Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, não escreveria textos tão belos quanto os de Augusto Nunes.

O assunto é velho de alguns dias. Ocorre que como não leio a Veja, nem sob tortura, tomo por certo que, somente hoje, a divina providência me fez chegar aos olhos o texto de Augusto Nunes de 20 de fevereiro de 2016 – ”A ressentida e a vigarista”.
Trata do affair entre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a jornalista Mirian Dutra Schmidt que atribui a FHC a paternidade do seu filho – Tomás.
Pelo texto de Nunes, ficamos sabendo que FHC é um homem de caráter e alma sãos, e que, como um injustiçado, está sendo acusado de ser um bom pai do filho que não gerou. Justo FHC, alguém que deu a Mirian boa vida, casa, comida e dinheiro para gastar. Mas não a ponto de Augusto Nunes desconfiar. Caridade cristã, por certo.
Ficamos sabendo mais. Ficamos sabendo que Mirian é uma farsante, que seu nome verdadeiro é Rosemary Noronha e que Lula é, por fim, o verdadeiro pai do filho de FHC.
A verdade enfim revelada.
Ainda que eu tivesse o dom de profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, não seria tão portador da verdade quanto o é Augusto Nunes.
Poderia parar por aqui, mas Nunes vai muito além. Como teólogo juramentado, enxerga o pecado e a pecadora por traz da injustiça cometida contra FHC.
A pecadora é Mirian. Pecadora, mas não arrependida. Mirian não é Madalena, é Salomé exigindo a cabeça de um homem santo em uma bandeja como paga por seu favores.
O pecado – o ressentimento. E aqui vemos toda a capacidade de formulação teológica de Augusto Nunes. Algo próximo de Santo Agostinho e o seu “desafio do Mal”. Nunes amplia o código canônico oficializando o ressentimento como o oitavo pecado capital. E o descreve:
“Não há cura para esse oitavo pecado capital. Primo da ira, do orgulho e da cobiça, o ressentimento costuma ser equivocadamente confundido com a inveja, da qual é irmão. “A memória do ressentido é uma digestão que não termina”, constatou o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. O ressentido pensa todo o tempo no ajuste de contas. E invariavelmente acredita que sua infelicidade resultou de erros cometidos por outros”.
“Tudo somado, está claro que Mirian Dutra é uma prisioneira do ressentimento. No caso de Mirian Dutra, os alvos do ressentimento são FHC, que responsabiliza por não ser feliz, e a TV Globo, que obstruiu os caminhos que a levariam ao sucesso profissional”.
Eis o pecado de Mirian:
“A mulher ressentida precisa acreditar que seu único erro foi amar demais”.
E aqui, mais uma vez, Nunes levou-me a Paulo de Tarso – o apostolo tardio:
“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal. Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.
Neste ponto, como Matheus, Nunes poderia bradar a Mirian: “arrependei-vos, porque o Reino dos céus está próximo”.
Não o faz.
Deixa para que a coluna “Opinião” de Veja o faça. Está lá, no final do texto “Valentina de botas” de 22 de fevereiro de 2016:
“Mirian, que Mirian? A essa altura, a pobre mulher já deve estar de volta à vasta solidão habitada pelos fantasmas que o ressentimento nutre. Felizmente, resta a Tomás um pai de caráter e alma sãs. E tomara que o filho queira e possa cuidar da mãe; ela talvez não saiba, mas precisa muito”.
Ressaltando:
“E tomara que o filho queira e possa cuidar da mãe; ela talvez não saiba, mas precisa muito”.
Um alerta que não ficaria mais eloquente se estivesse na boca de Enrico de Pedis, católico fervoroso e capo da máfia.
PS1: como ateu, não tecerei, para este caso, comentários sobre as atitudes de FHC – alguém tomado por santo. Agora, como homem e como pai, posiciono-me: meu filho tem mais de 30 anos. É, portanto, responsável pelas suas fodas, dadas com minha nora ou não, e pelas consequências delas. Quisera indulgência paternal pelo que faz na cama, tivesse nascido filho de Augusto Nunes.
PS2: a Oficina de Concertos Gerais e Poesia apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

Anna Dutra
24 de fevereiro de 2016 4:01 pmMagistral
PS1 teria bastado.
Afiadíssimo. Nesta manhã tão triste e nebulosa, de gritaria e veleidades, decepção e trairagem, ler tua crônica é como uma sessão de massagem: recoloca a “espinha” no lugar.
Que dia triste este! No ar, despedida. Cheiro de desamor. De algo perdido.
Parabéns. A cada dia, mais precisão. Tenho arquivado alguns textos e ontem me deparei com este. Só confirmou o tanto que aprecio a tua produção.
https://jornalggn.com.br/blog/sergio-saraiva/a-liberdade-de-expressao-e-a-dor-do-profeta-alheio
Eu não sou Charlie.
“Porque, só quem pode dizer se a liberdade de expressão é um valor absoluto são aqueles que pagam com dor o preço dessa liberdade. Pois suas dores também são absolutas.”
E este nem foi um dos maravilhosos posts sobre a nossa conjuntura, sobre o Brasil que amamos tanto. As maravilhosas narrativas sobre os jovens alunos de SP… Tanta coisa bonita que vi em teu Blog e tua Oficina.
Não vou falar da poesia. Já é um dia emotivo o suficiente.
Quando teremos uma coletânea, um livro de SS? Ou já existe e eu não sei ? Artigos, poesia, sempre um texto que gruda, chama, flui. Informa e emociona.
Não deixe de nos avisar. Irei, de vez em quando à Oficina, espiar o que você anda fazendo.
Um abraço Sergio. Nos esbarramos por aí.
SLP.