Dia a dia, hora a hora, minuto a minuto somos bombardeados por informações sobre a atual crise político-institucional no Brasil. As informações são muitas e não raras são diametralmente opostas. Não apenas isso, a Grande Imprensa age deliberadamente com o intuito de confundir a opinião pública, misturando fatos diversos para dar a impressão de que se trata de – misturar Lava Jato com impeachment é a face mais descarada da tentativa de confusão e manipulação, uma vez que o impeachment não tem ABSOLUTAMENTE NENHUMA RELAÇÃO com os casos de corrupção na Petrobrás nos últimos 13 anos – escopo da investigação do Juiz moro, que ignora até a existência da estatal petrolífera antes dos governos petistas.
Na contramão da Grande Imprensa, tento neste artigo esclarecer – sem pretensão de aprofundar – os personagens principais da atual crise política e institucional do país. Em tempo: ainda que não sejam verdades absolutas o que direi a seguir, tampouco se trata de mera opinião: há um embasamento na realidade, cuja interpretação pode ser questionada, mas o fato, não.
Afinal, é golpe?
Questão primordial: impeachment é golpe? Resposta: depende do contexto. Em uma situação com crime de responsabilidade do presidente da República, não é. Sem haver crime, afastar um presidente por problemas na economia ou por fazer o que todos os presidentes e governadores fazem e fizeram, é, sim, golpe. O impeachment de Dilma tem como base não um crime, um ato de corrupção ou casos revelados pela Lava Jato, mas as tais “pedaladas fiscais”, cometidas por FHC, Lula, Alckmin, Serra, Aécio, Anastasia, Temer (nas vezes que assumiu o governo) e tantos outros chefes do executivo, que nunca foram incomodados por isso – e é muito provável que nunca mais “pedaladas fiscais” voltem a ser crime.
Por que, então, tanta disputa sobre se é golpe ou não? Simples: porque desde a derrocada dos regimes totalitários nazi-fascistas, na Segunda Guerra Mundial, “golpe de Estado” e “ditadura” deixaram de ser termos positivos. Em 1964 os militares negaram o golpe a implementação de uma ditadura civil-militar: era uma revolução que implementaria um governo transitório de união e salvação nacional para que dali dois anos, conforme previsto na Constituição, as eleições acontecessem tranqüilamente. O resultado foi 21 anos de ditadura, com torturas, assassinatos e violações muitas dos direitos humanos.
No caso atual: a maior parte da esquerda brasileira, grupos e pessoas defensores da legalidade e da democracia (à direita e à esquerda), a imprensa internacional, esses acusam o golpe de estado; alguns governos estrangeiros também condenaram o golpe, enquanto a maioria permaneceu em constrangedor silêncio, quando o habitual seria ligar para o novo chefe de Estado e de governo, reconhecendo-o como tal. Os golpistas, esses, claro, negam o golpe: a grande imprensa (Globo, Veja, Folha, etc), a Fiesp e o pato fascista do Skaf, grandes empresas, em especial multinacionais do petróleo; partidos como PMDB, PSDB, PTB, PSC e PP; o presidente em exercício do golpe, Temer, e políticos que ganharam com sua ascensão, para eles o que há é democracia, ainda que quem governe tenha 1% das intenções de voto, e o plano de governo implementado tenha sido derrotado nas últimas quatro eleições.
Quem é quem no golpe de 2016?
Rede Globo e Grande Imprensa. A imprensa brasileira é um caso raro no mundo: poucas (e ricas) famílias dominam e controlam praticamente toda a produção de notícias (fora da internet). Fruto da ditadura militar, que assim evitou a pluralidade de pensamento (e qualquer questionamento), essa concentração não foi rompida na redemocratização. Resultado: o que os donos da voz dizem, não há ninguém com força igual para contradizer – que não manifestações nas ruas e, recentemente, a internet. Defendem suas idéias como se fossem verdades. Exemplos dessas idéias: o Brasil está quebrado (endividamento de 66% do PIB, quando os EUA tem dívida de 104%, o Japão, 229%), a iniciativa privada funciona melhor que o setor público (comparemos as universidades públicas e privadas, por exemplo), na iniciativa privada não há corrupção (como se quem corrompe não fosse também corrupto, e como se empregados de grandes empresas não aceitassem dinheiro ilegal para favorecer este ou aquele fornecedor), todo o Brasil (salvo os petistas) é contra Dilma, não é golpe, etc. Ouso dizer: a Grande Imprensa brasileira não faz jornalismo, mas sim faz a canalhice de (tentar) transformar a publicidade dos seus interesses em verdades absolutas. Ela segue a máxima do ministro nazista Goebbels: uma mentira repetida um milhão de vezes se torna uma verdade: se TODOS os jornais televisivos, TODOS os jornais diários, 3 das 4 revistas semanais dizem a MESMA coisa, fica difícil não aceitar que seja verdade a mentira que contam.
Especialistas. Sempre que a grande imprensa quer legitimar sua visão de mundo, ela chama um “especialista”, em geral algum professor universitário (quando não um jornalista da casa que é jornalista e tem conhecimento técnico bastante raso, como a maioria dos comentaristas de economia). Ocorre que na ciência – ainda mais nas ciências humanas e sociais – não há verdade absoluta: o que temos são modelos teóricos de interpretação do mundo, e especialistas nesses modelos. A imprensa, claro, chama sempre os especialistas nos modelos que ela defende, de modo que parece que se trata de uma verdade, quando é tão-somente uma interpretação. Se fosse menos canalha, poria dois especialistas em interpretações diferentes para debater, e veríamos que os “descalabros na economia” que um especialista acusa, se utilizando de diversos dados, o outro justifica, com tantos dados quanto o primeiro, que é a melhor opção para o país.
Constituição de 1988. Fruto das lutas pela redemocratização que agitaram o Brasil desde o fim da década de 1970, a Constituição de 1988, lei maior do país, foi uma conquista da população e dos movimentos sociais, e um golpe em muitos interesses da elite do país, que teve que engolir direitos sociais contrários aos seus lucros – os exemplos mais evidentes são o da educação e saúde como direitos dos cidadãos e dever do Estado, a previdência social e os direitos dos trabalhadores. Praticamente desde sua promulgação, grupos conservadores e empresariais tentam alterá-la para favorecer seus negócios, em detrimentos dos cidadãos.
A constituição também definiu a divisão dos três poderes: executivo, legislativo e judiciário. Segundo o jurista Fabio Konder Comparato, politicamente a Constituição de 1988 garantiu manter o povo à distância das decisões, e a supremacia das oligarquias. Dois exemplos: a Constituição ou qualquer uma de suas emendas nunca passou pelo crivo popular de uma referendo, tudo passa apenas pelos “representantes” do povo; apesar de estar previsto práticas de democracia direta, como referendos, plebiscitos e afins, na prática foram criadas umas série de empecilhos, que tornam a democracia direta letra morta.
Presidencialismo de coalização. A constituição de 1988 estabeleceu o regime presidencialista de governo, mas um sistema eleitoral inspirado no parlamentarismo europeu. Com isso, favoreceu um pluripartidarismo que torna praticamente impossível um partido ter a maioria do congresso – as maiores bancadas costumam ter 20% da casa – e precisa, para isso, compôr essa maioria com outros partidos – alguns o fazem com base em concordância de princípios, outros, a partir de trocas de cargos e ministérios -, o que gera o tal “presidencialismo de coalizão”, em que o presidente ou negocia cargos e forma essa maioria no congresso ou simplesmente não governa.
Poder legislativo. Em tese seria o poder responsável por criar leis, atendendo aos interesses da sociedade, além de fiscalizar as ações do executivo. O congresso, com 513 deputados, é a representação proporcional da população; enquanto o senado, com 81 senadores, três por estado, é a representação do pacto federativo.
Poder Judiciário. Por não estar submetido a eleições e não ter qualquer relação direta com o povo, o judiciário seria um poder que pode agir em desacordo com o clamor popular, desde que de acordo com a Constituição Federal. Claro que, por ser composto por homens e mulheres, e não por anjos, juízes não estão completamente isentos de opiniões políticas; deveriam, entretanto, tentar ser o mais distanciado possível dessas disputas. Um primeiro exemplo de como funciona o judiciário brasileiro: um dia depois de divulgar foto no Facebook em que participava de protesto contra o governo, anunciava que Dilma em breve cairia e ele poderia voltar a fazer compras em Miami, o juiz Itagiba Cappa Preta Neto suspendeu a nomeação do Lula como ministro – até uma mãe coruja é mais imparcial.
Estado de Direito. Por Estado de Direito entende-se aquele em que todos estão sob o domínio da lei: todos sabem quais seus direitos e deveres e ninguém pode transgredir uma lei sem que isso acarrete uma punição.
Estado Democrático. É o Estado cujo governo é regido por princípios democráticos, ou seja, o poder emana do povo e a ele pertence – governantes são seus representantes e seu poder é limitado (pelo Estado de Direito) e temporário. Um dos principais (e mais visíveis) elementos constitutivos de uma democracia são eleições periódicas, cujo resultado deve ser respeitado por todos. Só eleições, contudo, não determinam uma democracia: Saddam Hussein era seguidamente reeleito pela população iraquiana, nem por isso deixava de ser um ditador.
Esquerda e Direita. Definição do espectro político que vem das posições na Assembléia Nacional da Revolução Francesa, em 1789: à esquerda ficavam os radicais da revolução (burgueses entre eles), identificados com a República, o ideal de “liberdade, igualdade e fraternidade”, e a massa da população; à direita ficavam os defensores do antigo regime, da monarquia, dos privilégios a uns poucos. Essa divisão se consolidou no vocabulário político: ser de esquerda passou a ser sinônimo de ser favorável às causas populares, enquanto ser de direita, às causas da elites, da burguesia. Claro, o mundo é complexo, e às vezes uma política que visa favorecer a maioria população acaba por ter o efeito inverso, enquanto que favorecer os mais favorecidos pode acarretar benefícios a toda a população. Em geral, fora dos extremos, posições de esquerda defendem a intervenção estatal para corrigir distorções econômicas, enquanto as de direita acreditam no livre-mercado, em que o próprio mercado corrige suas distorções (como fome, pobreza, carência de infra-estrutura, etc).
Partido dos Trabalhadores (PT). Partido de esquerda não-marxista e não filiado à internacional social-democrata (no Brasil, o PDT de Brizola assume esse papel), foi fundado a partir das lutas sindicais do ABC no final da ditadura, junto com a ala progressista da Igreja Católica, trabalhadores sem terra, intelectuais de esquerda e outros movimentos sociais. É o que cientistas políticos chamam de “partido de massas”, ou seja, construído a partir da base, das lutas e dos movimentos sociais.
Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Partido fundado no fim da ditadura a partir do partido de oposição consentida à ditadura militar. Foi o principal partido na década de 1980, e a partir de 1990 passou a ser o partido necessário para a governabilidade, isto é, para conseguir a maioria no congresso para o presidencialismo de coalização. Acabou por se tornar um grupo de caciques políticos distintos, que vão da esquerda (Requião) à extrema-direita com cores fascistas (Eduardo Cunha e Paulo Skaf). Originalmente era defensor da democracia e à esquerda (pode parecer redundante falar em defensor da democracia, mas vale ressaltar que o partido herdeiro do Arena, o partido defensor da ditadura militar, hoje se chama Democratas).
Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB). Formado principalmente por dissidentes paulistas do PMDB, derrotados na disputa interna com Orestes Quércia, o PSDB também se originou como de esquerda, mas se aliou às forças mais retrógradas do país para assumir o poder, em 1994, e adotou o receituário de direita neoliberal, com privatizações de empresas e do serviço público. Desde 2010, com José Serra, se tornou um partido retrógrado também nos costumes. Hoje vai além de discursar contra o aborto e a favor da diminuição da maioridade penal: um dos seus principais nomes, Geraldo Alckmin, defende execuções extra-judiciais de suspeitos, repressão violenta a protestos políticos e não hesita em usar arma letal contra estudantes de 16 anos de idade (e emplacou o ministro da justiça e direitos humanos no governo golpista).
Supremo Tribunal Federal. Guardião-mor da Constituição e das leis, os ministros que compõem a corte deveriam ser pessoas com profundo saber jurídico e capacidade de isenção ou, ao menos, de assumir sua parcialidade e se omitir de julgar casos em que não se vê capaz de imparcialidade. Deveriam ser, não são: ministros aceitam prêmios de personalidade do ano por parte dos golpistas, declaram publicamente sua opinião antes de conhecerem em detalhes o caso (conhecido como pré-julgamento, coisa que se faz em mesa de bar, sem problemas, mas não deveria nunca ser feito pelo judiciário, muito menos pelo STF), não tomam medidas contra desrespeitos constitucionais, tem o poder individual de “vetar” leis que não concordem e estão sendo julgadas na corte. Mas isso é apenas um esboço perto da esbórnia que é Gilmar Mendes, indicado por FHC (PSDB), que escarnece da Constituição, das leis, dos seus colegas, de todo o país, age como se fosse o senhor de escravo do Brasil colonial, liberta banqueiro ou estuprador amigos seus, manda perseguir político inimigo, evita que a lei que ele não concorda seja executada, como a que proibia financiamento privado de campanha política (se fosse enunciar seus desmandos vestido toga, este artigo dobraria de tamanho). Glimar Mendes e seus colegas podem fazer isso e muito mais porque, segundo Comparato, o Supremo Tribunal Federal não obedece a NENHUM controle, ou seja, é um poder em que seus membros têm direito a fazer o que bem entenderem.
Sérgio Moro. Transformado em herói nacional, pouco há de herói nele, muito menos de nacionalista, muito menos de juiz – está antes para justiceiro. Segundo documentos secretos divulgado pelo site WikiLeaks, recebeu treinamento dos EUA – tal qual os torturadores na época da ditadura civil-militar. Sua mulher foi advogada do PSDB do Paraná. Seu método de conseguir “delações premiadas” é posto em suspeição: consegue tais delações depois de pôr os suspeitos (ou seja, não se trata de culpados, de criminosos, e nossas leis são claras: todo mundo é inocente, por mais suspeito que seja, até que se prove o contrário) em prisão preventiva por tempo indeterminado, que pode durar anos, a não ser que se faça a tal delação. A cereja do bolo foi o crime lesa-pátria ao grampear ilegalmente (isso, um juiz ilegal, à margem da lei que ele deveria respeitar) a presidenta da República e divulgar na grande imprensa – mas não há conluio entre Lava Jato, Globo e golpe, imagina. Depois mandou uma cartinha ao STF pedindo desculpas por ter pisado na Constituição Federal e ficou tudo bem. Lembra aquela história de Estado de Direito? Moro mostrou que a justiça brasileira está acima do direito – bem ao gosto de Hitler, Mussolini e outros do tipo.
Operação Lava-Jato e geopolítica. Foi deflagrada em março de 2014 (ótima data para combinar com as eleições de outubro parte das revelações mais bombásticas) para combater casos de corrupção da Petrobrás. A questão política da Operação acaba ofuscando aspectos econômicos e geopolíticos que ela atinge – a Grande Imprensa ajuda a desviar o foco. Até agora, temos que a Lava Jato ataca o setor de defesa nacional e autonomia militar e energética, e as empresas brasileiras que assumiam papel relevante no contexto mundial globalizado.
Foram três alvos estratégicos que ela atingiu: 1) o projeto do submarino nuclear brasileiro: tratava-se de uma pesquisa bem-sucedida pelo exército, de criar um submarino a propulsão nuclear; para além do poderio militar, ampliando a segurança do extenso litoral brasileiro, esse projeto daria excepcional autonomia ao país, uma vez que vinha desenvolvendo tecnologia própria, ao invés de comprá-la do exterior – como dos Estados Unidos. 2) Petrobrás: desde Lula a empresa passou a ser valorizada dentro do governo, pode desenvolver suas potencialidades (a descoberta do pré-sal foi conseqüência disso) e passou por um processo de internacionalização. A estatal brasileira do petróleo é uma das mais avançadas na tecnologia de pesquisa e extração de petróleo, em especial em águas profundas, e um exemplo mundial de eficiência, uma das poucas petroleiras fora do Oriente Médio capaz de sobreviver sem subsídios estatais com o preço do barril de petróleo abaixo de US$ 20. Se não podem privatizá-la (FHC havia até criado um novo nome para então ser privatizada, a Petrobrax), os golpistas querem, então, quebrá-la. Ademais, a não nos esqueçamos do pré-sal, cuja reserva, estima-se, seja a segunda maior do mundo, e a exploração é exclusividade da Petrobrás, ou seja, está vedada às “Seis Irmãs do Petróleo”. 3) as grandes empreiteiras nacionais, que vinham, desde Lula, se internacionalizando, ganhando concorrências e licitações nos países americanos e africanos e ameaçando, junto com as empreiteiras chinesas, a hegemonia das grandes empresas dos EUA e Europa. Petrobrás e empreiteiras eram o que economistas chamam de “global player”, empresas com força global.
Uma curiosidade muito estranha: investiga-se desvio de dinheiro, corrupção, contas aqui e acolá, transferências milionárias, mas NENHUM banco privado fez nada de errado, apesar de certamente terem lucrado com tanto dinheiro correndo.
Liliana Ayalde. Talvez você nunca tenha ouvido falar desse nome, e talvez ela não tenha nada a ver com o golpe de Estado em curso no Brasil, mas é estranho que a embaixadora dos Estados Unidos no Brasil neste momento turbulento seja a mesma que estava no Paraguai quando Fernando Lugo sofreu o golpe de Estado conduzido pelo legislativo.
Rodrigo Janot. É o atual Procurador Geral da República. Uma das funções do procurador é analisar casos de acusações contra autoridades políticas federais (deputados, senadores, ministros, presidente e vice) e decidir se devem ser levadas adiante e julgadas pelo Supremo Tribunal Federal, ou se devem ser engavetadas. Sua indicação é feita pelo presidente da República, ratificado pelo Senado. FHC, durante o seu mandato, escolheu para o cargo Geraldo Brindeiro, conhecido como “engavetador geral da república”. NENHUMA, absolutamente nenhuma ação que fosse prejudicial ao governo e ao governante foi levada adiante, e os casos não foram poucos: corrupção na privatização da telefonia (há gravação de conversa telefônica indicando favorecimento de um grupo amigo, no qual estava o banqueiro Daniel Dantas), corrupção na escolha da empresa de vigilância da Amazônia (amplamente documentada também), corrupção na compra de votos para a reeleição (também documentada). Lula e Dilma tiveram uma posição mais republicana e escolheram para o cargo de Procurador Geral da República pessoas não comprometidas em salvar a pele do governante, e sim em tentar combater a corrupção no Estado. O problema: o jornalista Luis Nassif foi quem notou que todo a campanha de caça ao PT e ao Lula estava muito articulada para ser obra de um juíz de província ou de coincidências. São fortes as suspeitas de que quem articula o golpe contra o PT é o próprio Rodrigo Janot, ao autorizar desmandos do judiciário e da polícia federal e ter especial atenção em tudo o que possa comprometer Lula.
Luis Inácio Lula da Silva. Goste dele ou não, concorde com ele ou não, um grande político, um dos maiores presidentes do Brasil – apenas comparável a Vargas, mas este teve 15 anos como ditador absoluto, além de outros 4 como presidente eleito, enquanto Lula teve 8 anos de presidência, convivendo com intensa oposição democrática e anti-democrática – e líder mundial, o único brasileiro a figurar nessa categoria. Lula é o medo da direita: ela sabe que se ele disputar a eleição de 2018 ele ganha, e a direita seguirá fora do poder, tendo que dividir seus lucros pornográficos com os pobres e miseráveis (que ela chama de “vagabundos”, ainda que trabalhem mais que qualquer Marinho durante toda a vida). É o grande alvo da Lava Jato, da grande imprensa, dos partidos golpistas: querem queimá-lo com a população, torná-lo ficha suja, para impedir que dispute (e ganhe) 2018. Duro que não acham nada, então inventam: cobrar por palestra (coisa que todo ex-presidente faz, mas poucos podem cobrar R$ 500 mil e ser atendidos), receber pedalinhos de R$ 3.000 como suborno, receber para a divulgação de empresas nacionais no exterior, ter recebido dinheiro de empreiteira para seu instituto, depois de ter saído da presidência (FHC recebeu dinheiro das mesmas empreiteiras mais dinheiro de empresas públicas para construir o Instituto FHC e fez isso quando ainda era presidente), ser dono de um apartamento que não é, ter um amigo que tem um sítio, ser nomeado ministro, e outros absurdos.
Dilma Rousseff. Primeira presidenta mulher do Brasil. Ganhou a eleição de 2010, isso é claro, por conta do bom governo e do carisma de Lula. Considero um erro do ex-presidente: Dilma é uma técnica e não uma política, e sua inabilidade em lidar com as cobras políticas fez com que chegássemos ao ponto onde estamos. Não apenas isso: foi o pior governo quanto a reforma agrária desde Collor, por exemplo. Pouco avançou nas demarcações de terras indígenas ou no aprofundamento dos direitos sociais garantidos na Constituição de 1988. Desde que venceu a eleição de 2014 não governa o país: atacada sem sossego pela imprensa e acuada pelo Congresso liderado por Eduardo Cunha, adotou a agenda dos derrotados na esperança de conseguir fazer algo, e tudo o que conseguiu foi perder o apoio popular, sem conseguir qualquer refresco dos golpistas. Como Lula, não fez a reforma nas telecomunicações, e o golpe é, em parte, resultado dessa omissão.
Eduardo Cunha. O deputado Jean Wyllys chamou-o de “gângster”; é pouco, mas fiquemos com essa definição. Subornar, receber propina, ter conta oculta na Suíça, lavar dinheiro em igreja evangélica são algumas das acusações, todas muito bem documentadas, contra o deputado – mas o STF leva 140 dias para analisar isso, tempo suficiente para que ele lidere o impeachment contra Dilma. Fora essas acusações, é evidente que usa o cargo para vantagem própria, como evitar sua cassação pelo conselho de ética, e que permitiu a abertura do processo de impeachment como represália contra o governo. Já no governo golpista, conseguiu fazer com que um aliado seu fosse líder do governo Temer na câmara – sob tal aliado, além de corrupção, pesa a acusação de tentativa de homicídio, e ainda que não seja culpado, ninguém acusado de tentar matar alguém deveria ter papel de destaque na condução de um país sério. Cunha é religioso, da bancada da Bíblia, junto com Marco Feliciano, por exemplo, e fala muito em Deus; e é em nome de Deus que, além de cometer vários crimes, ele se volta contra as populações marginalizadas, com pauta retrógradas; é contra gays casarem e adotarem crianças sem família, mas defende a redução da maioridade penal e que as pessoas possam andar armadas nas ruas, como nos filmes de bang-bang. Infelizmente não é um ponto fora da curva.
Michel Temer. A imprensa chama Temer de “presidente interino” ou “presidente em exercício”, forma de dar a impressão de legalidade ao golpe de Estado que ele encabeça. Eu prefiro não usar eufemismos nesse caso, e chamo logo de “presidente golpista” ou “presidente em exercício do golpe de Estado”. Enfim, Temer, nosso presidente golpista, parece ser mesmo a pessoa certa pro momento, um político síntese dos golpistas: eleitoralmente fraco, sem apelo popular mas com apelo junto aos donos da grana e da Grande Imprensa, politicamente forte; apreço zero pela democracia e tudo o que ela representa (povo, pobres, direitos humanos, liberdade, cultura) e dez pelo poder.
Nas últimas eleições que disputou, para deputado federal, em 2006, Temer foi o último dos políticos eleitos pelo PMDB, com cem mil votos. Isso, a princípio, não quer dizer muito: em geral políticos que encampam bandeiras de minorias – como direito dos negros, das mulheres, dos homossexuais, dos quilombolas, dos sem-terra, dos sem-teto, dos que perderam parentes assassinados pela polícia militar, etc – não conseguem votações expressivas, como artistas de tevê, jogadores e cartolas de futebol, ou políticos apoiados por igrejas evangélicas ou coronéis rurais dos sertões brasileiros, e chegam à câmara pelo quociente eleitoral. Ocorre que Temer não encampa qualquer bandeira de minoria. Minto: encampa a bandeira do 1% mais rico, aquele que controla as finanças e o país – o que ele não admite publicamente, claro, diz que age em prol dos “interesses da nação”. Temer pode não ter qualquer base social, penar para ganhar eleição, mas sabe se mover no ambiente político, onde tem força desde os anos FHC: em 1997 chantageou o então presidente: ou era eleito presidente do congresso ou não haveria aprovação da emenda da reeleição, que tanto interessava a FHC. Nos anos Lula, se tornou importante aliado do PT – as chantagens, no caso, não foram públicas -, a ponto de ser alçado a vice na chapa com Dilma Rousseff.
Depois de ter conspirado contra a presidenta, fazendo ser aprovado um impeachment que ele mesmo dizia que não havia qualquer base; rejeitado pela maioria da população em pesquisas de opinião, com 1% de intenções de voto em simulações de eleições, Temer assumiu o poder prometendo união e salvação nacional. Não explicou que nação ele quer unir e salvar: seu slogan de governo usa a bandeira da época dos militares e o site WikiLeaks divulgou documentos secretos dos EUA que dizem que o presidente golpista foi informante dos EUA. Extinguiu o principal órgão de combate à corrupção, a Controladoria Geral da União, e aprovou uma lei que proíbe qualquer manifestação onde ele esteja ou “possa ir”, sob justificativa e “segurança nacional” (ou seja, qualquer manifestação pode ser enquadrada como perigosa à segurança nacional, ajudada pela lei anti-terrorismo sancionada por Dilma). Foi além: montou um ministério que fica “ombro a hombre” com qualquer gabinete conservador do segundo reinado: homens, brancos, proprietários, heterossexuais (mas, para provar que não são escravocratas, apenas racistas, demitiu o garçom negro que trabalhava para a presidência da República); nenhuma mulher, nenhum negro, nenhum mulato ou pardo, nenhum gay: chamaram isso de “meritocracia” (imagine o bafafá se Dilma tivesse montado um governo só de mulheres, ou só de negros, ou só de homossexuais, ou, pior, só de mulheres negras e homossexuais: nunca admitiram que era um ministério baseado no mérito, ainda que fosse tanto quanto o de Temer). No seu ministério “de notáveis”, segundo ele, nove são investigados por algum crime de corrupção; seu ministro mais forte, Romero Jucá (PMDB), não durou dez dias e caiu depois de divulgado áudio em que ele articulava, em março, o impeachment de Dilma para estancar as investigações Lava Jato (ó!, que novidade); o Ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB), é outro informante dos EUA, conforme papéis dos Estados Unidos divulgados pelo WikiLeaks (inclusive, é quem propôs a lei que acaba com a exclusividade da Petrobrás na exploração do pré-sal e tira do governo o controle dessa reserva energética importantíssima); o da saúde, Ricardo Barros (PP) defende o fim da saúde universal e o fim do controle dos planos de saúde; o da educação e cultura, agora só educação, Mendonça Barros (DEM), foi contra Fies, Prouni, Reuni, cotas e grande parte das propostas que ajudaram a incluir milhares de jovens no ensino superior brasileiro; o ministro da justiça e dos direitos humanos, Alexandre de Moraes (PSDB) conseguiu na justiça, quando secretário de Geraldo Alckmin, o direito da polícia militar usar armas letais (isso, pode ir armado de pistolas que criminosos usam pra matar) contra estudantes que protestavam contra o governador; o de desenvolvimento social e agrário, Osmar Terra (PMDB), já falou em cortar o Bolsa-Família; o das cidades, Bruno Araújo (PSDB), já suspendeu 11 mil casas do Minha Casa Minha Vida; e do da economia, o banqueiro Henrique Meirelles (ex-PSDB), vimos “medidas necessárias”, segundo os especialistas: corte de verbas para programas sociais e aumento de recursos para pagar os especuladores e os bancos (aqueles, que nunca se corrompem, apesar de toda o dinheiro de corrupção passar pelo sistema bancário, o suíço, que seja). E isso que só foram 15 dias de governo!
Nomes para prestar atenção. Alguns políticos despontam da atual crise política e merecem atenção. Pela esquerda, os combativos e coerentes Jean Wyllys, do Psol, e Luiza Erundina, atualmente no Psol, enquanto articula a fundação do partido Raiz Cidadanista. Pela direita, Marina Silva, do Rede, que posa de “oposição do bem”; Jair Messias Bolsonaro, do PSC, que encampa o fascismo puro e ogro; e Geraldo Alckmin, do PSDB, um fascista que posa de bom mocinho e é hiper protegido pela grande imprensa (corrupção no Metrô e na CPTM? Corrupção na merenda? compra de deputados estaduais? Corrupção é uma palavra que não existe no “Tucanistão”).
Onde se informar?
Questão final disso tudo: onde se informar, então, para não ser levado pelas verdades criadas pela grane imprensa e pelos golpistas? Vamos lá.
Sobre possibilidades de se informar pela televisão ou rádio: inexiste. Simplesmente desligue-os: eles deformam a realidade, não informam. No máximo, você consegue se informar sobre as mentiras que eles querem que a população acredite.
Jornais diários são uma alternativa… na Argentina, no México, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França. No Brasil, só vale a pena comprar jornal diário (qualquer um) se você tem cachorro e mora em apartamento – mas compre por quilo, sai mais barato.
Revistas: entre as semanais, Carta Capital é recomendação fortíssima que faço: faz jornalismo de qualidade (faz jornalismo, o que já é um mérito no Brasil), não finge que é imparcial e também não finge que o mal está todo do lado adversário. Entre as mensais, Le Monde Diplomatique Brasil: é uma revista de esquerda, mais centrada em análises (que costumam ser muito boas) do que em reportagens.
Na internet há grande número de sites, o risco é se perder em meio a tantos, e seguir aqueles que fazem um jornalismo de segunda categoria. Além do site da Carta Capital [www.cartacapital.com.br], recomendo os blogs do Luis Nassif [jornalggn.com.br/luisnassif], do Luis Carlos Azenha [www.viomundo.com.br] e do Fernando Morais [www.nocaute.blog.br]; os portais de notícias (com páginas no facebook) O Cafezinho [www.ocafezinho.com], Agência Pública, Nexo, além do nosso Boletim SPM Informa (www.casuistica.net/spminforma) e da nossa página no facebook (www.facebook.com/pastoraldosmigrantes).
por Daniel gorte-dalmoro (texto dado por encerrado dia 1 de junho. publicado no Boletim SPM Informa , do Serviço Pastoral dos Migrantes [www.casuistica.net/spminforma]).
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