O transporte rodoviário como assombração
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Em tempos em que os acontecimentos atropelam-se, em que as reações populares vão da efervescência à ebulição, não há como tratar de assuntos triviais. É preciso colaborar com o entendimento de alguns fenômenos concomitantes à redação. Lula ganhou as eleições e a reação de quem ficou pelo caminho começou pela paralização de caminhoneiros. É claro que se visa provocar o maior dano possível ao resultado das urnas. Bloquear estradas num país rodoviário como o Brasil parece ser o mais óbvio dos caminhos. Cabe perguntar por que é tão fácil promover esse tipo de manifestação.
Nenhum dos transportadores autônomos seria ingênuo a ponto de acreditar que o preço dos combustíveis permaneceria baixo depois da posse do presidente atual para um segundo mandato. Também não se espera uma ampla reforma na malha rodoviária, visto que o teto de gastos impede que algo além do pagamento de juros sobre o estoque da dívida seja alvo de recursos públicos. Mesmo o orçamento secreto, em sua discutível parcela produtiva, não vai além de obras pontuais, dado à pulverização da distribuição de verbas entre os membros do legislativo. Apesar de perspectivas sombrias com a manutenção do presidente atual, os caminhoneiros ligam-se umbilicalmente a ele e dispõem-se a prejudicar a população como um todo.
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Mais de três quartos dos caminhoneiros autônomos de longa distância são gaúchos ou descendentes deles e isso tem alguns motivos bastante interessantes. O primeiro vem de como o Rio Grande do Sul foi colonizado. Os movimentos posteriores à chegada dos bandeirantes estão ricamente descritos em “Um Quarto de Légua em Quadro” de Luís Antônio de Assis Brasil. Tratava-se da imigração dos Açores, então superpovoados, o que fez com que D. João V, mais tarde apoiado pelo Tratado de Madrid, mandasse massivo contingente para a região. Eles aportavam em Nossa senhora do Desterro, hoje Florianópolis, e recebiam um quadrado de 1,65 km de lado, ou 272,25 ha, ao redor da cidade de Rio Grande. As constantes guerras contra os descendentes dos espanhóis militarizaram a população, daí não haver uma só família de proprietário de terras que não possua, pelo menos, um militar. A guerra dos Farrapos, a participação da cavalaria gaúcha na Guerra do Paraguai, bem como a luta entre Maragatos e Pica-paus mostram o espírito aguerrido daquele povo, tanto que amarraram seus cavalos no obelisco por ocasião da posse de Getúlio Vargas, a quem apoiaram incondicionalmente. Durante os governos militares, tivemos Geisel e Médici como “presidentes”.
O próprio sistema fundiário, juntamente com o processo de sucessão familiar, tornou a divisão da terra entre herdeiros economicamente inviável. Isso explica o fato de os gaúchos serem os grandes pioneiros do Centro-Oeste, incluindo o oeste do Paraná. Assim, usando terras da família como garantia, os fazendeiros gaúchos adquiriram grandes áreas nos estados do Novo Brasil, atribuindo a tarefa de abrir as áreas ao segundo filho. Para o terceiro, compravam-se caminhões, aproveitando as áreas em expansão, bem como o fato de os clientes serem originários do mesmo estado, quando não parentes. Não é à toa que se encontram cidades com o nome de Querência do Norte ou Gaúcho do Norte. Também não há cidades recém emancipadas que não contem com um CTG (centro de tradição gaúcha), que se reúne nos galpões gaúchos, com os homens de bombacha e as mulheres vestidas de prenda.
A coisa aprofundou-se com os fluxos migratórios do século XIX, quando levas de italianos e alemães deram uma característica física singularmente europeia à população. Foi justamente essa imagem distinta, aliada ao atavismo exacerbado que pôs o sul do Brasil na mira de nazistas foragidos, mesmo porque ainda há pessoas com menos de quarenta anos que foram alfabetizadas em alemão ou italiano, antes mesmo de entrar em uma escola brasileira.
Trata-se de um povo que não tem medo de empreender, ou mesmo de dever. É uma gente que não se incomoda com viver nas piores condições, desde que veja uma promessa de progresso. É aos gaúchos que devemos a ocupação de nosso território e o profissionalismo de nossa agropecuária. Só que nenhuma moeda tem um lado só, pois é justamente a esse grupo de brasileiros que podemos imputar um conservadorismo que atinge as raias do reacionário. Assim, não admira que, com um militarismo arraigado, um grande amor às tradições, um físico reconhecível e um arrojo incontestável, tenhamos nesse grupo o público ideal para as promessas da extrema direita. As greves de caminhoneiros são, em essência, a manifestação pública do que eles levam no peito.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.
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Elizabeth Cancelli, Historiadora
1 de novembro de 2022 8:37 amQue samba doido! Bom estudar um pouquinho mais.
EMERSON DE FARIA
8 de novembro de 2022 4:39 amProfessor, gostaria de saber a sua opinião sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal e o teto de gastos.