minha Identidade, com o meu mérito. Se todos perdem tudo bem. Se perco eu, para os outros ganharem um pouco que seja, não dá!

Fomos educados assim…

A estrada congestionada por causa de um deslizamento de terra, tudo parado e o acostamento livre, quantos não aproveitam o único espaço livre para chegar antes de todos ao destino final, depois lá na frente, ainda têm a cara-de-pau de ligar o pisca-alerta e pedir para entrar de volta para a estrada, e se acredita em Deus. É o além. Terreno não me é preciso ser dado ao comportamento civilizado.

O brasileiro corre o tempo todo contra si mesmo. Melhora de Vida e se considera o hospedeiro do fato.

Porém, se disserem para ele que existe um conjunto de ações coletivas e que há um Governo trabalhando junto para sua melhoria de vida ele já desconfia, prefere acreditar no que a Imprensa diz.

A realidade fica embaçada. Ele prefere perder tudo o que conquista, sem dar o braço a torcer. E, ainda, culpa quem lhe propiciou fazer o que “seu olhar meritocrático almejou e conseguiu”. Afinal, quem lhe propiciou discursa coletivamente.

Assusta ser coletivo no Brasil. Eu quero ter de tudo o que o Capitalismo me apresenta, mas não quero que ninguém leve/receba o respeito por eu conseguir.

Aquela mãe que fez a filha de + ou – 7 anos inculcar que a culpa da criança não ir para a Disney era da Dilma, porque subiu o dólar é bem o retrato do Brasil.

Quando todos iam gastar bilhões em compras em Nova Iorque nenhuma reflexão do fato nenhuma valorização para além da meritocracia. Tudo foi possível porque eu tenho “talento” e trabalho.

E, hoje, nem baixando o dólar conseguirei ir.

Faltou trabalho? Faltou talento? Não! O Governo atrapalhou.

Enquanto a sociedade for individualista e centrada na ideia do esforço individual não sairemos desta situação desalentadora de ver com olhos inertes o que acontece, sem ativar nenhum neurônio interior.

Porém, quem vai saber dialogar com esta realidade, a direita aproveita a situação e radicaliza para o extremo do mérito privado.

Quem deu o Golpe não fala em coletivo, fala em mérito, fala em iniciativa privada, e aqui no Brasil, privado é sinal grandeza.

– Ele conseguiu, nossa! Que inveja dele!

Um repete o outro. E, todos perdem ou ganham e perdem de novo e pouco importa, a oportunidade está dada.

– Eu que não a abracei. Tem um sujeito na minha rua que se deu bem e, ainda, está em ascensão, pode até ir morar em Miami.

Esta é a realidade. Décadas e décadas de cristianismo neopentecostal, carismático e uma sociedade que não se enxerga no coletivo dela mesma. Transcendente a um mundo outro, noutra Fé – não terrena – lá do alto.

– Se eu não pequei, se eu segui os mandamentos da Lei de Deus, ok! (Aqui não falo dos que se aproveitam da Fé alheia e até se arriscam a ir aos parlamentos colocar seus interesses particulares misturados com uma “Falsa Fé” em funcionamento).

O Golpe de Estado é possível porque é pacífico, é ordeiro o povo brasileiro. Temer assumiu sabiamente com o lema: Ordem e Progresso.

Você produz a narrativa de que estamos a sair do caos e o Progresso virá.

O que não fazem as mídias apoiadoras da deposição de Dilma e da efetivação de Temer, neste momento?

Acabou a bagunça. Deixa o homem trabalhar. E tudo se acertará.

Acreditávamos na consciência do brasileiro que seria possível responder ao Golpe com as ruas cheias de contragolpe, mas ele, o brasileiro, não foi capaz de entender ou quem sabe, se acomodou na eterna esperança da Fé e do pacifismo cristão brasileiro.

Somos 30% de coletivistas, outros 10% de radicais e 60% de meritocráticos. Este o Brasil real. E uma infinidade de cristãos, mesmo que não praticantes, casam, batizam nas Igrejas cristãs. Até Missa de 7 dia rezam.

Dos coletivistas, a grande parte das esquerdas, têm tantos coletivismos que se perdem no “eu”, também. A minha ideia, a minha corrente, a minha vitória, acima do verdadeiro coletivo que não nos esqueçamos é COLETIVO.

O Brasil ainda não se debruçou para escolher um sentido de Nação. Somos apenas uma unidade territorial, uma fronteira grande nos separa de outros países da América do Sul sem preservar as nossas fronteiras da Globalização, esta, nem sabemos o que seja e como ela nos é oferecida.

Estamos felizes. Não mexeu comigo e com meus amigos e familiares, o que importa como a Justiça age com os outros? O senso de coletivo está dentro da Fé, na religiosidade e só lá se resolve o que interessa.

Por isto falei da Jornada Mundial da Juventude no começo do texto e o seu significado para os brasileiros jovens que lá foram. É festa, alegria, solidariedade, mas, o Brasil real é para outro jovem colaborar.

Não há Revolução possível dentro da alienação bondosa das boas intenções. Da solidariedade da cesta básica. Da roupa velha doada. Do cada um dá um pouco, enquanto, o Governo do Golpe tira quase tudo.

Qual o Brasil possível?

Escolhendo um caminho dentro da realidade do brasileiro, americanizada, consumista e meritocrática com bases cristãs há soluções?

E as esquerdas neste Brasil de agosto de 2016?

Para onde caminham? Para o cartaz de “Fora Temer” e, ele continua ai livre, leve e solto?

Quem vai assumir o comando de voz da sociedade pela via das esquerdas, para além de Lula, entendendo o que é o brasileiro, e, não, apenas, o que a justeza de uma sociedade merece?

Como equilibrar o pensamento real e o desejo do brasileiro: em sua grande maioria, e um discurso palatável da esquerda, que se possa ecoar na sociedade como voz ativa?

Não há mais o Brasil da conciliação de classes.

Porém, há quem queira conciliação?

Ou há quem queira manter tudo como está? Porque não se precisa mexer com as crenças individuais de cada brasileiro e o sofá ou o ar-condicionado é mais cômodo, não precisa pôr a mão na massa, quebrar nada, sair da casinha, no pensar popular.

As esquerdas fabricarão heróis capazes de representar a alma dos brasileiros?

Há diálogo com a sociedade real?

Ai é que entra a questão para a reflexão.

Talvez, o certo é que não há identidade de um Governo no Brasil sem identidade com o caráter cristão da sociedade.

Não é misturar Política e Religião, é ter uma compreensão mais cristã e menos radical do trato com esse tema. Dissocia a realidade e o discurso proferido, infelizmente, o que discursa sem notar a força do cristianismo na sociedade brasileira.

O conservadorismo neopentecostal, carismático é mais forte do que se imagina.

É um pouco da Teoria da Prosperidade, do meritocrático, do American Way Of Life o predomínio do individualismo sobre o coletivismo.

Precisamos encarar de frente esta realidade.

O aborto, por exemplo, se a maioria da população é contrária, a gente vai construir um texto e desancar a sociedade brasileira?

Se vamos dialogar com ela como vamos fazer?

Usar um mecanismo de conscientização das diferenças possíveis de entendimento do tema, conforme a visão de mundo de cada pessoa e da importância de colocar o aborto como uma questão de Saúde Pública ou vamos sair falando mal e chamando de conservador, desmerecendo todos que são contrários ao aborto? Mesmo que o contrário ao aborto, ao diálogo não se apresente, muitas das vezes. Têm quem possa mudar de opinião, mesmo assim, certo?

Este exemplo mostra porque, penso eu, as esquerdas muitas das vezes não conseguem chegar ao seio da sociedade brasileira de maneira definitiva e eficaz.

Queremos uma imposição contra majoritária. E, o resultado é ineficaz.

Urge, para terminar, às esquerdas entenderem o brasileiro real, para construir um discurso que lhes possa ser plausível e amigável.

E, para, além da ideia da conciliação de classes. Um discurso forte e seguro, mas, que chame à reflexão dos pontos centrais:

Que País queremos?

Que modelo de sociedade pode nos levar até este País? O que está ai, não é, ponto pacífico.

Como conceituar melhor a ideia de defesa dos interesses nacionais e de defesa de nossa Bandeira, hoje, utilizada mais pela cor contrastante com o vermelho do que pela importância nacional de construção de um Brasil independente, soberano, desenvolvido culturalmente, socialmente e economicamente. Constitutiva de uma Identidade Nacional.

Enfim, tudo feito sem o descuido com a linguagem, que não seja desagregadora, que não afugente o ouvinte, que não o reconheça e que ele se reconheça nas ideias a serem defendidas e buscadas pelas esquerdas, melhor seria, por uma Esquerda unificada, pois, são em si próximos objetivos a serem alcançados no Brasil que nós queremos ver florescido.

A difusão de ideias que abandonem o brasileiro real para se buscar um brasileiro ideal, que é nosso espelho (das esquerdas) não vai resolver a realidade atual. O coletivo é coletivo eficaz sem se deixar de lado o Ser humano e sua individualidade interior, com seus desejos e aspirações.

Menos Malafaia e Feliciano, certo. Jamais a ideia de que as suas existências atestam que a religiosidade neopentecostal, carismática, de uma Fé transcendental, do olhar meritocrático, até do American Way Of Life e a Teoria da Prosperidade são um mal para a sociedade, pode ser para nós, não são para o brasileiro em geral. Uma coisa não tem ligação com a outra. Não se deixa de ser uma sociedade cristã por causa desses modelos de pastores. Eles passam, a Fé cristã continuará.

E, o Brasil, para as esquerdas, não caminhará por dias melhores sem este entendimento do discurso que olhe o brasileiro existente e sua religiosidade cristã, também.

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