25 de junho de 2026

“Mídia sabota a paz e também precisa abandonar as armas”, diz representante do Comunes, ex-FARC

A guerrilha cumpriu sua parte. A entrega das armas foi transmitida em cadeia nacional, ao vivo, diante de todo o país.
Valentina Beltrán: “Mídia naturaliza assassinatos e dificulta reintegração de ex-combatentes que assinaram o Acordo de Paz em 2016”. Foto: Vanessa Martina Silva

do Comunica Sul

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“Mídia sabota a paz e também precisa abandonar as armas”, diz representante do Comunes, ex-FARC

Seis anos após a assinatura do Acordo de Paz entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) e o governo de Juan Manuel Santos, a violência está longe de acabar no país irmão. Além dos assassinatos sistemáticos de líderes sociais,  incluindo o de ex-guerrilheiros reintegrados à sociedade, o governo do uribista Iván Duque cumpriu a sua promessa de trabalhar contra a implementação do Acordo. Mas há outro fator que mantém a Colômbia refém desta guerra: o papel jogado pelo oligopólio midiático.

FELIPE BIANCHI / COMUNICASUL

A denúncia é de Valentina Beltrán, representante legal do Comunes, o partido político que nasceu do Acordo de Paz e que diz respeito à reintegração de ex-combatentes na política, por via democrática e institucional. “O Acordo de Paz não é sobre entregar as armas e desmobilizar a luta política da guerrilha, mas sim de optar pela paz cuidando da reintegração social, econômica e também política dos que o assinaram”, explica.

A guerrilha cumpriu sua parte. A entrega das armas foi transmitida em cadeia nacional, ao vivo, diante de todo o país. Mas a eleição do candidato da ultradireita, Iván Duque, em 2018, foi um balde de água fria para os que se empenharam, durante quatro anos, na construção do Acordo de Paz.

“Cada vez mais nos damos conta do quão difícil é esse trabalho de reconciliação se não há apoio de todos os entes envolvidos no Acordo”, relata Beltrán. “Seria muito mais fácil se a pedagogia de paz acordada nas negociações fosse cumprida pelos colégios, pelo Ministério da Educação, pelos órgãos criados a partir das negociações e por todas as partes que se comprometeram a fazê-lo, mas não o fazem”.

E aonde entra a mídia nessa história? Beltrán responde: “Para os meios de comunicação mais poderosos da Colômbia, é como se nunca tivesse existido o Acordo de Paz. Eles continuam agindo como se nada tivesse ocorrido, beneficiando os setores que não querem o fim da guerra, pois vivem dela”.

Valentina Beltrán: “Acordo de Paz deveria cumprir a prevenção da estigmatização que sofremos”. Foto: Felipe Bianchi

“Esses meios de comunicação usam qualquer coisa como cortina de fumaça, interditando o debate sobre o processo de paz”, diz. “São obstinados pela ideia de um inimigo interno. Mesmo após a deposição das armas, continuam nos colocando no mesmo balaio da dissidência, dos que ainda seguem na selva. Não há nenhum debate sobre o que é a dissidência. A dissidência não é as FARC, não é o Comunes, não somos nós. Mas os meios jamais vão dizer isso”.

De acordo com Beltrán, a aposta total em sustentar a doutrina do inimigo interno serve somente para justificar a continuidade do conflito que já dura mais de cinco décadas. “É assim que defendem a doutrina de segurança na Colômbia. Os meios de comunicação seguem tendo uma responsabilidade muito grande na construção da guerra, o que deixa claro a quais interesses eles respondem”, argumenta.

“Enquanto os meios alternativas cumprem um papel fundamental para promover a agenda da reconciliação em nosso país, a mídia hegemônica segue empenhada em agudizar o conflito. Por isso, creio que são eles que deveriam entregar as armas e se desmobilizarem”, ironiza, explicando que “suas armas são a forma como desinformam sobre o Acordo de Paz”.

Conforme relembra, algumas manchetes publicadas por esses veículos, quando assinado o acordo, estampavam em letras garrafais que “o governo havia entregado o país aos guerrilheiros”. “Ou mentiras como quando falaram que vivíamos em mansões. Coisas absurdas”, protesta.

O assassinato de ex-combatentes que estão reintegrados na sociedade não é notícia para essa mídia, é a normalidade, critica Beltrán. “Essa postura ajuda a manter o estigma que existe contra nós. O desafio do Comunes enquanto força política passa por superar esta barreira e defender o processo de paz, que pode ter uma conjuntura totalmente diferente dependendo do resultado das eleições de 29 de maio”, sublinha.

O povo colombiano vai às urnas neste domingo (29), com a possibilidade de eleger, pela primeira vez, um candidato progressista. Com passado ligado à guerrilha, mais especificamente ao grupo M-19, o economista Gustavo Petro lidera todas as pesquisas de intenção de voto e representa a alternativa que poderia, enfim, implementar o Acordo de Paz.

*A reprodução deste conteúdo é livre, desde que citada a fonte e a lista de entidades e organizações que apoiam esta cobertura, como no rodapé a seguir.

Esta cobertura será feita pela Agência ComunicaSul graças ao apoio das seguintes entidades: da Associação dos/das Docentes da Universidade Federal de Lavras-MG, Federação Nacional dos Servidores do Poder Judiciário Federal e do MPU (Fenajufe), Confederação Sindical dos Trabalhadores/as das Américas (CSA), jornal Hora do Povo, Diálogos do Sul, Barão de Itararé, Portal Vermelho, Intersindical, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Sindicato dos Bancários do Piauí; Associação dos Professores do Ensino Oficial do Ceará (APEOC), Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-Sul), Sindicato dos Bancários do Amapá, Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Sindicato dos Metalúrgicos de Betim-MG, Sindicato dos Correios de São Paulo, Sindicato dos Trabalhadores em Água, Resíduos e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp Sudeste Centro), Associação dos Professores Universitários da Bahia, Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal do RS (Sintrajufe-RS), Sindicato dos Bancários de Santos e Região, Sindicato dos Químicos de Campinas, Osasco e Região, Sindicato dos Servidores de São Carlos, mandato popular do vereador Werner Rempel (Santa Maria-RS), Agência Sindical, Correio da Cidadania, Agência Saiba Mais e centenas de contribuições individuais.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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