10 de junho de 2026

Banco Central meio fora de eixo, por André Motta Araujo

Visões de Estado jamais deveriam ter como pano de fundo uma escola de Economia, porque Estado é uma coisa muito maior.
Agência Brasil

Banco Central meio fora de eixo

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por André Motta Araujo

Parecem meio fora do tom, típicos de quem precisa mostrar serviço no começo do emprego, os opróbrios de Lula contra o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto – economista com pinta de galã, mas sem a aura de sapiência do lendário avô.

Quando ouço um alto dirigente, e agora Lula, descer a lenha na atual taxa de juros estabelecida pelo Comitê de Política Monetária do BC, estacionada há três meses na casa dos 13,75%, costumo tirar da gaveta meus extratos bancários – com saldos eventualmente negativos. Se estiver num período de tendência ao sadomasoquismo – mais no sufixo que no prefixo – calculo as taxas de juros impostas pelo banco credor ao final do mês. Nunca menores do que 15% ao mês. Reforço: a do COPOM do BC é 13,75% AO ANO. O dos agiotas oficiais, 15% AO MÊS. E lembro que há financeiras bilionárias cobrando 25% AO MÊS pelos trocados que empresta. E Viva o Palmeiras – se é que me entendem.

Ok, a acusação de Lula é pertinente, partindo do presidente da República, a quem faculta uma crítica desse teor. O que está em jogo, no caso, não são cédulas e moedas, juros e inflação. O problema, ou o foco das discórdias, está nos respectivos papéis – no caso, atribuições, não cédulas, de BC, COPOM, poder público e etc. Nesta era de nossa Economia, ainda vivemos eventualmente na idade pré-papel. Começo pela História – a eterna progenitora dos grandes conceitos.

A história do BC americano é completamente diferente dos demais BCs. Criado em 1913 pelo presidente Wilson, o FED teve inscritos nos seus estatutos o poder total do primeiro mandatário norte-americano e duas tarefas dos governantes da vez: pleno emprego e estabilidade da moeda. Em 1931, o presidente Roosevelt demitiu o então presidente do FED, Eugene Meyer (cuja filha, Lally Graham, seria por mim convidada a entrevistar Lula e Dilma em suas respectivas eleições). Outro comandante do FED, Thomas McArby, foi demitido pelo presidente Eisenhower por telefone. O que está por trás dessas histórias é que o FED é um instrumento do poder e não de política monetária autônoma e independente.

As escolas de política econômica, como o neoliberalismo, não têm muita importância nos EUA – e, entre essas, a escola de Milton Friedman está morta e enterrada faz mais de 40 anos. Não se sabe por que ainda tem tanto destaque no Brasil, especialmente após a morte de seu criador. São modelitos com o sentido de estarem na moda, mas nem deveriam ser ainda citados. Política econômica é política de Estado – e não de uma parte dele. A noção de uma “Faria Lima” impositiva é ridícula, porque a versão americana e britânica é uma escola defunta a partir das mortes de Friedman e de Tacher.

Visões de Estado jamais deveriam ter como pano de fundo uma escola de Economia, porque Estado é uma coisa muito maior. Dólar e real foram criados pelo Estado, mas o dólar é o único a ter aceitação mundial – uma ferramenta geopolítica decorrente e dependente do Estado mais poderoso do globo. No board de decisões econômicas dos Estados Unidos, buscam-se opiniões conflitantes, de preferência adversários. E, paralelamente, nosso BC ainda está operando como se fosse um país das mesma dimensões geopolíticas que os EUA e formado por iguais em ideologia, que precisam impor aos 210 milhões de brasileiros taxas e índices.

Não conheço a fundo Roberto Campos Neto. Não posso garantir ou desmentir que tenha herdado a competência e o brilho intelectual do avô. Todo mês almoçávamos em Brasília ou no Rio – onde, em seu apartamento duplex, ele mantinha uma pinacoteca com uns 200 quadros 5 estrelas – uma galeria muito mais vasta e poderosa do que nossa economia. RC tinha a exata noção dos limites de entidades como o BC – pelo predomínio do Estado nesse contexto verdadeiramente nacional. Em nossos almoços, ele invariavelmente deixava transparecer sua paixão pelo cinema – especialmente por Hollywood na época da Segunda Guerra e, particularmente, pelos oito donos dos principais estúdios na época, todos baixinhos e judeus. Uma época em que o poder do Banco Central não era uma espécie de cinema independente, mas derivava dos produtores da moeda – o Estado.

Para uma visão mais abrangente desse complexo cenário, tente, se puder, encontrar meu livro MOEDA E PROSPERIDADE (Ed. Topbooks), 900 páginas. Lula não vai ler – mas sua queixa contra a taxa do COPOM soou pertinente, embora não suficientemente poderosa.

Andre Motta Araujo – Advogado, foi dirigente do Sindicato Nacional da Indústria Elétrica, presidente da Emplasa-Empresa de Planejamento Urbano do Estado de S. Paulo

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Andre Motta Araujo

Advogado, foi dirigente do Sindicato Nacional da Indústria Elétrica, presidente da Emplasa-Empresa de Planejamento Urbano do Estado de S. Paulo

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12 Comentários
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  1. Anônimo

    16 de fevereiro de 2023 6:38 pm

    Mais importante que o excelente artigo em si, é ler AMA novamente

  2. Voltadosquenaoforam

    16 de fevereiro de 2023 6:41 pm

    AMA, excelente artigo!
    Tava sumido, mas tá vivo. E quem está vivo sempre aparece

  3. José de Almeida Bispo

    16 de fevereiro de 2023 9:25 pm

    Desde que banqueiros, na prática assumiram o governo da Inglaterra (por extensão do Reino Unido) que essa mania de governar, só para si, através dos bancos centrais não cessou; em contrário. Quase todas as guerras depois da Guerra do Ópio (fundação do HSBC) teve a banca por trás, de olho no dinheiro fácil, até mesmo a Guerra da Crimeia e as manias protecionistas de independência dos russos em relação ao seu Banco Central.

  4. Milton

    17 de fevereiro de 2023 9:31 am

    Bom e necessário retorno, André.
    Do governo Lula, com um bom começo, vejo a espera de 523 anos para ver o “bolo crescer” e a repartição ao povaréu.
    Vamos esperar os 2 anos que faltam ao “cidadão” para que uma autarquia se integre ao restante do Executivo. Excrecência do “temeroso”.
    Com o poder de Presidente aguarda pacientemente que a mídia lhe dê espaço.
    Como já foi dito:
    – quem sabe faz a hora não espera acontecer.

  5. Mário Mendonça

    17 de fevereiro de 2023 11:19 am

    Parabéns Nassif, por trazer de volta esse grande Missivista!

    Por favor André, não nos deixe sem seus ótimos pitacos!

    Mário Mendonça

  6. Mário Mendonça

    17 de fevereiro de 2023 11:23 am

    Agradecendo também a Lourdes, via MSG, por tanta cobrança pela volta do AMA!

    Um jornal como o GGN não pode ficar sem esse articulista.

  7. Anônimo

    17 de fevereiro de 2023 12:45 pm

    Que Otimo voltar a ter a coluna do Andre Araujo!!!

  8. Mauricio20

    17 de fevereiro de 2023 4:30 pm

    Que prazer voltar a ler as análises aprofundadas do André Araújo!!

  9. josé Oliveira de Araújo

    18 de fevereiro de 2023 9:06 am

    A PIOR INFLAÇÃO PARA O ASSALARIADO, É PERDA DO EMPREGO.

    NA MINHA OPINIÃO, O BCB TEM COMO META PRINCIPAL,IMPOSTA PELO FAMIGERADO MERCADO, É O LUCRO FÁCIL. EMBORA EXISTA, O COMBATE À INFLAÇÃO SERVE COMO DESCULPA E PARA NÃO FRUSTAR A PERSPECTIVA DE LUCRO.

  10. DESLANDI TORRES

    18 de fevereiro de 2023 12:50 pm

    Pensei que não ia voltar mais. Felizmente, estava enganado. Parabéns, Nassif, por essa reconquista.

  11. DESLANDI TORRES

    18 de fevereiro de 2023 12:50 pm

    Pensei que não ia voltar mais. Felizmente, estava enganado. Parabéns, Nassif, por essa reconquista.

  12. Sidnei

    19 de fevereiro de 2023 2:50 pm

    Abraço, André!
    Infelizmente a política monetária parece ser o calcanhar de Aquiles do novo governo.
    No entanto a midia mainstream faz coro pra salvar o presidente do BC e o “coitado” do mercado.
    A mesma palhaçada de sempre…

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