A economia mundial pós-pandemia, por Andre Motta Araujo

Foi assim nos pós-guerras, primeiro se vence o conflito, depois se ajusta o rescaldo do resultado, a reparação de danos se faz depois da vitória, no caso é ganhar a batalha da pandemia e manter as famílias vivas, para isso é preciso injetar liquidez para evitar tragédias.

A economia mundial pós-pandemia

por Andre Motta Araujo

Um painel da economia mundial pós-pandemia, que acredita-se será vencida após a mega vacinação a ocorrer em 2022, foi traçada por uma sábia entrevista de Alan Greenspan, o  Maestro, título de uma biografia do lendário Chairman do FED por 21 anos, dada à jornalista britânica Julia Cahatterley. Greenspan parte do princípio de que o AJUSTE FISCAL DEVE MOLDAR-SE AOS ACONTECIMENTOS e não o contrário, como pretendem fórmulas fixas como o TETO DE GASTOS.

Greenspan segue a mesma corrente de pensamento quase filosófico de Lord Keynes, quando interpelado por Lady Astor “mas o senhor é um inconstante, a toda hora muda de ideia” ao que Keynes respondeu “Mylady, eu não mudo, o que mudam são as circunstâncias”. Keynes quis dizer que a economia é uma derivada das incontáveis variáveis da aventura humana. Se há guerras, catástrofes, epidemias, a economia tem que se AJUSTAR a esse conjunto de mudanças e não seguir imune com mandamentos fixos, que é exatamente o que pretendem os economistas antigamente chamados de “ortodoxos”. Hoje o mesmo grupo é chamado de “economistas neoliberais ou de mercado” porque pretendem que o mapa social nunca mude para que eles possam operar com variáveis previsíveis e aí fazer suas apostas ganhadoras. O mundo nunca foi previsível, mas muita gente ganha a vida fazendo previsões, parentes dos astrólogos antigos.

A ECONOMIA PÓS-PANDEMIA

Como disse Greenspan a respeito da pretendida política de ESTÍMULOS MONETÁRIOS do futuro Presidente Joe Biden, um pacote de US$3 trilhões para relançar a economia americana e mundial, o “ajuste fiscal vem a reboque da política econômica e não antes dela”, quer dizer que o reparo se faz a posteriori e não se engessando antes a economia pelo ajuste fiscal preventivo, uma demanda sempre dos mercados financeiros que necessitam de ambientes de formulas fixas para poder apostar em derivativos com menor risco.

A razão é que há uma doença maior a combater, a economia em ruinas pelo mundo pós-pandemia e, ao combater essa doença, se criarão desajustes que DEPOIS merecerão um ajuste corretivo. Foi assim nos pós-guerras, primeiro se vence o conflito, depois se ajusta o rescaldo do resultado, a reparação de danos se faz depois da vitória, no caso é ganhar a batalha da pandemia e manter as famílias vivas, com comida, energia e remédios, para isso é preciso injetar liquidez para evitar tragédias.

Ajuste fiscal, é uma questão de prioridade sobre a gravidade dos males, como num terremoto, primeiro se resgata os soterrados e depois cuidemos da despesa do esforço.

Aplicada ao Brasil, a receita permite um novo auxílio de emergência, créditos às empresas, para manter a economia flutuando, para isso é precisa enfrentar mitos.

O MITO DA DÍVIDA PÚBLICA

A dívida pública não tem um limite virtuoso dado por algum sábio, pode ser menor, igual ou maior do que o PIB, depende das circunstâncias. No limite, a dívida pública em MOEDA NACIONAL nunca será um problema porque pode ser resgatada com emissão. Em uma economia há mais de 5 anos em recessão, a emissão para resgatar a dívida, SE ESSA NÃO PUDER SER RENOVADA OU AUMENTADA, causará poucos problemas porque há capacidade ociosa a ocupar na economia, cuja medida é o desemprego, agora gigantesco.

Mas se houver inflação, essa também não é o fim do mundo. O BRASIL CRESCEU AS MAIORES TAXAS DO MUNDO entre 1950 e 1980, COM ALTA INFLAÇÃO, nenhum desemprego, incorporação de milhões de migrantes do Nordeste à economia industrial do Sul, com notável ascensão social de famílias, tudo em uma economia com inflação.

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A dívida pública então era muito mais perigosa porque era em MOEDA ESTRANGEIRA, precisava ser paga com divisas difíceis de obter e guardar, sobre as quais o Tesouro não tinha domínio, o País ficava à mercê de intempéries externas fora de seu controle. Agora, a dívida pública é INTERNA, em moeda nacional que legalmente o Estado pode emitir.

O coro dos “economistas de mercado”, e seus amplificadores na mídia, chama a atenção em tom de assustados com o fato de que parte importante da dívida vence no próximo ano.

Dizem isso como aviso de que a dívida TEM QUE SER PAGA. Ora, no mundo inteiro dívida pública RARAMENTE É PAGA, é rolada, dívida pública é reserva de liquidez para todo o sistema, para as tesourarias das grandes empresas e fundos, especialmente é a matéria prima fundamental para a reserva de liquidez dos bancos, raramente algum vai ao guichê do Tesouro resgatar a dívida, ela é reciclada, renovada, mais ainda, no Brasil, como no resto do mundo.

Grande parte dos títulos da dívida estão como ativo de entes controlados pelo Governo central, no Brasil no Banco Central, no Banco do Brasil, no BNDES, na Caixa Econômica, nos fundos de pensão das estatais, assim como nos EUA onde um terço dos Treasury Bills estão nos cofres do FED.

Então não adianta aos comentaristas da grande mídia aplicar à dívida pública a lógica de dívida na padaria, que precisa ser paga. A lógica é completamente diferente, DÍVIDA PÚBLICA EM MOEDA NACIONAL não deve ser a preocupação central de um Ministro da Economia carregando nas costas uma DEPRESSÃO monstruosa da economia, com reflexos catastróficos sobre o emprego. A dívida pública e o ajuste fiscal NÃO serão a lógica do Governo Biden, do Governo da China e de outros governos de grandes países no pós-pandemia, quando é PRECISO RELANÇAR A ECONOMIA para que a população sobreviva, e esta só pode recomeçar a funcionar com liquidez injetada para criar demanda que gera emprego e este gera renda nova que gera mais demanda e mais emprego, seguindo-se o caminho virtuoso do crescimento.

A PREOCUPAÇÃO COM INFLAÇÃO

O mantra da “meta de inflação” é a NECESSIDADE DO MERCADO FINANCEIRO de prever a inflação, nada além. Para os 40 milhões de desempregados, subempregados, desalentados, para outros 40 milhões de invisíveis que sequer têm cadastro para receber auxílios, inflação é uma nuvem que pouco os afeta. Mas os “economistas de mercado” pais do Real conseguiram introjetar na mídia econômica o mantra de que “a inflação prejudica mais os pobres”, esse estribilho é cantado até hoje pelo ínclito prof. Luís Roberto Cunha, que fala isso desde o Plano Real.

É uma cortina para cobrir a verdade real, a INFLAÇÃO É MORTAL PARA OS DONOS DE ATIVOS FINANCEIROS mas não é tão perigosa para os pobres que tem emprego, eles sabem muito bem se defender da inflação, como se defendiam desde 1950, fazendo a “compra do mês” no dia em que recebiam o salário e também no mesmo dia comprando material de construção, geladeira, fogão, eles eram rápidos para se defender, ninguém guardava dinheiro debaixo do colchão como dão a entender os professores da PUC Rio. A inflação não é uma coisa boa, mas é um mal menor que a depressão sem inflação, no modelo do Prof. Salazar, que manteve em Portugal a moeda mais forte da Europa, mas obrigando metade da população a emigrar porque não havia meios de subsistência em Portugal, só a moeda forte mais nada, não havia emprego e prosperidade.

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AS NECESSIDADES DO PÓS-PANDEMIA

Os efeitos da pandemia sobre a economia global são claros. Uma destruição de negócios, empresas e empregos jamais vista depois da Segunda Guerra. Na Espanha 17% do PIB depende do turismo, que desapareceu com a pandemia, dezenas de milhares de restaurantes, cafés, hotéis, ônibus de turismo, estações de esqui paralisados. Em todos os setores, especialmente de serviços, grandes perdas de renda, cancelamento de empregos, como nas linhas de aviação e companhias de cruzeiros marítimos. As reuniões de negócio despareceram, os museus perderam grande parte dos visitantes, na Broadway em New York uma centena de teatros fechados, cada um empregando bilheteiros, iluminadores, cenógrafos sem falar nos artistas. Cursos de tudo, de música, de costura, de cozinha perderam alunos, muitos fecharam, academias de dança e de ginástica idem.

Fazer dar partida na locomotiva das economias vai exigir massiva injeção de liquidez, isso pode gerar alguma inflação ou NÃO. No New Deal e no esforço da Segunda Guerra nos EUA pensou-se em mega inflação que não aconteceu, a inflação só ocorre no GERAL DOS PREÇOS quando se atinge o pleno emprego. No Brasil a inflação de alimentos é específica da FALTA DE UMA POLÍTICA DE ESTOQUES e de controle de exportação, não se guardando nada para a comida da população do País, coisa que só governos muito incompetentes permitem, mas é um inflação localizada e não no nível geral de preços, por causas especificas de grupos de produtos que têm mercado externo mais rentável.

A pandemia vai exigir um esforço de políticas econômicas coordenadas e com metas claras de crescimento de atividades, algo que o conhecimento técnico e a ciência podem proporcionar com custos sociais menores do que o simples processo de experiência e erro. Greenspan deu essa tônica. Ele era famoso por ficar horas na banheira lendo estatísticas diárias de construções, venda de telhados de casas, de tubos, de pias e bacias, regulava o fluxo monetário a partir do conhecimento de dados reais da economia dia a dia, um processo de ajuste fino e preciso de liquidez para garantir o crescimento.

Em um sistema desse tipo uma fórmula fixa como TETO DE GASTOS é uma insanidade, uma camisa de força sem lógica numa economia que precisa deslanchar, ao contrário, o gasto público em obras de infraestrutura e serviços de educação e saúde pode ser o empuxo para a economia crescer. Fórmulas fixas são um imenso retrocesso na ciência econômica, que precisa ser o ajuste diário de políticas monetárias, de câmbio, de crédito, para que as variáveis da economia sejam coordenadas, obra equivalente a de um maestro numa grande orquestra, daí o título da mega biografia de Greenspan por Sebastian Mallaby, muito apropriadamente intitulada MAESTRO, é o trabalho de um grande maestro, a antítese de políticas econômicas de fórmulas fixas.

O Brasil NÃO está se preparando para uma economia pós-pandemia, não há massa cinzenta na equipe econômica para um plano de crescimento e de emprego, mesmo quando a economia agrícola de exportação bate recordes de renda pelo câmbio desvalorizado que prejudica os mais pobres pela inflação de alimentos, ao mesmo tempo que aumenta a renda dos exportadores que podem guardar seus dólares no exterior, por uma legislação absurda do Banco Central. Para gerar os dólares há o uso dos fatores internos do País, a começar da terra, mas o resultado desse esforço interno fica lá fora sem nenhum proveito para o conjunto do País, um privilégio insano que cria uma faixa de grandes beneficiários à custa do conjunto  da população do País. Aliás, nos últimos dez anos, medidas do Banco Central na área cambial foram todas tomadas para beneficiar o mercado financeiro à custa da economia interna, do emprego e da renda, abrindo as portas para a volatilidade cambial que fez o REAL sem motivo lógico se depreciar em quase 50% em 12 meses, medidas ANTI-NACIONAIS que operam contra a economia interna. Estão ai as estatísticas de fuga de capitais que acentuam a recessão, é uma política toda ela voltada para o mercado financeiro e não para os interesses maiores da economia nacional e do conjunto da população, na crença IDEOLÓGICA TORTA de que se beneficiando o mercado esse irá investir mais no País e beneficiar o conjunto da economia, NÃO É O QUE ESTÁ ACONTECENDO.

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Com os controles anteriores da FIRCE do Banco Central, todos desmontados, a economia produtiva era muito mais dinâmica e benéfica aos empregos e renda no País. As medidas de LIBERALIZAÇÃO CAMBIAL estão na raiz da desvalorização do Real sem nenhuma lógica econômica e em detrimento da vida e da subsistência de dezenas de milhões de brasileiros pobres. Não há outra explicação para que o Real tenha sido a MOEDA QUE MAIS SE DESVALORIZOU NO MUNDO EM 2020, no mesmo ano em que a entrada de dólares por exportação foi recorde. ONDE ESTÃO ESSES DÓLARES?

A variável nova para 2021 será a política de estímulos do Governo Biden, replicada no Reino Unido por um pacote semelhante e em menor escala na União Europeia, a mesma política deveria ser seguida pelo Brasil. Há espaço na economia brasileira desde que se removam as amarras absurdas do TETO DE GASTOS e outros constrangimentos artificiais que colocam uma camisa de força no potencial da economia brasileira, que tem amplos fatores instalados para uma deslanche de produção e empregos ao mesmo tempo em que há de se rever toda a política cambial que fez o Real perder valor mais que qualquer outra moeda do mundo, o que prova o desacerto da política de DESCONTROLE CAMBIAL do Banco Central, feita exclusivamente em função da especulação financeira e contra os interesses da economia interna, a prova é a situação de recessão mesmo anterior à pandemia, em um cenário onde a última cota de interesse do País é a autonomia para o Banco Central produzir um estrago na moeda dessa dimensão por políticas erradas.

O Brasil precisa utilizar a sabedoria e a experiência acumulada de Keynes, de Greenspan e de outros sábios para tempos de crise, é hora de pensar.

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9 comentários

  1. É hora de começar uma campanha nacional e popular pelo fim do Teto de Gastos, explicando didaticamente o seu significado desastroso para a população mais pobre e ao mesmo tempo dando nome aos bois dos seus defensores e por que.
    O artigo do André bem que poderia servir como manifesto.
    Parabéns.

  2. Texto digno de divulgação. Saiu uma matéria agora no GGN dizendo que há como limitar a gastança do FED ( Lei CARES, nunca ouvi falar) no momento. Realmente, um Estado se preocupar mais com dívida do q com o povo, e o bolso do povo…é de lascar e esse teto quebra as pernas de qual quer plano de ajuda econômica, mas se não há interesse em ajudar por parte de quem comanda, $$$ nos bancos não adianta muito, só endivida mais o povo e as empresas. Ademais, senti falta de abordagem à China e seu novo acordo. Mas a leitura foi massa, desmistificou um pouco os perigos da temida inflação hehehe , valeu.

  3. AA, por onde você andou? Porque não nos deu um sinal durante tanto tempo?
    Estava com saudades de você, apesar de você ser de direita. Mas é uma direita coerente e inteligente, ao contrário da maioria de direita

  4. Bem vindo de volta, André.
    Mas não me leve a mal, se eu disser que Alan Greenspan é uma piada de mau gosto.
    Passou anos como chairman do Fed, cumprindo os ditames do Deus-mercado, enriquecendo seus amigos em Wall Street, saiu de lá proclamando que estava errado em algumas de suas convicções – embora as tenha colocado em prática sem um pingo de hesitação – e agora merece do AA a glória de ser comparado a Keynes.
    O “Maestro” é uma piada de mau gosto, e o André ainda consegue rir dela.

  5. Não há niguém burro ou ignorante no governo. Eles sabem o que estão fazendo e assim o fazem porque são “testas de ferro” de grupos de interesse: os banqueiros, as empresas do agronegócio – muitas delas estrangeiras -, de madereiros, de pecuaristas e por aí vai.

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