O maior porre do século XX terminou com um bangue, não com um soluço
por Sebastião Nunes
Lentamente, muito lentamente, mais cansado do que uma tartaruga deixando as covas onde depositou 3.000 ovos para que a água do mar os acariciasse, o cônsul Geoffrey Firmin adernou como um navio que afunda desesperançado longe da terra.
– Então é assim que a coisa termina? – perguntou a seu meio-irmão Hugh, que se inclinou sobre ele e procurava com um lenço estancar o sangue que jorrava entre os rijos pelos do peito, inundando a camisa branca de gola rendada.
– Creio que sim – concordou Hugh. – Quer que eu chame Yvonne?
– Você se lembra, não, não se lembra, era muito novo para lembrar.
– Lembra do quê? – murmurou Hugh, o lenço apertado na ferida, que continuava a emanar seu filete brilhante de sangue vivo. “Como tem sangue num corpo humano”, pensou Hugh. “Parece um rio brotando das montanhas, uma nascente inesgotável”.
– De quando eu comecei a beber – sussurrou o cônsul, cuja voz perdia a nitidez e a potência. – Foi aos 14 anos, mais de 30 anos atrás. E nunca mais parei. Eu odiava nossa mãe, sabe? E me vinguei dela bebendo esse tempo todo.
– Tente não falar – disse Hugh. – O sangue flui mais depressa quando você fala.
– Não tem importância. Deixa fluir. É bom para adubar as plantas. Você não tem uma garrafa de mescal no bolso, tem?
– Tenho. Quer uma dose?
O cônsul balançou a cabeça e Hugh encostou o bico da garrafa em seus lábios e deixou que mamasse, “como um bebê no seio da mãe que virá a odiar”, pensou.
RECORDAR É VIVER OU MORRER?
Quase ao pôr do sol do Dia dos Mortos de novembro de 1938, dois homens se inclinavam um (jovem e sóbrio) para o outro (moribundo e envolvo nas brumas furtivas do mescal), compondo um estranho quadro inglês na paisagem mexicana.
As procissões desciam serpenteando do cemitério, o som pungente dos cantos reverberando nas colinas, iluminadas pelas velas envoltas em papel.
De onde estavam, mal podiam distinguir os remotos sons confusos, como um canto que sobe e baixa, os gritos, as risadas, os xingamentos e as explosões da festa que durava o dia inteiro, reverenciando os mortos.
– Yvonne já voltou? – perguntou de repente o cônsul.
– Voltou de onde?
– Não sei. Ela tem de estar em algum lugar. E, se estiver, tem de voltar.
Hugh não disse nada. Acendeu um cigarro. Ao longe, à esquerda, ao nordeste, além do vale e das encostas em terraço da Sierra Madre Oriental, os dois vulcões, Popocatépetl e Iztaccíhuatl, se erguiam nítidos e magníficos no crepúsculo. “Que pena que Yvonne nunca mais veja toda essa magnificência”. Pois Ivonne estava morta, as patas do belo e fogoso e indomável cavalo subiram e desceram sobre ela, rasgando em tiras sua blusa e destroçando seu rosto incomparável.
Dois índios esfarrapados se aproximavam através da poeira. Discutiam, mas com a profunda concentração de professores universitários num passeio ao entardecer de um verão na Sorbonne. O porte deles sugeria a alta majestade de príncipes astecas, as caras lembravam esculturas nas ruínas de Yucatán:
– Perfectamente borracho…
– Si, hombre, la vida impersonal…
– Claro, hombre…
– Positivamente…
– Buenas noches.
– Buenas.
E se foram sem vê-los, com suas mãos encardidas, sérios como se estivessem sóbrios, e não entupidos até à garganta de mescal, a bebida dos deuses desencantados.
O MAGNÍFICO ROMANCE DA BEBEDEIRA
Under the Volcano é não só o mergulho mais profundo que já se fez na alma, no pensamento e nos delírios de um alcóolatra como também um dos maiores romances do século XX, a última centúria a permitir livros caudalosos e legíveis.
Malcolm Lowry, seu autor, passou a vida literalmente de porre, desde que aos 14 anos descobriu a fuga pelo álcool e, mais tarde, quando teve a aguda percepção de que a vida só é suportável quando se está de porre.
Embarcou num navio aos dezessete anos e, desde então, viajou incansavelmente para cima e para baixo, procurando alguma coisa que nunca soube o que fosse.
Pena que a ligeireza dos tempos atuais tornou quase impossível a leitura desse livro maravilhoso, tempos que reduzem a escrita a algumas linhas que depois deixam seus autores com a língua de fora, exaustos como se houvessem percorrido 100 km.
Lowry morreu duas vezes. A primeira, quando o sangue escoou pelo corpo de seu alter ego Geoffrey Firmin, e a segunda quando seu livro magnífico, com a amarga petulância dos calhamaços, passou a repousar intocado nas raras estantes do mundo que o camuflam numa das inumeráveis traduções que mereceu.
Ave, Malcolm Geoffrey Lowry Firmin, os que vão morrer te saúdam!
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“Como, a menos que você beba como eu, poderia esperar entender a beleza de uma velha índia jogando dominó com uma galinha?” (Malcolm Lowry)
Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.
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