4 de junho de 2026

Édipo Tucano, uma tragédia partidária em 3 atos

Ato I

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FHC consegue dropar a imensa onda do Plano Real que foi criada pela imprensa e faz um governo medíocre. Ele privatiza empresas estatais rentáveis à preço de banana, sucateia as Forças Armadas, aumenta assustadoramente a dívida interna e externa, salva os banqueiros de uma morte certa e mantém artificialmente o câmbio até conseguir ser reeleito. O sucesso dele, entretanto, é propalado aos quatro ventos pela imprensa confirmando aquilo que disse Eric Hobsbawm:

“Uma das provas da existência da direita e da esquerda é o fato de que os mercados em geral tratam os governos de direita de forma muito mais favorável.” (O novo século – entrevista com Antonio Polito, Companhia das Letras, São Paulo, 2009, p. 103)

Empossado para um segundo termo, FHC derruba a moeda do pedestal em que havia sido artificialmente mantida para que ele fosse reeleito. A economia brasileira volta a ser uma bagunça. Os juros bancários sobem, a taxa de emprego diminui, a produção industrial e o comércio sofrem um tombo. A arrecadação de impostos fica comprometida e a previdência social tem que ser reformada (mais contribuição, benefícios menores). Os cortes se tornam a única regra orçamentária, razão pela qual os portos, aeroportos e rodovias ficam abandonados. Com apoio das empresas de comunicação, irrigadas com generosas verbas publicitárias, o segundo termo de FHC é um desastre. Ele só faz duas coisas: pedir dinheiro ao FMI e pagar juros aos banqueiros.

 

Ato II

 

FHC não faz o sucessor, o PSDB vai para a oposição e age como se ainda fosse governo.

Eleito, Lula faz um governo moderadamente de esquerda, sob ataques constantes da imprensa (os ataques da imprensa, segundo Eric Hobsbawm, provam o viés político do governo petista). A economia decola em razão da grande diversificação dos parceiros comerciais externos, as Forças Armadas começam a ser modernizadas, o Estado amplia os gastos sociais e obras de infra-estrutura importantes são iniciadas. A indústria naval brasileira, destruída por FHC, começa a ser reativada. A situação geral do povo (especialmente daqueles que foram esquecidos por FHC) começa a melhorar garantindo a reeleição do petista.

O segundo mandato de Lula foi conservador, ou seja, tentou conservar (e quando possível ampliar) os ganhos da economia entre os mais pobres produzidos nos primeiros quatro anos. Universidades federais são construídas, o financiamento estudantil é ampliado, o acesso à educação superior começa a ser garantido aos alunos das escolas públicas. Nenhuma inovação significativa foi feita na área econômica: mais do mesmo, com ajustes fiscais pontuais; a boa imagem do Brasil no exterior foi garantida pelo fato de que não quebrados em 2008 apesar da crise financeira que devastou as economias dos EUA, Europa e Japão. Ao contrário de FHC e enfrentando forte oposição da imprensa, Lula conseguiu eleger Dilma Rousseff.

O desespero tucano começou exatamente quando Lula foi reeleito. Desde então só tem aumentado. A frustração tucana chegou ao paroxismo em razão da reeleição de Dilma Rousseff, que foi garantida pelo bom desempenho da economia brasileira nos primeiros 4 anos do mandato dela. O crescimento econômico e político dos BRICS e a incapacidade dos europeus e dos norte-americanos de enfrentarem os problemas financeiros que se arrastam desde 2008 conspiraram para o bem estar interno do Brasil.

Mais corajosa que Lula, Dilma Rousseff usou os bancos públicos para rebaixar os juros no mercado interno. Isto a transformou em inimiga mortal dos banqueiros dentro e fora do país e alimentou a auto-ilusão dos tucanos de que poderiam voltar ao poder com facilidade na última eleição presidencial.

 

Ato III

 

Édipo é uma tragédia do auto-conhecimento e do destino. Ao saber pelo oráculo que será morto pelo filho que casará com sua esposa, Laio o abandona para morrer no monte Citerão. Todavia o menino é encontrado por pastores e adotado pelo rei de Corinto. Ao consultar o oráculo, Édipo também fica sabendo que está fadado a matar o pai. Em razão disto, acreditando que o rei de Corinto é seu pai, ele foge de casa para evitar a tragédia. No caminho para Tebas, Édipo mata um homem após violenta discussão. Após derrotar a esfinge que atormenta os tebanos, Édipo se casa com Jocasta. Muito tempo depois, quando Tebas é acometida por uma peste, o oráculo revela a ele que a profecia havia se concretizado. Édipo renuncia então à visão.

Um dos aspectos mais interessantes da obra de Sófocles é como a visão ou falta dela se articulam na trama. Em certo momento, Édipo (já casado com Jocasta) confronta Tirésias, homem cego de grande clarividência.

“…Édipo rejeita a autoridade sapiencial de Tirésias, e passa a tratar sua cegueira não como paradoxo e de um poder intelectivo privilegiado, fundado na poderosa visão de Apolo, mas sim como uma limitação dos sentidos, e logo da capacidade de pensar e falar verdadeiramente. No universo de referências empíricas em que doravante Édipo atuará, a cegueira de Tirésias só pode ser qualificada negativamente, como privação sensória redundante em incapacidade mental, e logo impedimento ao acesso a qualquer verdade. Daí decorrem os diversos ataques em que Édipo trata de modo sarcástico a cegueira do profeta, como se fora marca de sua ignorância e afastamento da capacidade de perceber a verdade, em diálogos repletos de desconfiança, acusações e ameaças: …” (Édipo Tirano – A tragédia do saber, Francisco Marshall, editora UNB, Brasília, 2000, p. 96)

Pelo que foi divulgado na imprensa, durante o programa do PSDB de hoje FHC acusará Lula de ser o chefe do esquema de corrupção chamado de Petrolão. Aécio Neves pretende atacar frontalmente Dilma Rousseff em razão da presidenta ser a única responsável pela crise econômica que causa desemprego, redução de salários, etc… http://www.jornalggn.com.br/noticia/fhc-diz-que-lula-e-pai-da-corrupcao-e-aecio-cobra-quem-se-calou-sobre-petrolao .

Desde que Dilma Rousseff foi reeleita, a oposição só demonstrou desconfiança do TSE presidido pelo Ministro Dias Toffoli e fez acusações de corrupção e ameaças de impedimento. A edípica cegueira da oposição é evidente.

Édipo acreditava no que via e estava enganado. Certo estava Tirésias, que era cego. O PSDB acredita no que a imprensa diz como se a população fizesse o mesmo. A tragédia do PSDB é não querer ver que a maioria da população brasileira vê o governo petista como ele realmente é e não da maneira que a imprensa o representa. Os estrategistas do PSDB são incapazes de admitir um fato banal: os brasileiros não esqueceram o mal que lhes foi feito por FHC durante 8 anos e o bem estar social laboriosamente construído pelos governos Lula e Dilma.

FHC vê sua credibilidade na imprensa e crê que tem credibilidade junto ao povo brasileiro. A imprensa, contudo, segue tão desacreditada que perdeu quatro eleições presidenciais e tudo indica que perderá mais duas. Aécio Neves se coloca como líder indiscutível da oposição, justo ele que não conseguiu eleger o governador de seu próprio Estado. Os dois arautos da moralidade estão atolados até o pescoço em denúncias de corrupção, algumas investigadas outras a merecer investigação.

Ao tomar consciência de sua ignorância e do trágico destino que encontrou ao fugir da casa do pai adotivo, Édipo fura os olhos. A oposição cega pretende usar seu programa de TV para cegar a população ou para ofuscar a visão da situação. Não conseguirá nem uma coisa, nem outra. A tragédia do Édipo Tucano seguirá sendo reeditada na próxima década até o próprio PSDB morrer junto com seus líderes idosos. Sérgio Guerra já foi, quem será o próximo?

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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1 Comentário
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  1. Odonir Oliveira

    19 de maio de 2015 8:04 pm

    Excelente, Sófocles do século XXI

    Resta ao coro fazer seu papel como personagem trágico e atuar também.

    De preferência sem as personas, de cara limpa .

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