Marcia Camargos nos fala das rupturas com o conservadorismo na Semana de Arte de 22 e das lutas no presente
por Arnaldo Cardoso
Um século depois da realização no Teatro Municipal de São Paulo do ruidoso evento conhecido como Semana de Arte Moderna, uma manifestação coletiva organizada por intelectuais paulistas “a favor de um espírito novo e moderno em oposição à cultura e à arte de teor conservador, predominantes no país” os problemas apontados pelos modernistas e suas proposições ainda se mostram pertinentes para o debate e avaliação da situação da cultura e das artes no Brasil e, por extensão, da própria identidade brasileira.
Entre publicações e eventos por ocasião do centenário da Semana de 22 merece atenção o lançamento de nova edição pela Boitempo do livro “Semana de 22: Entre vaias e aplausos” da jornalista, escritora e historiadora Marcia Camargos, autora da tese de doutorado defendida na USP com o título “A Villa Kyrial e o imaginário da Belle Époque paulistana”. No referido livro a autora, com base em ampla e qualificada pesquisa, investiga o universo intelectual e estético da época, defronta-se com ambiguidades e contradições, para responder perguntas que ainda hoje são feitas sobre a Semana de 22, seu tempo e seus protagonistas.
Marcia Camargos que desde 2016 vive em Paris, onde realizou seu segundo pós-doutorado, concedeu-nos uma entrevista em momento conturbado da sociedade francesa, às vésperas do segundo turno de eleição presidencial em que o atual presidente Emmanuel Macron enfrenta Marine Le Pen, representante da extrema direita francesa.
Rupturas com padrões existentes
Indagada sobre críticas à Semana de 22 – como as do escritor Ruy Castro – que sugerem que as obras apresentadas na Semana estavam longe de serem verdadeiramente disruptivas com o conjunto de valores que impregnavam o ambiente e a própria produção artística da São Paulo de então, Marcia Camargos expressou discordância, argumentando que:
“A maioria das obras de arte apresentadas na exposição aberta de segunda a sábado no hall de entrada do Teatro Municipal rompiam, às vezes de forma radical, com os padrões estéticos vigentes. Tanto que elas causaram escândalo e chocaram o público conservador e católico do período. Isso mostra que a maioria dos visitantes era provinciana, ao passo que os artistas buscavam inovar na linguagem, como se vê nos quadros de Anita Malfatti, impactados pelos influxos do Expressionismo alemão, nos bronzes de Brecheret, nas colagens de Yan de Almeida Prado e de Ferrignac, pseudônimo do ilustrador e caricaturista Inácio da Costa Ferreira, nos pastéis de Di Cavalcanti, nos quadros de Vicente do Rego Monteiro e de Zina Alia, por exemplo. De forma que a reação do público, rarefeito aos experimentalismos daquele grupo que buscava romper paradigmas, ela sim, é que retrata o provincianismo da burguesia paulistana – e que Paulo Prado tanto desprezava”.
Em seguida perguntamos se, para além de um certo bairrismo presente em análises que estão sendo feitas no contexto do centenário da Semana de 22, há elementos que sustentam a afirmação de que uma década antes do evento organizado por intelectuais e artistas de São Paulo, o modernismo no Rio de Janeiro, então capital do país, já tinha nomes significativos na literatura, música e artes plásticas.
Marcia respondeu que “Não apenas o Rio de Janeiro, mas diversas regiões do Brasil já vinham produzindo uma arte inovadora, tanto em termos literários quanto de artes plásticas. Não podemos falar que eles eram modernistas, ao pé da letra, porque esse termo nem existia na ocasião. Ele resultou, como sabemos, do movimento nascido a partir da Semana de 22, quando foi sendo elaborado a partir dos manifestos, revistas e livros ao longo da década de 1920. Agora, claro que artistas inovadores havia de Norte a Sul. Em literatura, Lima Barreto, e mesmo Monteiro Lobato, já vinham incorporando o coloquialismo, a oralidade, o português falado nas ruas. Podemos citar Augusto dos Anjos, Euclides da Cunha, ou até mesmo o maranhense Sousândrade (1833-1902), um dos precursores do verso livre, e que teria antecipado em mais de meio século a poesia modernista. O paraense Theodoro Braga, e sua tentativa de arte aplicada baseada nos desenhos dos indígenas marajoaras, pode também ser citado. Joaquim Inojosa, que colaborou com a Revista Klaxon, capitaneada por Mário de Andrade, debruçou-se sobre o modernismo em Pernambuco, estrelado por Cicero Dias e Vicente do Rego Monteiro. Ao mesmo tempo, pouco se fala sobre a cidade mineira de Cataguases que, além de ter sido o lar de Humberto Mauro, um dos pioneiros do cinema brasileiro, viu nascer, nos idos de 1920, o Movimento Verde, com grande projeção. Depois criaria uma revista mensal de arte e cultura, que durou de setembro de 1927 a janeiro de 1928, com colaborações de Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Godofredo Rangel e dos modernistas paulistas, entre muitos outros nomes de peso. Então, antes e depois da Semana de 22, no decorrer a década de 1920, registram-se, sim, manifestações artísticas modernas, e não apenas no Rio de Janeiro”.
Supervalorizada, mitificada?
Fazendo menção a recente artigo da autora publicado pela Folha de S. Paulo, no qual lê-se acerca da Semana de 22 que “nunca foi um exemplo de diversidade e abrangência” […] “não contou com um planejamento nem com uma curadoria centralizada” e que desde sua concepção propunha-se a ser “algo nos moldes da Semaine de Fêtes de Deauville, balneário francês da costa normanda”, indagamos se a visibilidade que o evento ganhou a partir da ação de parte de jornalistas e, posteriormente, de intelectuais e acadêmicos paulistas, foi desproporcional ao real conteúdo e propósitos do evento, a historiadora respondeu:
“No princípio, mais do que supervalorizada, ela foi mitificada, estabelecida quase como o marco zero das artes nacionais, um divisor de águas e coisas do gênero. Tanto que se forjou a expressão “pré-modernismo”, urdida nos anos trinta por Alceu Amoroso Lima para designar o período que se estende dos fins do simbolismo aos primórdios do modernismo. Sancionado como um dogma, esse recorte reducionista e auto-referido foi sendo questionado, trazendo à tona perguntas, reformulando convicções e reatando liames. Pois sabemos que a fase anterior à Semana de 22 foi rica e complexa, contendo justamente os móveis propulsores desse movimento estético. Agora, é fato que, independente de qualquer construção a posteriori, ela realmente teve esse aspecto seminal. Ela funcionou como um elemento catalizador das insatisfações de um grupo extremamente talentoso de artistas e escritores que, a partir daquele grito iconoclasta, irreverente, espontâneo e caótico, pôde mergulhar na elaboração teórica desse novo movimento, que dialogava com as vanguardas europeias, mantendo as suas raizes fincadas em solo brasileiro. Evento híbrido, envolveu várias linguagens e propostas, resultando num fato cultural bem maior do que o conjunto das obras que o compôs”.
Na mesma trilha aberta, perguntamos se, na avaliação da autora, é correto dizer que, em 1972, por ocasião do aniversário de 50 anos da Semana, se deu mais um “salto acrobático” de supervalorização do que foi a Semana de 22. Ela respondeu:
“Tudo começou no aniversário de 20 anos da Semana, quando Mário de Andrade realizou uma série de conferências. Em fevereiro de 1942, ele publicou, em “O Estado de S. Paulo”, quatro artigos extremamente interessantes, com um balanço do movimento. “A Semana marca uma data, isso é inegável”, ele escreveu. “É uma data que envaidece recordar. Mas o certo é que a pré-consciência primeiro, e em seguida a convicção de uma arte nova, de um espírito novo, desde pelo menos seis anos viera se definindo no… sentimento de um grupinho de intelectuais, aqui”. Ou seja, Mário, genial como sempre, lançou a semente, que foi logo regada pelos intelectuais, sobretudo aqueles ligados à revista Clima, da USP. Publicada entre maio de 1941 e novembro de 1944, reuniu nomes do quilate de Antônio Cândido, Gilda de Melo e Souza, Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e Lourival Gomes Machado. A hipervalorização foi num crescendo, até mais ou menos seu octogésimo aniversário, quando tiveram início as reavaliações críticas”.
A irrupção de vozes silenciadas
Trazendo para a conversa a última Bienal Internacional de Arte de São Paulo que, em sua 34ª edição ecoou o verso “Faz escuro mas eu canto” e que, teve como principal realização, a exibição de um número expressivo de obras de arte indígena, de artistas latino-americanos e de uma maior pluralidade de vozes, perguntamos a Marcia Camargos se é justo avaliar que o discurso emancipador enunciado pela Semana de 22, mas não realizado, continua sendo um desafio para a cultura e as artes no Brasil. Ela transitou entre 1922 e o presente, proporcionando uma visão panorâmica da realidade.
“Na verdade, o discurso emancipador modernista deu-se aos poucos, no decorrer da década de vinte, quando seus protagonistas foram adquirindo uma consciência crítica sobre o papel da arte na formação da identidade nacional. Com a Antropofagia e uma série de livros e manifestos, os modernistas romperam com os padrões de um cânone firmado com base em modelos estrangeiros, para atualizarem uma expressão autêntica da arte brasileira. Então essa questão foi de certa forma superada pelos modernistas, na medida em que, por meio de pesquisas sobre a cultura popular e o engajamento na vida artística e literária do país, eles amadureceram o discurso iconoclasta e irreverente da Semana de 22. Agora, é fato que escutar a pluralidade de vozes, fazer com que a arte indígena, o repertório negro, o dos trabalhadores e das periferias, ocupem o centro do palco, como foi feito na Bienal, ainda é um desafio muito grande, pois temos essa tradição de uma arte produzida por uma elite intelectual, o que precisa ser urgentemente revisto. Creio, porém, que se trata de uma atitude conjunta, envolvendo tanto os curadores, os responsáveis pelos espaços cultuais, quanto os próprios sujeitos produtores, para conquistarem esses lugares de fala no panorama das artes nacionais”.
Representatividade no centro do debate
Concentrando o foco na questão da representatividade, tão problematizada atualmente, colocamos para Marcia a seguinte pergunta: A partir de seu diagnóstico acerca do déficit de representatividade na Semana de 22, quando pontua que “O ingrediente popular, o repertório negro, as produções dos centros culturais operários, então bastante ativos, instrumentos como violão, cavaquinho, bandolim, ganzá e reco-reco —tudo isso ficou de fora. Ausentes também a arte dramática, o cinema, a fotografia, e incontáveis pintores, literatos e escultores de outros estados, cuja presença teria enriquecido e ampliado o alcance daquela ação”, já se pode reconhecer no atual cenário artístico brasileiro uma correção de rumos na direção de representatividade social?
Marcia nos respondeu: “Creio que sim. Notamos uma tendência de buscar representatividade social, de resgatar e dar voz aos antes excluídos do sistema cultural. Hoje podemos visitar uma exposição sobre Carolina de Jesus, cuja obra foi reeditada, para ficarmos apenas num exemplo. Há os saraus das periferias, as mostras de arte, enfim, uma multiplicidade de iniciativas que buscam sair da zona de conforto elitista do passado. A inclusão tornou-se a palavra-chave, a pedra de toque, o motor propulsor da cena cultural. Não se pode mais pensar em produção artística sem levar em conta as parcelas da população antes marginalizadas. Aliás, li que recentemente inauguraram uma exposição no próprio Teatro Municipal, trazendo para o centro do palco o que ficou de fora da Semana – o repertório negro, a arte popular, as mulheres, que estavam ali, mas em escasso número. Parece que o que venho dizendo nos meus livros e entrevistas encontrou eco, e isso me deixa muito feliz, com a sensação de ter conseguido dar o recado e ser ouvida”.
Descolonizar o pensamento e a arte
Invocando as iniciativas predominantes no Sul Global que tem posto em discussão e engajado intelectuais e artistas em torno do propósito de descolonizar o pensamento e as artes, lançamos para Marcia a seguinte pergunta: Você tem identificado a partir da Europa, movimentos artísticos motivados pelo ideal de descolonizar o pensamento e as artes?
Ela compartilhou conosco a sua compreensão de que “O Velho Continente vem, desde há muito, atuando no sentido de descolonizar o pensamento e a produção artística. Desde as experiências dos cubistas e dos impressionistas, que incorporaram aspectos do repertório africano e asiático nas suas próprias realizações, até as atuais exposições com artistas contemporâneos vindos de todas as partes do globo terrestre, mostram essa preocupação. Aqui na Europa vemos constantemente mostras, eventos, música e uma multiplicidade de manifestações de etnias e culturas do mundo inteiro. De modo que, aqui, temos a oportunidade de entrar em contato com o que de mais recente vem sendo feito em termos artísticos não apenas por produtores de outros países e outros continentes, mas também o que é realizado pelas periferias, pelos movimentos negros, pelas feministas, pelas minorias, o que confere um espírito de cosmopolitismo às grandes cidades e enriquece a nossa percepção sobre as artes em geral”.
Emendando ao tema da descolonização, mencionamos a recente polêmica no contexto da organização da Bienal de Artes de Veneza de 2022 em que o voto contrário de um jurado português integrante da equipe de curadoria do prestigioso evento, acerca da candidatura de uma instalação artística crítica ao colonialismo e racismo portugueses produzida pela artista multidisciplinar negra Grada Kilomba para representar Portugal na Bienal pôs em debate a pertinência dessa crítica em um pavilhão representado a arte portuguesa.
Marcia nos respondeu recorrendo ao legado deixado pela Semana de 22, “Os modernistas brasileiros já tinham tentado descolonizar o pensamento e o fazer artístico, mas no início eles hesitavam entre a quase xenofobia e a admiração pelas vanguardas europeias. A Antropofagia viria resolver tal paradoxo. Por isso, hoje, uma obra que nos convida a pensar as novas configurações do poder e do saber, questionando a tradição colonialista, que caminha de mãos dadas com o racismo e os preconceitos, torna-se fundamental. Creio que tanto Portugal, com suas ex-colônias de Angola e Moçambique, e a França, com a Argélia, podem e devem ser temas a serem revisitados com um olhar crítico. Essa perspectiva constitui uma rica e instigante matéria-prima para obras de arte que retrabalham os modelos de opressão, exploração e usurpação colonialista. Trata-se, a meu ver, de uma valiosa contribuição para conhecermos o passado recente e refletirmos sobre o mundo que queremos daqui para a frente. Portanto, essa instalação que você menciona não poderia ser mais representativa da arte portuguesa para qualquer Bienal”.
Anita, Tarsila e Pagu: precursoras na luta pela representatividade feminina nas artes
Por fim, perguntamos a Marcia se, na arena internacional de lutas por maior diversidade e representatividade nas artes, as mulheres têm motivos para comemorar? Anita, Tarsila e Pagu foram pioneiras dessa luta no Brasil?
Marcia respondeu com perceptível admiração pelos feitos dessas mulheres, mas com a consciência de que há muito ainda a ser conquistado: “Sim, de alguma forma essas três mulheres, cada uma a seu modo, foram precursoras na luta pela representatividade feminina nas artes. Não eram as únicas, há diversos livros e teses acadêmicas sobre as mulheres nas artes plásticas no Brasil nesse período, inclusive escultoras, num ambiente predominantemente masculino. Esse trio marcou época, rompeu com o patriarcalismo, e ficou para a posteridade, sobretudo devido à sua ligação com a Semana de 22 e o Modernismo. Elas foram seguidas por nomes como Lygia Clark, Lygia Pape, Tomie Ohtake, Maria Bonomi, Regina Silveira e Djanira, entre outras. Atualmente as mulheres têm ocupado cada vez mais espaço em todas as áreas, não apenas no âmbito artístico e cultural, embora haja ainda um longo caminho a ser percorrido. Para termos uma ideia da sua presença nas coleções particulares e nos espaços museológicos, eu cito a historiadora Ana Paula Simione. O mecenas Freitas Valle, por exemplo, cujo salão, a Villa Kyrial, transformou-se na minha tese de doutorado, que saiu depois em forma de livro, possuía, nas paredes do seu sobrado, obras de apenas sete mulheres entre 113 artistas. A Pinacoteca de São Paulo conta com 321 mulheres no conjunto de 1588 trabalhos, ou seja, 20% do total. A de Inhotim contabiliza 22 mulheres entre os 99 artistas e a coleção Mário de Andrade, do IEB/USP, soma 22 mulheres entre 135 nomes. Parece também que, embora, entre as obras mais caras em leilões internacionais, estejam as brasileiras Lygia Clark, Beatriz Milhazes e Adriana Varejão, elas permanecem numa posição minoritária no mercado internacional. Temos alguns motivos para comemorar, mas guardando os pés no chão, pois a luta para preservar esses lugares, conquistas e abrir caminho para uma maior projeção é permanente”.
O conhecimento acadêmico de Marcia Camargos sobre os significados da Semana de Arte de 1922 combinado com sua disposição intelectual e política para promover no presente a reflexão sobre questões tão sensíveis e caras a todas e todos nós, reforçam a crença na importância da apropriação significativa da história como ferramenta valiosa em processos de emancipação e afirmação altiva de um povo.
Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), escritor e professor universitário.
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24 de abril de 2022 3:52 pm1.a República. República Paulista. Cabeça antes de metamorfosear-se em rabo a partir de 1930. O abismo é estarrecedor e explícito. 92 anos rumo à Latrina TerceiroMundista.