5 de junho de 2026

Da série História Requentada: Apontamentos curiosos sobre a vida colonial brasileira

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Por Sebastião Nunes

BICHO-DA-TAQUARA

            Nascem entre as taquaras certos bichos roliços e compridos, todos brancos, da grossura de um dedo, aos quais os índios chamam “raú”, e costumam comer assados e torrados. Há-os em tão grande porção, indistintamente amontoados, que fazem com ele um guisado em que nada difere da carne de porco estufada.

            (ANCHIETA, Padre Joseph de. Cartas. In: (FRIEIRO, Eduardo. Feijão, angu e couve. Belo Horizonte: Itatiaia, 1950)

 

            Eu não vira entre os Malalis senão os bichos-da-taquara secos e separados de suas cabeças. Num herborização, porém, que fiz na ilha de S. Francisco, com meu botocudo, esse rapaz encontrou grande número desses animais em bambus em floração, e se pôs a comê-los na minha presença. Partia o animal, tirava-lhe cuidadosamente a cabeça e o tubo intestinal, e chupava a substância mole e esbranquiçada que ficavam por baixo da pele. Apesar de minha repugnância, segui o exemplo do jovem selvagem, e achei nesse manjar estranho um sabor extremamente agradável, que lembra o do creme mais delicado.

            (SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Tradução de Vivaldi Moreira. Belo Horizonte: Editora Itatiaia/EDUSP, 1975)

MACACOS E FORMIGAS

            Dom Pedro e sua comitiva, mais duma vez, nos ermos em que pousavam, quase passaram fome em razão do pouco ou quase nada que lhes ofereciam para comer. Penetrando no interior, com alguns dias de jornada, só encontraram para cear, no rancho dum paulista, meio macaco e uma poucas formigas, que era tudo quanto se achava. O Conde agradeceu a oferta e indagou que sabor tinham aquelas iguarias. Respondeu o paulista que não havia naqueles matos circunvizinhos caça mais delicada e que as formigas eram tão saborosas, depois de cozidas, que nem a melhor manteiga de Flandres a igualava.

            (ANÔNIMO. Diário da jornada que fez o Exmo. Sr. Dom Pedro desde o Rio de Janeiro até a cidade de São Paulo e desta até as Minas, no ano de 1717. In: FRIEIRO, Eduardo, op. cit.)

 

BICHO-DO-PÉ

            Mas o que me molestou mais do que tudo, foi uma espécie de poeira animada que insensivelmente se transforma em vermes dentro dos pés, crescendo tanto quanto os bichos de queijo e, se não são extraídos com cuidado, deixam ovos para a reprodução de centenas de outros. Durante mais de um mês sofri tormentos por causa deles, impossibilitado de caminhar, sendo transportado em rede, e verificando quando o sofrimento está próximo do prazer. No começo, quando se apossaram de meus pés, sentia tal comichão, que coçar-me era a maior satisfação do mundo; mas, ao cabo de alguns dias, tal foi a dor, que não me recordo jamais de ter padecido outra igual.

 

            (FRECKNO, Richard. Relato de dez anos de viagens por Europa, Ásia, África e América (circa 1655). In: VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. História Geral do Brasil. São Paulo: Edições Melhoramentos, 6 vols., 1948/1953)

 

PEIXE-HOMEM

            Sobre as suas pescarias não quero omitir o que ouvi a um, e é que estando ele, certa vez de mar calmo, numa dessas canoas de casca de pau, veio um grande peixe que a segurou com as garras, e parecia ou querer virá-la ou meter-se dentro. O índio, então, tomou duma foice e decepou a mão do peixe, a qual ficou dentro da canoa e tinha cinco dedos como a do homem. O monstro, excitado pela dor, desferiu um gemido e ergueu fora d’água uma cabeça de forma humana. Sobre o estranho caso, deixo o leitor a filosofar (atento à comum opinião que admite no oceano todas as espécies terrestres, e ao que escreveram certos autores dos tritões e sereias) se era tritão, sereia ou bugio marinho esse monstro a que o nosso índio decepou a mão.

            (LÉRY, Jean de. História de uma viagem à terra do Brasil. Tradução de Monteiro Lobato. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1926)

 

TATU-GALINHA

            Huns bichos há nesta terra q também se comem e se tem pela melhor caça que há no mato e chamam lhes Tatu. São tamanhos como coelhos e tem hum casco à maneira de lagosta assim como de cágado, mas é repartido em muitas juntas como lâminas, parece totalmente um cavalo armado, tem um rabo do mesmo casco. Comprido, o focinho é como de leitão, e não bota fora do casco mais que a cabeça. Tem as pernas baixas e criam-se em covas. A carne deles tem o sabor quase como de galinha. Essa caça é muito estimada.

            (GÂNDAVO, Pêro de Magalhães de. Tratado da província do Brasil. Reimpressão fac-similar. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1570(?)/1965)

 

TABACO

            O mascá-lo não é tão sadio, porém, assim como mascado pela manhã, em jejum, moderadamente, serve para dessecar a abundância dos humores do estômago, assim o uso imoderado o relaxa. E, pela continuação, obra menos, altera o gosto, faz grave o bafo, negros os dentes e deixa os beiços imundos.

            Usam alguns de torcidas dentro dos narizes, para purgar por esta via a cabeça e para divertir o estilicídio que vai a cair das gengivas e causa dores de dentes, e, postas pela manhã e à noite, não deixam de ser de proveito. Só se encomenda, aos que usam delas, o evitarem a indecência que causa o aparecer com elas fora dos narizes e com uma gota de estilicídio sempre manante, que suja a barba e causa nojo a quem com eles conversa.

            ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia/EDUSP, 1982)

 

CANIBALISMO

            Entretanto principiaram a faltar-lhes as forças à míngua de alimentos. Ratos, cobras, lagartos e répteis de todo o tamanho comível não tardaram a extinguir-se por todas aquelas cercanias. Três homens furtaram um cavalo e comeram-no. Foram postos a tormento para confessarem o fato, e depois enforcados. Ficaram na forca os cadáveres e no dia seguinte tinha desaparecido toda a carne da barriga para baixo.

            (SOUTHEY, Robert. Historia do Brasil. Tradução de Luiz Joaquim de Oliveira e Castro. Salvador: Livraria Progresso Editora, 5 vols., 1948/1954)

Sebastiao Nunes

Escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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  1. Maria Luisa

    14 de dezembro de 2015 4:55 pm

    Coisas do Brasil colonial e outros

    Valeu, Sebastião Nunes. A gente chega meio enjoada ao fim do texto, mas a ideia é boa. Deu vontade de ler a biografia citada.

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