6 de junho de 2026

O maior porre do século XX terminou com um bangue, não com um soluço, por Sebastião Nunes

A bola da vez é Malcolm Lowry, um inglês que descobriu o álcool aos 14 anos e só parou de beber aos 47, quando perdeu o fôlego, a esperança e a vida.

O maior porre do século XX terminou com um bangue, não com um soluço

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por Sebastião Nunes

Lentamente, muito lentamente, mais cansado do que uma tartaruga deixando as covas onde depositou 3.000 ovos para que a água do mar os acariciasse, o cônsul Geoffrey Firmin adernou como um navio que afunda desesperançado longe da terra.

– Então é assim que a coisa termina? – perguntou a seu meio-irmão Hugh, que se inclinou sobre ele e procurava com um lenço estancar o sangue que jorrava entre os rijos pelos do peito, inundando a camisa branca de gola rendada.

– Creio que sim – concordou Hugh. – Quer que eu chame Yvonne?

– Você se lembra, não, não se lembra, era muito novo para lembrar.

– Lembra do quê? – murmurou Hugh, o lenço apertado na ferida, que continuava a emanar seu filete brilhante de sangue vivo. “Como tem sangue num corpo humano”, pensou Hugh. “Parece um rio brotando das montanhas, uma nascente inesgotável”.

– De quando eu comecei a beber – sussurrou o cônsul, cuja voz perdia a nitidez e a potência. – Foi aos 14 anos, mais de 30 anos atrás. E nunca mais parei. Eu odiava nossa mãe, sabe? E me vinguei dela bebendo esse tempo todo.

– Tente não falar – disse Hugh. – O sangue flui mais depressa quando você fala.

– Não tem importância. Deixa fluir. É bom para adubar as plantas. Você não tem uma garrafa de mescal no bolso, tem?

– Tenho. Quer uma dose?

O cônsul balançou a cabeça e Hugh encostou o bico da garrafa em seus lábios e deixou que mamasse, “como um bebê no seio da mãe que virá a odiar”, pensou.

RECORDAR É VIVER OU MORRER?

Quase ao pôr do sol do Dia dos Mortos de novembro de 1938, dois homens se inclinavam um (jovem e sóbrio) para o outro (moribundo e envolvo nas brumas furtivas do mescal), compondo um estranho quadro inglês na paisagem mexicana.

As procissões desciam serpenteando do cemitério, o som pungente dos cantos reverberando nas colinas, iluminadas pelas velas envoltas em papel.

De onde estavam, mal podiam distinguir os remotos sons confusos, como um canto que sobe e baixa, os gritos, as risadas, os xingamentos e as explosões da festa que durava o dia inteiro, reverenciando os mortos.

– Yvonne já voltou? – perguntou de repente o cônsul.

– Voltou de onde?

– Não sei. Ela tem de estar em algum lugar. E, se estiver, tem de voltar.

Hugh não disse nada. Acendeu um cigarro. Ao longe, à esquerda, ao nordeste, além do vale e das encostas em terraço da Sierra Madre Oriental, os dois vulcões, Popocatépetl e Iztaccíhuatl, se erguiam nítidos e magníficos no crepúsculo. “Que pena que Yvonne nunca mais veja toda essa magnificência”. Pois Ivonne estava morta, as patas do belo e fogoso e indomável cavalo subiram e desceram sobre ela, rasgando em tiras sua blusa e destroçando seu rosto incomparável.

Dois índios esfarrapados se aproximavam através da poeira. Discutiam, mas com a profunda concentração de professores universitários num passeio ao entardecer de um verão na Sorbonne. O porte deles sugeria a alta majestade de príncipes astecas, as caras lembravam esculturas nas ruínas de Yucatán:

– Perfectamente borracho…

– Si, hombre, la vida impersonal…

– Claro, hombre…

– Positivamente…

– Buenas noches.

– Buenas.

E se foram sem vê-los, com suas mãos encardidas, sérios como se estivessem sóbrios, e não entupidos até à garganta de mescal, a bebida dos deuses desencantados.

O MAGNÍFICO ROMANCE DA BEBEDEIRA

Under the Volcano é não só o mergulho mais profundo que já se fez na alma, no pensamento e nos delírios de um alcóolatra como também um dos maiores romances do século XX, a última centúria a permitir livros caudalosos e legíveis.

Malcolm Lowry, seu autor, passou a vida literalmente de porre, desde que aos 14 anos descobriu a fuga pelo álcool e, mais tarde, quando teve a aguda percepção de que a vida só é suportável quando se está de porre.

Embarcou num navio aos dezessete anos e, desde então, viajou incansavelmente para cima e para baixo, procurando alguma coisa que nunca soube o que fosse.

Pena que a ligeireza dos tempos atuais tornou quase impossível a leitura desse livro maravilhoso, tempos que reduzem a escrita a algumas linhas que depois deixam seus autores com a língua de fora, exaustos como se houvessem percorrido 100 km.

Lowry morreu duas vezes. A primeira, quando o sangue escoou pelo corpo de seu alter ego Geoffrey Firmin, e a segunda quando seu livro magnífico, com a amarga petulância dos calhamaços, passou a repousar intocado nas raras estantes do mundo que o camuflam numa das inumeráveis traduções que mereceu.

Ave, Malcolm Geoffrey Lowry Firmin, os que vão morrer te saúdam!

**********

 “Como, a menos que você beba como eu, poderia esperar entender a beleza de uma velha índia jogando dominó com uma galinha?” (Malcolm Lowry)

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Sebastiao Nunes

Escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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