
A aprovação pela Câmara dos Deputados da PEC 457, apelidada de “PEC da Bengala” por aumentar de 70 para 75 anos a aposentadoria compulsória dos ministros do Supremo Tribunal Federal, foi prontamente identificada como mais uma derrota de Dilma em função de mais uma manobra do presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha. É preciso entender, porém, qual é a real dimensão dessa derrota e o seu alcance sobre o desenho institucional brasileiro.
São dois os pressupostos que permitem afirmar que a sua aprovação foi uma derrota para o Executivo: 1) que a nova emenda retirará a possibilidade da presidente indicar cinco novos ministros para o STF que se aposentariam pela compulsória até 2018 e 2) que a indicação de novos ministros traz vantagem concreta para o presidente. Ambos, a meu ver, equivocados.
Acompanhando as aposentadorias dos ministros que foram indicados desde o governo Sarney até o governo Dilma temos que 40% deles deixaram o STF antes da aposentadoria compulsória. Nesse período foram indicados 25 novos ministros. Destes, dez ainda estão na ativa e 15 já deixaram o Supremo. Dentre esses, nove pela compulsória e seis antes do limite de idade.
Ou seja, se o debate sobre a ampliação do limite de idade para a aposentadoria compulsória foi aprovado apenas com o objetivo casuístico de impedir que a presidente indique novos ministros nos próximos anos, o padrão histórico de afastamentos do STF pode reduzir o impacto dessa manobra.
Ademais, dos cinco ministros seriam aposentados pela compulsória três foram indicados em governos petistas. Se o objetivo era dialogar com o temor de uma “corte bolivariana”, para usar uma expressão do ministro Gilmar Mendes, seus efeitos são também muito limitados. Se o objetivo era impedir que o PT conquistasse uma suposta maioria no STF, a PEC da bengala também não servirá a esse propósito. Dos dez ministros atuais nada menos do que sete foram indicados nos governos petistas.
Parece-me, entretanto, que o ponto central desse debate é sobre a vulnerabilidade das decisões do STF em razão da vontade do Executivo. Ainda que muita pesquisa sobre o perfil e os condicionantes das decisões de seus ministros precise ser feita, não há nada nos achados até o momento que nos autorize afirmar que a escolha presidencial continue exercendo efeitos sobre eles a ponto de definir suas interpretações a partir das preferências do presidente.
Alguns casos concretos recentes são emblemáticos para reforçar esse diagnóstico. A atuação do ministro Joaquim Barbosa no caso do mensalão, por exemplo, está longe de sinalizar que houve qualquer constrangimento de sua atuação em função de sua indicação pelo ex-presidente Lula. Aliás, outros ministros indicados no governo petista, como Luiz Fux, não deixaram de aplicar interpretações desfavoráveis a nenhum dos réus ligados ao PT.
Por essas razões, acredito que a derrota de Dilma está num plano mais simbólico, é mais uma demonstração de incapacidade do Executivo de controlar a agenda legislativa, prerrogativa já clássica no funcionamento de nosso presidencialismo. Ocorre que essa derrota simbólica do Executivo carrega uma derrota concreta de nosso sistema legislativo. Nas últimas décadas foram muitas as queixas vindas do Legislativo de que suas atividades estariam sob a subordinação do Executivo. Não foram poucas as vezes em que deputados e senadores protestaram, por exemplo, contra o uso abusivo de medidas provisórias.
No momento em que, por razões conjunturais, o Legislativo assume maior papel na condução da agenda política do país, era de se esperar que agisse com maior zelo com as instituições e compromisso com o debate público. Afinal, não pode ter sido em vão sua reivindicação por maior protagonismo.
CB
13 de maio de 2015 11:49 amEm Honduras aplicou-se o
Em Honduras aplicou-se o golpe via judiciário, no Paraguai foi via parlamento dominado pela direita. Em ambos os casos, houve armação de uma situação que pudesse chegar ao desfecho desejado pela direita golpista: depôr presidente que não fosse da “turma”. No Brasil inaugura-se a era dos mini-golpes. O primeiro foi este, outros virão com o objetivo de transformar qualquer presidente indesejado pela direita servil aos interesses do capital internacional e petroleiras em meras Rainhas da Inglaterra.
JorgeSP
13 de maio de 2015 11:56 amé o mendes que conta
acho que isso foi feito para permitir que o gilmar mendes fique mais tempo no stf. ele é a grande liderança política da oposição e, aposentado, de nada serviria.
no mais concordo com a análise.
maria rodrigues
13 de maio de 2015 11:58 amAcho que Dilma não perde nada
Acho que Dilma não perde nada com essa PEC da Bengala. Se duvidar, sairá é ganhando, de doravante os ministros permanecerem até os 75 anos, sem a necessidade da Presidenta indicar novos ministros. Primeiro, porque ninguém poderá dizer que o STF age de acordo com o Executivo. Segundo, Dilma não passará pelo mesmo constrangimento que foram as indicações de JB e de Luiz Fux, que são dois anti-petistas declarados quando tem que julgar o PT e o Governo.
Embora saiba que o pretexto de votarem essa PEC foi mesquinho, acho que um homem com 75 anos pode perfeitamente continuar trabalhando, sobretudo um juiz, que quanto mais velho mais conhecimento e mais experiência tem para a função.
Enfim, pra quem viu JB pedir a aposentadoria em pleno vigor, apesar daquelas apresentações de quem estava à beira da prostração – tudo encenação -, ninguém pode dizer se os outros vão querer ficar no cargo por mais cinco anos, ou se o deixarão antes dos 70.
Waldomiro Pereira
13 de maio de 2015 12:15 pmÉ preciso mostrar à população
É preciso mostrar à população que temos um “CONGRESSO”. Se ele é bom ou ruim deveremos analisar o como estão legislando.
É bom para a presidencia da republica esta situação pois vai demonstrar que temos uma presidencia e uma CORJA manipulando a população.
Augusto Diniz
13 de maio de 2015 12:44 pmMuito bom
Vitor, muito bom. Compartilho dessa visão.
lenita
13 de maio de 2015 2:19 pmDificuldades
Pela dificuldade em encontrar ministros confiáveis pela Presidente, e com aprovação mais difícil ainda pelo revoltoso presidente do Senado, acho que não foi de todo ruim. Pelo menos se sabe quem é quem dos que lá estão. Vamo que aparece um novo Gilmar Dantas ops Mendes.
Juliano Santos
13 de maio de 2015 2:35 pmMe parece que o Lewandowsky
Me parece que o Lewandowsky sairia. Achar um tão bom quanto ele, e passar pela sabatina do Senado, e/ou do Merval não seria moleza. Só valeria se saisse junto com ele, o Gilmar. Mas parece que não era o caso.
Outros cujo a ausência “prencheriam uma lacuna” são o Fux e o Tofolli. Mas esse são muitos novos. Portanto, ficou tudo bem, no final.
PS: Acho que a blogosfera fez muito barulho desncessário por conta dessa PEC da bengala. Estresse sem muita razão de ser. Repito, essa PEC só seria esse horror todo que pintaram se fosse casuísmo para manter o Gilmar. Aí sim!!! Com muitas exclamações
lenita
13 de maio de 2015 6:12 pmJuliano
Parece-me ter lido que até o Teori sairia logo tb.
Juliano Santos
14 de maio de 2015 4:26 pmPior ainda, Lenita
Pior ainda, Lenita