4 de junho de 2026

O amor que sentimos, por Michel Aires de Souza Dias

O amor que sentimos surge das disposições herdadas, que compartilhamos em comum com outros indivíduos

por Michel Aires de Souza Dias*

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É uma crença bastante arraigada, no imaginário popular, que homens e mulheres se casem porque estão apaixonados. Acredita-se que o amor surge espontaneamente de forma irresistível, levando duas pessoas mutuamente a se gostarem. É como se o amor fosse uma entidade metafísica, um cupido, que por obra do acaso, leva dois seres a se encontrarem numa união indissolúvel e transcendente. Contudo, o amor não é um sentimento espontâneo, não é uma emoção violenta, que força dois indivíduos a se unirem. O amor, como todo fenômeno social, possui uma explicação sociológica. É possível encontrar padrões no amor conjugal, que são inequívocos. Com bastante segurança, podemos dizer que duas pessoas se apaixonam a partir de padrões  bem definidos, como classe social,  renda, educação, religião ou origem racial. Há uma trama de motivações relacionadas, ligada a certas estruturas institucionais, que se desenvolve nos indivíduos por meio da socialização:  prestígio, crença, carreira, conhecimento, ambição econômica,  poder, fama.  Como afirma Berger: “O investigador começa a suspeitar que, na maioria dos casos não é tanto a emoção do amor que cria certo tipo de relação, mas justamente o contrário: relações cuidadosamente pré-definidas, e muitas vezes planejadas, por fim geram a emoção desejada. Em outras palavras, quando certas condições são satisfeitas, natural ou artificialmente, uma pessoa permite se apaixonar” (BERGER, 1976, p. 46).

Se interrogarmos as pessoas sobre os motivos que as levaram a se casar, elas sempre serão capazes de dar boas razões para justificar seu amor. Contudo, apesar das respostas serem variadas e plausíveis,  o sociólogo entende que  não correspondem à verdade. Como pesquisador,  ele compreende que o discurso dos indivíduos é subjetivo e não pode ser pensado independente dos condicionamentos sociais. As pessoas não são conscientes dos determinismos sociais que produzem o seu discurso. A grande parte das nossas opiniões mais pessoais e transparentes não pertence a nós, mas ao sistema simbólico que adquirimos pela socialização, no espaço social. Quando interrogamos os cônjuges sobre o motivo de sua atração mútua, eles darão resposta subjetivas, como atração física,  compatibilidade de gênios, amor à primeira vista, objetivos em comum. As respostas são sempre preconcebidas e se fundamentam no imaginário popular. O que o senso-comum não consegue perceber, é que há uma tendência de se escolher parceiros com características semelhantes, como etnicidade, classe social ou nível cultural. A escolha do conjugue ocorre num meio social próximo ou idêntico ao seu meio de origem. É por isso que os filhos de grandes empresários quase nunca se apaixonam por filhas de um assalariado.  

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O fato é que os indivíduos são socializados em certos espaços sociais e adquirem certos esquemas de percepção. Os esquemas de percepção adquiridos são incompatíveis  entre indivíduos que não foram socializados ou não compartilham do mesmo espaço social. Para o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1996), o espaço social engloba o indivíduo como um ponto. Mas esse ponto é um ponto de vista, dotado de categorias de percepção, de esquemas classificatórios, de um gosto que lhe permite estabelecer diferenças,  discernir e distinguir entre o que lhe agrada e o que não lhe agrada. 

Ou seja, ao participar ativamente da sociedade, sendo socializado em determinados espaços sociais, assimilamos comportamentos, valores, gostos, normas, regras, preceitos,  de nosso grupo ou classe social. Adquirimos aquilo que Bourdieu denominou de  “habitus”.  O habitus pode ser entendido como uma forma de condicionamento, que produz um sistema de disposições duradouras para a ação, organizadora de práticas, esquema de percepção e representação, geradora de princípios e valores interiorizados, que regula a conduta dos agentes na estrutura social (BOURDIEU, 1980). Desse modo, uma pessoa que participa de uma igreja evangélica, dificilmente se casaria com um cientista que pertence ao mundo acadêmico. Da mesma forma um alto empresário dificilmente se casaria com uma funcionária assalariada,  das classes populares. O que o operário come, como se veste, os esportes que pratica, suas opiniões políticas são muito diferentes do consumo ou das atividades correspondentes de um empresário industrial. Os esquemas classificatórios,  os valores, os gostos e a visão de mundo são antagônicos. Como avalia Bourdieu (1996, p. 24-5), “as pessoas situadas no alto espaço têm pouca probabilidade de se casar com as pessoas situadas embaixo; em primeiro lugar, porque há pouca probabilidade de que elas se encontrem fisicamente […] e, também, porque se elas se encontrarem de passagem, por acaso, incidentalmente, elas ‘não se entenderão’, não compreenderão de fato umas às outras. A proximidade no espaço social, ao contrário,  predispõe a aproximação: as pessoas inscritas em um setor restrito do espaço serão ao mesmo tempo mais próximas (por suas propriedades e suas disposições, seus gostos) e mais inclinadas a se aproximar, e também mais fáceis de abordar, de mobilizar.” 

Na opinião de Bourdieu (1996), existir em um espaço, ser um ponto, um indivíduo em um espaço, é diferir, ser diferente, ou seja, é ser distintivo e significativo, opondo-se ao que é insignificante. Apesar do espaço social ser uma realidade invisível, que não se pode mostrar nem tocar, ele organiza as práticas e as representações dos agentes. Desse modo, o amor que sentimos surge das disposições herdadas, que compartilhamos em comum com outros indivíduos, como esquemas de percepção, gostos, propriedades, representações, interesses, visões de mundo, princípios e valores interiorizados, etc. 

Referências

BERGER, Peter. Perspectivas sociológicas: uma visão humanística. Petrópolis: Vozes, 1976.

BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. Trad. Mariza Correa.   Campinas: Papirus, 1996.

BOURDIEU, Pierre. Le sens pratique. Paris: Les Éditions de Minuit, 1980.   

*Michel Aires de Souza Dias – Mestre em Filosofia pela UFSCAR. Doutor em Educação pela USP.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem um ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Michel Aires

Graduação em filosofia pela UNESP. Mestre em filosofia pela UFSCAR. Doutor em educação pela USP. Tem experiência nas áreas de Filosofia e Educação, com ênfase na Teoria Crítica, em particular, nos pensamentos de Herbert Marcuse e Theodor Adorno. Possui artigos publicados nas áreas de educação, filosofia e ciências sociais.

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  1. Antonio Uchoa Neto

    28 de dezembro de 2022 9:44 am

    Ao Amor se aplica o Teorema de Garrincha: é preciso combinar com o outro lado.
    Algumas palavras do filósofo greco-baiano Platinho sobre o Amor:
    “Como as estrelas, a amizade tem diversas fases em sua existência; a mais prolongada delas, a sua ‘sequência principal’ acaba quando a frase limítrofe é dita: “eu te amo”. Aí ocorre a explosão de uma supernova, o amor, que engloba a conjunção carnal, e a posse, que evolui para a propriedade. Em outras palavras, a amizade acaba quando a frase acima mencionada é proferida, a supernova incha, o amor murcha, e a amizade volta, como anã branca. Às vezes, buraco negro, quando o tradicional ‘fulano não aceitava o fim do relacionamento’ produz seus efeitos, e o objeto do amor é sugado para o nada.”

    “O amor não existe, o amor está em toda parte. O amor veio, viu, e morreu, o amor morreu, viu, e foi. O amor a um palmo do nariz, o amor além da linha do horizonte. O amor é tudo e só dele eu falo, o amor a nada e ninguém fala. Não há clareza nem obscuridade, no amor; só há o amor. Se uma mulher te pede que fale de amor, silencia; ela não sabe, mas Cavalcanti (Guido) já terá esgotado o assunto; afinal de contas, quem lê? Mas também é provençal o amor. Amar é amassar o ar, é caçar lebre com boi, nadar contra a maré. Amor é gravidade, a dobra mesma do universo, a matéria-escura. Amor é relativo, e só relativo pode ser. Não existe amor absoluto. O absoluto nada conhece a não ser a si mesmo. É absoluto o amor chamado incondicional (entre mãe e filho, ou, mais especificamente, da mãe pelo filho) segundo o senso comum (sic); pois, se incondicional for, já de si está reduzido a um reflexo, e, portanto, sem valor intrínseco, pois pode ser comparado aos negativos do experimento de Pavlov. Se um filho assassina uma pessoa (filho, portanto, de uma mãe), e a mãe do assassino, por amor a este, o oculta e protege, está com sua capacidade de amar (e de possuir compaixão) flagrantemente diminuída, pois não demonstra, ou não dá vazão, a qualquer sentimento de empatia ou compaixão propriamente dita, pela mãe (um ser humano como ela) do defunto, que provavelmente amava este com a mesma intensidade – dir-se-ia, incondicionalmente – com que a mãe do assassino ama a seu filho e por isso o protege. E no entanto, ambas sofrem; um sofrimento é absoluto, a da mãe que perdeu o filho; outro é relativo, pois ainda priva da presença do seu, que sabe ser um assassino. Portanto, se amor incondicional, absoluto, existe, somente o pode fazê-lo sacrificando o sentimento de amor de uma pessoa como um todo, germinando egoísmo da terra morta em que se transformou o amor que um dia sentiu. E que se tornou incapaz de viver fora de seu torrão natal já contaminado pelo egoísmo. Assim vês como é inútil e tolo falar de amor incondicional. O amor de um homem por uma mulher (ou, mais apropriadamente, de um ser humano por outro ser humano), da mesma forma, por estar tão vulnerável a sentimentos tão díspares (ao menos em seus efeitos sobre si e os outros) como o ódio, a posse, o ciúme, já é, por definição, o império da fraqueza de caráter, da confusão dos desejos e vontades, da transitoriedade inelutável dos sentimentos, e por tabela de tudo que há de contraditório e desprezível no ser humano, ainda que todos esses os tenha parido (ou gerado) de alguma forma o próprio amor, e que separados estão de seus avessos por um ribeirinho que dá vau até a um bebê engatinhando. Para onde quer que se olhe, o amor é uma entidade limítrofe. Porque se o amor acaba, terá sido apenas o ódio de boa cara. Mas o amor acaba, e não verás cara nenhuma, nem a boa, nem a má; e tudo ficará como se a cara fosse só uma. Amor é difícil de entender, fácil de sentir, trivialidade definida como complexo enigma. Tudo que é intenso é amor, até mesmo o ódio. O amor existe, e não está em lugar algum. O amor nasceu e não morreu, morreu sem ter nascido. O amor é o absurdo de si mesmo, em que se crê porque é um absurdo que de absurdo não tem nada. Se queres saber o que é amor, consulta todos os outros verbetes de um dicionário – inclusive este. Talvez venhais a encontrar alguma pista, algum indício…mas não encareis essa empreitada com muitas esperanças de sair vencedor dela. Nem queirais mal a este filósofo, por deixar não respondida questão tão grave. Existe um antídoto contra essa frustração: amar. Ama mesmo sem saber do que se trata. O amor prefeito é aquele que não precisa ser proclamado aos quatro ventos, nem sussurrado ao pé do ouvido do objeto do amor. Vivemos porque nascemos; amamos porque vivemos; deixa o resto nas mãos de quem quiseres, sem te preocupares com quem faz as escolhas. Se o objeto do teu amor jamais souber que o(a) amaste, terás alcançado o amor perfeito. Mas, se o alcançaste, é provável que não o tenhas percebido. Ou o tenhas estragado, dizendo: eu te amo.”

  2. AMBAR

    28 de dezembro de 2022 11:51 pm

    Se o amor pudesse ser racionalizado ele teria um nome técnico. Há pessoas com quem vivemos em paz e harmonia sem nunca sentir amor por elas, tanto quanto há pessoas que a um simples olhar amamos, querendo viver com elas a vida inteira.
    Sobre uniões amorosas só posso dizer que a morte não nos separa de quem amamos e sim a vida.

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